Interesses e valores na política externa de Obama– uma entrevista com Maria Helena de Castro Santos e Ulysses Teixeira, por Daniel C. Gomes

Desde a sua independência, os Estados Unidos tiveram uma política externa vigorosamente ativa e embasada em uma prática discursiva valorativa. Inicialmente, esse ativismo converteu-se em expansão territorial. Fundamentando essa expansão, havia uma forte base discursiva que mesclava messianismo e essencialismo, como exemplificam a Doutrina Monroe, o Destino Manifesto e a Marcha para o Oeste. No século XX, as duas Guerras Mundiais alçaram os Estados Unidos à potência com atuação global, o que foi reforçado pela Guerra Fria. Novamente, havia um discurso valorativo que fornecia a justificativa para essa atuação. Assim, os Estados Unidos atuariam para “defender os povos oprimidos”, “promover a democracia”, “destituir ditaduras”, “garantir as liberdades individuais”.

No século XXI, esse padrão ainda persiste. A relação entre interesses e valores como elementos motivadores para a atuação externa do governo de Barack Obama é tema abordado pelo artigo Interests and Values in Obama’s foreign Policy: Leading from Behind?, de  Maria Helena de Castro Santos e Ulysses Tavares Teixeira, publicado no número 2/2015 (Volume 58 – Número 2, julho – dezembro de 2015) da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI.

Sobre esse artigo e sobre a atual política externa americanaos autores concederam entrevista a Daniel Costa Gomes, mestrando em Relações Internacionais na Universidade de Brasileira e membro da equipe da RBPI.

1) Em termos metodológicos, o artigo vale-se da análise do discurso segundo critérios quantitativos. Esse ferramental é pouco comum nos artigos brasileiros em Relações Internacionais. Quais são os desafios e os benefícios associados a esse método?

Maria Helena e Ulysses Teixeira: Na verdade, o artigo utiliza  análise de conteúdo – no caso, análise de discursos – tanto quantitativa quanto qualitativa, uma complementando a outra.  No caso da análise quantitativa, a partir dos discursos de Obama e seus Secretários de Estado e Defesa, identificou-se as categorias analiticamente significativas relacionadas às motivações das intervenções militares desta administração no Oriente Médio. Em seguida, contou-se o número de vezes em que tais categorias são referidas, obtendo-se como resultado sua importância relativa. No caso da análise qualitativa, tendo como parâmetros os resultados quantitativos, aprofundou-se a compreensão da estratégia da política externa de Obama quanto às intervenções militares americanas naquela região.  Em particular, interessava perceber a importância dos interesses (sobretudo segurança) vis-à-vis os valores  liberais-democráticos nas motivações para essas ações de política externa.

As principais dificuldades para se empreender este tipo de análise são o tempo consumido (foram selecionados e analisados 350 discursos, a partir de um total de mais de mil discursos), e o treinamento da equipe, cujos membros precisam desenvolver uma percepção homogênea das categorias analíticas identificadas. Os benefícios deste método – análise de discurso quantitativa e qualitativa combinadas – concentram-se no maior rigor emprestado ao artigo.

2) No artigo, aponta-se que o discurso da política externa estadunidense é largamente informado pela Tradição Liberal Americana, que seria um conjunto de princípios políticos e morais liberais que data dos founding fathers. Essa Tradição Liberal Americana, no entanto, tem sido instrumentalizada por político tão díspares quanto Bill Clinton e George W. Bush. Como isso é possível?

Vale ressaltar que o artigo se propõe a chamar a atenção para a dimensão ideacional da política externa. Na literatura de política externa, considera-se largamente que interesses materiais predominam sobre valores em processos de tomada de decisão. Argumenta-se no artigo, porém, que interesses não contam toda a história. No caso da política externa americana, identifica-se a chamada Tradição Liberal Americana como a fonte dos valores liberais que permeiam essa política de uma maneira geral.

Sustenta-se este argumento ao se demonstrar no artigo em pauta que políticos aparentemente tão díspares como Bush e Obama na verdade se aproximam bastante no que se refere à imposição de valores liberais-democráticos. Da mesma forma, o artigo de Castro Santos (2010)* demonstra, com a mesma metodologia, que estes valores estão presentes nos (mesmos) princípios que embasam as estratégias de política externa dos Presidentes americanos do pós-guerra fria – Bush pai, Clinton e Bush filho.
Ou seja, o que se sugere é que, sejam democráticos ou republicanos, mais ou menos duros ou moderados, os presidentes americanos traçam estratégias de política externa que só aparentemente são díspares.  A semelhança dessas estratégias vem justamente do compartilhamento dos valores básicos contidos na Tradição Liberal Americana, que datam dos founding fathers e da formação da nação americana.

3) Em muitos casos, os Estados Unidos justificam sua intervenção por valores como a promoção da democracia, da sociedade livre e das garantias e liberdades individuais, mas desrespeitam o Direito Internacional. De que modo esse contrassenso se sustenta?

