As especificidades da Segunda Guerra Mundial e o Japão de Shinzo Abe, por Fernando Horta

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A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é, sem dúvida, um dos eventos-chave dentro da formação da memória do século XX (KNUTSEN, 2002). Ainda que os lados em luta tivessem mudado bastante durante o andamento da guerra, costuma-se dizer que de um lado lutaram os “Aliados” compostos essencialmente pela Inglaterra, União Soviética e os EUA, do outro o chamado “Eixo” (advindos da ideia geopolítica do “eixo Roma-Berlim”) que incluía a Alemanha, a Itália e o Japão. O Japão, apesar de ter ratificado o Pacto Anti-Comintern, lutou num front específico: o pacífico. Foi também o Japão o único país a receber um ataque com armas nucleares na história da humanidade. As singularidades não acabam por aí, o líder japonês da Segunda Guerra foi o único da tríade do Eixo que permaneceu vivo: o imperador Hirohito reinou até 1989.

A Segunda Guerra, por seu turno, não tem nenhum tratado de paz assinado. Pela primeira vez na história Contemporânea um conflito de tamanha envergadura não produziu um documento no qual os vencedores selam a paz sobre imposições diretamente endereçadas aos vencidos. A Segunda Guerra selou a paz com bombas, linchamentos e suicídios. A guerra foi levada até o final por decisão dos aliados que não aceitaram nenhum tipo de rendição parcial ou armistício, apenas a rendição total e incondicional poderia colocar fim ao conflito (segundo a Conferência de Casablanca no Marrocos em fevereiro de 1943). No caso do Japão, os norte-americanos defendem o uso da bomba porque o país do sol nascente “não estaria disposto a se render” (ROBERTS, 2009, p. 679; 684) acreditando que uma invasão por terra à ilha japonesa não seria possível. Não é da lógica desta conjuntura política, portanto, a posição do General Douglas MacArthur em manter como imperador um líder vencido que era acusado por inúmeros crimes contra chineses, coreanos, tailandeses e norte-americanos (SCHALLER, 1985, p. 24).

Este artigo argumenta que existe uma lógica própria para a manutenção de Hirohito no poder e que é a mesma lógica que hoje endossa as mudanças que Shinzo Abe fez dentro política japonesa (como por exemplo a reinterpretação do artigo 9º da constituição japonesa que dispunha sobre o direito à Guerra). O anti-comunismo que embalou MacArthur (SCHALLER, 1985, p. 22) e, de certo modo, toda a Guerra Fria ressurge como uma forma deturpada de juntar o interesse das elites econômicas japonesas, o revanchismo de parte sociedade japonesa (em função do ocorrido durante a guerra) e os interesses americanos de contenção da China. Embora o país que empunha a foice e o martelo tenha mudado, o medo irascível da ideologia vermelha ameaça a construção simbólica da paz do pós-Segunda Guerra.

O Japão é a sociedade capitalista “ocidental” mais longe do ocidente, não só geográfica, mas também sociologicamente (SCHALLER, 1985, p. 22). A economia japonesa ostenta o título de “capitalista” mas o livre mercado não é necessariamente uma verdade histórica. Em realidade, após a Segunda Guerra, os grandes conglomerados monopolistas japoneses sobreviveram quase intocados às reformas econômicas propostas pelo “vice-rei do Japão” (General Douglas MacArthur) provocando a continuidade de uma sociedade economicamente centrada numa pequena elite plutocrática (SCHALLER, 1985, p. 25). Em total oposição às ordens recebidas por Washington, MacArthur acreditava que manter fortalecidos os famosos zaibatsus significava uma barreira a mais contra a “ameaça comunista”. De fato, uma lei anti-truste foi aprovada no Japão em 1947 e deveria fragmentar e abrir a economia japonesa. O resultado, entretanto, não foi obtido. O que ocorreu é que a fragmentação formal dos setores mais baixos da produção escondia uma dominação dos mesmos grupos e famílias que existia outrora, mas agora chancelada pelos americanos (SCHALLER, 1985, p. 29; 41).

A economia japonesa, apesar de figurar entre as maiores do mundo, enfrenta graves problemas de crescimento em função da deflação (http://www.nytimes.com/2015/11/16/business/international/japan-economy-contracts-0-8-returning-to-recession.html?_r=0) . Ao contrário do que ocorre na América do Sul, o Japão está na iminência de entrar em recessão em função da diminuição dos preços dos produtos que podem chegar a ser menor que os custos marginais de produção e assim inviabilizar todo o empreendimento. Além disto a sociedade japonesa ainda conserva valores que, quando encontrados em sociedades árabes são chamados de opressores e arcaicos. Em 2014, por exemplo apenas 11% dos cargos executivos japoneses era ocupado por mulheres, enquanto nos EUA o percentual é de 43%, por exemplo. O dado é ainda mais alarmante quando se percebe o Japão ocupa a 105 posição (entre 136 países) no Global Gender Gap Report (http://business.financialpost.com/executive/japans-most-stubborn-and-conservative-industry-slowly-starts-placing-women-in-managerial-roles) .

