Opinião Pública e Política Externa no Governo Goulart (1961-64) – uma entrevista com os autores, por Daniel C. Gomes

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A política internacional parece padecer de uma situação quase paradoxal. Por um lado, a atuação externa de um país pode parecer, à primeira vista, um assunto restrito aos iniciados. Apenas diplomatas, acadêmicos e empresas e organizações internacionais estariam interessados nesse tema. Dessa forma, a política externa seria um assunto que não interessaria o cidadão comum. Mas será que a população realmente está apartada da política externa? Caso a resposta seja negativa, outro questionamento se segue: qual o grau de coerência entre as posições políticas nacionais e internacionais da população?

O artigo Public opinion and foreign policy in João Goulart’s Brazil (1961-1964): Coherence between national and foreign policy perceptions?, publicado na edição 2/2015 (Volume 58 – No. 2, julho-dezembro de 2015) da Revista Brasileira de Política Internacional, lança luzes sobre esses questionamentos, analisando um período de acentuada participação política na história brasileira: os anos entre 1961 e 1964.

Felipe Pereira Loureiro, Feliciano de Sá Guimarães e Adriana Schor, professores na Universidade de São Paulo e autores do artigo, concederam entrevista a Daniel Costa Gomes, mestrando em Relações Internacionais na Universidade de Brasileira e membro da equipe da RBPI.

1)       Analisando o governo Goulart (1961-1964), o artigo demonstra que há coerência, na opinião pública, entre as opções políticas interna e externa. Tentando aplicar essa conclusão em outros períodos, esse resultado é um padrão ou uma exceção? 

A literatura internacional recente demonstra que há coerência entre as preferências de política externa e doméstica na opinião pública dos países desenvolvidos. O argumento é o de que, mesmo com pouca informação sobre eventos internacionais, indivíduos seriam capazes de formular opiniões coerentes por meio de um mecanismo de aprendizado e coleta de informações por aproximação conhecido como “heuristic shortcuts”, ou “atalhos mentais”. Nosso artigo ilustra que esta relação é válida para o caso do Brasil durante o governo João Goulart, especificamente no final de 1962. Entretanto, para que seja possível fazer uma generalização para outros períodos da história brasileira, é preciso que novos estudos empíricos sejam realizados.

2)       Um dos motivos para a intervenção militar de 1964 foi a crença de que o Brasil de João Goulart (1961-1964) estaria se encaminhando rumo à sovietização. Seu artigo, todavia, aponta uma porcentagem ínfima de apoio popular a um alinhamento à União Soviética. O que se pode inferir desses dados em relação às motivações para a derrubada do governo Goulart?

O artigo mostra que a opinião pública brasileira era amplamente contrária a uma aproximação do Brasil com a União Soviética em 1962. Além disso, a percepção da população sobre países comunistas e sobre o próprio líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, era muito negativa. Não se pode dizer, portanto, que a sociedade brasileira estava polarizada entre os que defendiam o liberalismo norte-americano e aqueles que defendiam o comunismo soviético. Esse talvez seja um dos achados mais interessantes do artigo, junto com a questão da coerência da opinião pública em questões de política doméstica e internacional. Por outro lado, outros estudos concluem que a polarização liberalismo-comunismo seria válida no que tange à imprensa e à elite política do período. Isso é apresentado por parte da extensa literatura que estuda o tema do golpe militar de 1964 no Brasil como uma das principais razões da deposição do presidente João Goulart.

3)       O artigo contesta a ideia de que a opinião pública é indiferente à política externa?

Apesar de o artigo mostrar que havia um número significativo de brasileiros no início dos anos 1960 “sem opinião” sobre questões de política externa, existia também, por outro lado, uma parcela expressiva da opinião pública nacional que apresentava posicionamentos claros sobre vários temas internacionais, entre os quais a questão do tipo de engajamento mais adequado para o país no sistema global (alinhamento com os Estados Unidos, alinhamento com a União Soviética, ou neutralidade diante de ambas as superpotências). Isso mostra que, apesar do elevado nível de analfabetismo na época e da pouca informação disponível em várias localidades do país, não se pode dizer que a opinião pública brasileira do período teria sido, de forma generalizada, indiferente à política externa do governo Goulart.

Leia o artigo:

LOUREIRO, FELIPE PEREIRA, GUIMARÃES, FELICIANO DE SÁ, & SCHOR, ADRIANA. (2015). Public opinion and foreign policy in João Goulart’s Brazil (1961-1964): Coherence between national and foreign policy perceptions?. Revista Brasileira de Política Internacional, 58(2), 98-118.

Felipe Pereira Loureiro é bacharel em História, mestre e doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. É professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP).

Feliciano de Sá Guimarães é mestre em Relações Internacionais pela UNICAMP (programa San Tiago Dantas), doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP).

Adriana Schor é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo, mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, doutora em Teoria Econômica pela Universidade de São Paulo. É professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP).

Daniel Costa Gomes, membro da equipe da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB.

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Como citar este artigo:

Mundorama. "Opinião Pública e Política Externa no Governo Goulart (1961-64) – uma entrevista com os autores, por Daniel C. Gomes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 22/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/22/opiniao-publica-e-politica-externa-no-governo-goulart-1961-64-uma-entrevista-com-felipe-loureiro-adriana-schor-feliciano-guimaraes-por-daniel-c-gomes/>.

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