Ao se analisar o pensamento político americano em perspectiva histórica ou avaliar as doutrinas de política externa e de defesa dos presidentes americanos do pós-Guerra Fria, percebe-se a presença de diferentes estratégias de promoção de democracia pelo governo dos Estados Unidos. No início da Guerra ao Terror, por exemplo, acreditava-se muito fortemente na eficácia do uso do poder americano para provocar transições democráticas no sistema internacional. Mas além do requisito realista (poder), a tradição liberal também teve um papel importante na formação da chamada doutrina Bush. Especificamente, a tradição liberal foi responsável pelas crenças na universalidade dos valores democráticos, na relação direta entre democracia e segurança, e no ativo cumprimento da missão americana de promover democracia pelo mundo. As conseqüências de tal influência são variadas em efeito e em abrangência.

Destacamos aqui dois aspectos interessantes que decorrem de uma defesa mais ativa dessa missão. Primeiramente, a crença de que os Estados Unidos são o “messias político” da humanidade implica que suas intenções são benignas, e não uma tentativa de abuso, domínio ou imposição. Há certamente uma exaltação das virtudes da experiência americana: a excepcionalidade das bênçãos políticas recebidas impõe responsabilidades e obrigações com o resto do mundo. A criação de um sistema político livre e estável demanda que tal dádiva seja compartilhada, já que todos os povos anseiam pela liberdade e um mundo mais livre é mais seguro, mais próspero e mais pacífico. Em resumo, essa missão garante aos Estados Unidos o posto de país excepcional, nação única, povo escolhido.

Mas ainda que esse discurso permita a divisão paternalista das graças políticas com as nações menos afortunadas, ele não pressupõe uma divisão do poder americano, o que nos leva ao segundo aspecto: a missão valida a preponderância dos Estados Unidos no sistema internacional rendendo-lhe um mandato, quase sempre divino, de único agente legítimo de transformação liberal no mundo. Cabe a eles, e apenas a eles, liderar esta causa. Ao insinuar que a promoção de democracia é uma responsabilidade, uma obrigação, um dever, um chamado, um fardo, um sacrifício ou um destino manifesto, a retórica americana restringe as alternativas de ação tornando a intervenção um imperativo moral e legitimando a estratégia de política externa norte-americana, mesmo que unilateral, mesmo que preemptiva, mesmo que pelo uso da força, mesmo que contrária ao direito internacional.

4) O historiador Raymond Aron afirma que as guerras motivadas por interesses permitem acordos e negociações, o que não ocorre nas guerras fundamentadas em valores. Nestas, só a derrota completa do inimigo é aceita. Esse padrão se aplica às intervenções militares norte-americanas?

Resumidamente, eu diria que sim e que, em geral, as guerras americanas são guerras nas quais os valores sempre assumem influência importante, ainda que não sejam os principais determinantes da ação. Mas para responder esta pergunta vale retomar uma das características do chamado excepcionalismo americano. Os americanos têm tradicionalmente se distinguido como excepcionais em parte devido às qualidades negativas que projetam sobre um “outro”. Durante a colonização do continente pelos imigrantes puritanos ingleses, por exemplo, aqueles que representavam um obstáculo às necessidades públicas, como os povos indígenas, axiomaticamente se tornavam agentes do mal. Essa metáfora continuou sendo reproduzida ao passar dos anos conforme nazistas, comunistas, terroristas, simbolizavam ameaças aos valores americanos.

Essa posição binária dos Estados Unidos é um sintoma de seu absolutismo moral derivado do sistema de crenças protestante. Forças opostas são normalmente divididas em uma simplificada matriz de bem versus mal em um processo que revela um senso de superioridade. É através desta seleção estratégica e da contextualização de eventos passados que a mitologia do excepcionalismo é produzida, e dentro dela, o imaginário popular e a linguagem pela qual os americanos se vêem em relação ao resto do mundo. Não há meios termos. Uma demarcação absoluta entre o bem e o mal não permite qualquer elemento que denote a possibilidade de sobrevivência do mal. É por isso que ações multilaterais tendem a tomar a forma de “coalitions of the willing” e os discursos para o restante do mundo com freqüência apresentam-se na forma de ultimatos como “you’re either with us, or against us”.

Leia o artigo:

SANTOS, MARIA HELENA DE CASTRO, & TEIXEIRA, ULYSSES TAVARES. (2015). Interests and Values in Obama’s foreign Policy: Leading from Behind?. Revista Brasileira de Política Internacional, 58(2), 119-145.

Maria Helena de Castro Santos é graduada em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em física pela Universidade de Brasília. É mestre em Administração Pública pela Harvard University e doutora em Ciência Política pelo Massachusetts Institute of Technology. É professora aposentada do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB) e pesquisadora colaboradora sênior do mesmo Instituto;

Ulysses Tavares Teixeira é graduado em Relações Internacionais, mestre em Política Internacional e Comparada e doutor em Política Internacional e Comparada pela Universidade de Brasília. É professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB);

Daniel Costa Gomes, membro da equipe da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB.

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Como citar este artigo:

Mundorama. "Interesses e valores na política externa de Obama– uma entrevista com Maria Helena de Castro Santos e Ulysses Teixeira, por Daniel C. Gomes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 21/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/21/interesses-e-valores-na-politica-externa-de-obama-uma-entrevista-com-maria-helena-de-castro-santos-e-ulysses-teixeira-por-daniel-c-gomes/>.

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