Violência e tecnologia: é possível pensar a paz a partir de uma sociologia dos armamentos?, por Alcides E. Peron

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Boa parte da bibliografia disponível sobre o tema “Estudos para a Paz” apresenta perspectivas críticas acerca das causas estruturais da violência e conflitos, e com isso buscam propor alternativas para a superação desses elementos. Em grande medida, esse tipo de estudos possui uma dimensão crítica bastante marcante, não apenas pelo seu caráter interdisciplinar, mas principalmente por alvejar diretamente a pretensão de objetividade do realismo e propor um método distinto deste – com proposições de mudança, em certos casos, visando a emancipação social. Isso já não é uma novidade, como nos lembra Pureza (2009), uma vez que a disciplina nasce em um contexto de contestação do realismo tradicional – e do seu modo de ser positivista – por diversas correntes teóricas que podem ser compreendidas enquanto “pós-positivistas” no campo das Relações Internacionais.

Nesse rumo de investigações sobre a paz e para a paz, um dos trabalhos com maior expressão é o de Johan Galtung (1969), o qual, a partir de uma leitura social e histórica da violência – a qual opõe diretamente a paz – nos fornece um instrumental teórico para compreender as facetas desse fenômeno. O que mais nos interessa aqui, são as suas concepções de violência estrutural e cultural, uma vez que para a sua definição envolve categorias filosóficas (da própria teoria crítica frankfurtiana) e da psicologia. Ao seu ver, tanto a violência estrutural, quanto a cultural seriam o resultado de um complexo processo social, da estrutura de relações entre os diversos agentes que compõem a intrincada rede social. Em outras palavras, a maneira como a sociedade se estrutura (em um profundo abismo entre classes, por exemplo) pode estimular e intensificar a violência entre os agentes, e mais ainda, em um contexto de produção cultural específica, é possível que haja processos de desengajamento moral em relação aos atos de violência cometidos pelos indivíduos.

Com base nesse referencial construído por Galtung (1969), , é possível fazer a seguinte digressão, a partir de autores que compõem ou o construtivismo social, ou o pós estruturalismo nos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia: Como o fazem Bruno Latour (1994), Trevor Pinch (2012), Langdon Winner (1986), Donald Mackenzie (1990), Thomas Hughes (2012), dentre outros, é possível considerar a sociedade como algo composto não apenas pelos seres vivos (indivíduos humanos), como também por seres inanimados (objetos técnicos), os quais são construídos socialmente e possuem capacidade de agência sobre a estrutura social. Como expõem diversos desses autores, a sociedade seria um “tecido sem costuras”, em que se torna impossível discernir entre indivíduos e objetos técnicos, onde humanos planejam, elaboram e desenvolvem grandes sistemas tecnológicos, os quais passam a gerenciar o seu cotidiano e mesmo o seu modo de existir.

A partir de então, nos cabe colocar a seguinte pergunta: Se humanos e objetos técnicos constituem o tecido sem costuras da sociedade, em que medida podemos atribuir aos objetos técnicos, ou no limite, ao mutuo agenciamento entre humanos e esses objetos, o escalonamento da violência em uma sociedade ou em âmbito internacional? Em outras palavras, é possível que uma “sociologia” dos objetos técnicos possa contribuir para os Estudos para a Paz? Para trazer alguma luz a essa pergunta nos apoiaremos em três breves estudos teóricos: um de caráter sociológico, de Bruno Latour (1994) acerca do armamentismo na sociedade; um de caráter histórico, o de Donald MacKenzie (1990) sobre a invenção da precisão nos mísseis balísticos transcontinentais; e um de caráter filosófico, de Gregoire Chamanyou (2013) acerca dos Drones e a política internacional.

Em um artigo publicado em 1994 denominado “On Technical Mediation: Philosophy, Sociology, Genealogy”, Bruno Latour apresenta uma breve discussão acerca do modo como a mediação técnica (fruto da interação entre humanos e objetos técnicos) pode levar não apenas à formação de um agente específico, dotado de racionalidade e intenções próprias, mas como essa interação pode levar a cursos de ações distintos. Investigando a controvérsia entre grupos que buscam restringir a venda de armas nos EUA (que argumentam que armas matam pessoas), e a Associação Nacional de Rifles, que busca a sua liberação (argumentando que pessoas matam pessoas, e não armas), Latour sugere que seria extremamente ingênuo acreditar que pessoas portando armas não se configuram enquanto um terceiro agente, com uma racionalidade específica e um poder de agencia bastante distinto dos demais agentes (armas e humanos), capaz de produzir um curso de ação totalmente distinto (um homem que não porta uma arma não pode matar outro com um tiro). De certa forma, Latour nos atenta para a ideia de que, objetos técnicos em agenciamento com humanos levam-nos a produzir outro tipo de ação, e nesse caso específico, uma sociedade armada torna-se, evidentemente, mais propensa a cometer crimes, e ter um comportamento violento, do que uma sociedade desprovida de armas.

Donald Mackenzie (1990), por sua vez, realiza uma análise bastante intrigante sobre o desenvolvimento dos misseis balísticos transcontinentais pelos EUA. Em seu livro intitulado “Inventing Accuracy”, Mackenzie afirma que o desenvolvimento dos mísseis transcontinentais se dá em paralelo com a construção política da ideia de precisão e cirurgismo desses objetos. O autor apresenta diversas evidencias de que, tecnicamente, não haviam provas de que os mísseis balísticos transcontinentais guardariam uma precisão cirúrgica, pelo contrário, haviam provas de que os EUA inclusive não conseguiram atingi-la, mas dado o seu potencial estratégico para produzir deterrência, formulou-se um consenso político no entorno do argumento de precisão desses objetos. A análise de MacKenzie evidencia que, as ferramentas para a violência são dotadas não apenas de capacidades técnicas, mas desenvolvem-se suportadas por discursos que visam a legitimação do seu uso, sustentando a evolução e a manutenção de políticas de coação e terror.

Por sua vez, Gregoire Chamanyou (2013), em seu livro Theorie du Drone, em que analisa todos os deslocamentos teóricos e estratégicos que a introdução o Drone enquanto arma de guerra provoca, o autor sugere uma nova forma de abordar os problemas em relação à violência. Ao seu ver, no momento em que o Drone provoca uma revolução no modo como se promove a violência – não permitindo a reciprocidade em nenhum sentido, bagunçando as categorias de soberania, localidade e ético morais – faz se necessário uma teoria crítica dos armamentos. Segundo o autor, a única forma para se derrubar o “mecanismo da luta militar”, seria a partir de uma teoria crítica dos armamentos que permita, através de uma análise tanto técnica, quanto política, compreender as relações sociais que ele envolve. Isto é, de que forma que os meios constrangem os modos de ação, e provocam efeitos muito específicos sobre os usuários, sobre aqueles alvejados por essas armas, e sobre aqueles que decidem politicamente pelo seu uso. De acordo com o autor: “A ideia seria que os meios são constrangedores, e que a cada tipo de meio são associados a uma sorte de restrições específicas (…) Ao invés de indagar se o fim justificaria os meios, torna-se mais importante indagar o que a escolha desses meios, por si só, tende a impor” (2013: 28).

De certo modo, acredito que a violência estrutural em uma sociedade, ou no cenário internacional se intensifica a partir da proliferação de objetos técnicos que permitem cometer atos de violência, sem que se tenha que arcar com os custos morais, ou legais dela. Portanto, creio que é fundamental para os Estudos para a Paz, principalmente aqueles que buscam descrever as dinâmicas estruturais, diretas ou culturais da violência, seja em âmbito nacional ou internacional, compreender o poder de agencia dos instrumentos de violência sobre os fins. Assim, o deslocamento da análise para os meios pelos quais os conflitos são organizados, para as tecnologias que permitem a promoção da violência, não nos revela apenas a forma como esses objetos são construções políticas e sociais – frutos de grupos e agentes que cristalizam valores e intenções políticas nas características técnicas desses objetos – senão nos fornecem instrumentos para compreender as bases sócio-técnicas da violência, e como desmobilizá-las.

Referências

CHAMANYOU, Gregoire Théorie du drone. Paris: La Fabrique, 2013.

GALTUNG, Johan. Violence, Peace and Peace Research. Journal of Peace Research, 6(3), 1969, pp. 167-191.

HUGHES, Thomas The Evolution of Large Technological Systems. In: Bijker, Wiebe; Hughes, Thomas; Pinch, Trevor (orgs.) “The Social Construction of Technological Systems: New Directions in the History and Sociology of Technology”. Cambridge: MIT Press, 1987.

LATOUR, Bruno. On Technical Mediation: Philosophy, Sociology, Genealogy. Common Knowledge 3(2), 1994, pp. 29-64.

MACKENZIE, Donald. Inventing Accuracy: A Historical Sociology of Nuclear Missile Guidance. Cambridge: The MIT Press, 1990.

PINCH, Trevor; BIJKER, Wiebe The Social Cnstruction of Facts and Artifacts: Or how the sociology of science and the sociology of technology might bennefit each other. In: Bijker, Wiebe; Hughes, Thomas; Pinch, Trevor (orgs.) “The Social Construction of Technological Systems: New Directions in the History and Sociology of Technology”. Cambridge: MIT Press, 1987.

PUREZA, José Manuel. O Desafio Crítico dos Estudos para a Paz. Reações Internacionais, 2011, pp. 05-22.

WINNER, Langdon. Do artifacts have Politics?. In: Winner, Langdon (0rg.) “The Wale and the Reactor: A search for limits in an Age of High Technology”. Chicago: University of Chicago Press, 1986.

Alcides Eduardo dos Reis Peron é doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp (dudperon@gmail.com.)

* Este artigo foi originalmente publicado em: http://pcecs.blogspot.com.br/2015/10/violencia-e-tecnologia-e-possivel.html

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Violência e tecnologia: é possível pensar a paz a partir de uma sociologia dos armamentos?, por Alcides E. Peron". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 22/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/22/violencia-e-tecnologia-e-possivel-pensar-a-paz-a-partir-de-uma-sociologia-dos-armamentos-por-alcides-eduardo-dos-reis-peron/>.

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