O que se pode perceber é que o esforço americano para transformar o Japão em uma sociedade capitalista (que pode ser bem rastreado desde a Revolução Meiji de 1868 (JANSEN, 2008, p. 281; 285; 287)) não atingiu a ideia de uma economia “aberta” ou mesmo uma ideia de “igualdade” entre os gêneros. O Japão continua hierarquizado, plutocrático e com as mulheres sofrendo preconceito em todas os campos da vida social e econômica. Todos estes problemas, entretanto, não recebem do mundo ocidental as mesmas críticas que são feitas aos países muçulmanos, aos chineses ou africanos. O silêncio com relação ao Japão parece ter uma razão geopolítica.

MacArthur já entendia o Japão como um “cluster” essencial para a luta contra o comunismo (SCHALLER, 1985, p. 34-35). Okinawa era a “porta do pacífico” e neste sentido Hirohito jogava um importante papel apaziguador para que os custos de manutenção do Japão (sociais, bélicos e políticos) não fossem demasiado grandes para um país recém saído de uma guerra, mesmo que este país sejam os EUA (SCHALLER, 1985, p. 42). Papel muito semelhante desempenhou o imperador Matsuhito durante o século XIX (JANSEN, 2008, p. 241-242). O Japão, diferente da China ou de outros países asiáticos, apresentou poucos conflitos abertamente xenofóbicos quando do chamado “Neocolonialismo” ocorrido no século XIX (JANSEN, 2008, p. 487 ). A divindade do imperador japonês naquele século foi uma força suficiente para amenizar o sentimento de invasão da sociedade nipônica pelo ocidente. Numa democracia, entretanto, esta ideia vem sofrendo críticas. A população de Okinawa abertamente repudia a manutenção da maior base americana no sudeste asiático (http://thediplomat.com/2015/11/beyond-futenma-okinawa-and-the-us-base-conundrum/) . Uma mistura de sentimento revanchista, xenofóbico e nacionalista empodera discursos racionais de caráter econômico que pedem a não renovação do mandato americano.

Okinawa não apenas é de importância estratégica como também simbólica. O simbolismo aliás é um dos selos do tratado de paz imaginário da Segunda Guerra. A proscrição do Nazi-fascismo através do Tribunal de Nuremberg, a adoção dos princípios liberais na economia através das Instituições de Bretton Woods e o reforço da governança internacional através da ONU representam globalmente o tratado de paz (inexistente em termos diplomáticos) que encerrou o conflito em 1945. Para o leste asiático, entretanto, o artigo 9º da constituição japonesa e a presença americana em Okinawa jogam o mesmo papel simbólico. É forte a imagem de uma nação contemporânea desmilitarizada e que tornou proscrito o direito à guerra. A imagem é politicamente tão forte quanto os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki.

A simbologia da visita de Shinzo Abe em 2013 à Capela Yasukuni (que honra os japoneses mortos em guerra desde o século XIX) foi mal aceita pelos vizinhos japoneses exatamente por reviver o militarismo japonês que não parece morto mesmo depois das barbáries atômicas (http://www.theguardian.com/world/2013/dec/26/japan-shinzo-abe-tension-neighbours-shrine) . No mesmo ano, Abe ainda “aumentou o tom patriótico” dos livros de história japoneses recontando a história da segunda guerra em bases mais “nacionalistas” (http://www.nytimes.com/2013/12/29/world/asia/japan-fights-a-political-battle-using-history-texts.html) . Este revisionismo não pode ser visto apenas como uma postura idiossincrática do primeiro ministro. Ecoam na sociedade japonesa um passado de guerra e em meio à crise interna a história é usada como constituição do imaginário social com claros fins políticos. A coroação deste processo se deu com a recriação do exército japonês pela “reinterpretação” do artigo 9º da constituição japonesa em 2015 (http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1954) .

Não pode fugir ao crivo do analista internacional que em meio a uma grave crise econômica internacional e interna, com o surgimento cada vez mais forte do Partido Comunista Japonês (http://www.economist.com/news/asia/21648771-communists-become-japans-strongest-political-opposition-provinces-red-revival) é de interesse das elites plutocráticas japonesas arregimentarem-se e a mudança “patriótica” da história joga este papel. Os graves problemas da economia americana em função das guerras e invasões dos últimos anos (https://www.washingtonpost.com/news/the-fix/wp/2015/01/07/the-story-behind-obama-and-the-national-debt-in-7-charts/) formam um cenário complicado em função da ascensão chinesa como força militar no leste asiático. Neste contexto, o silêncio norte-americano frente às ações de Abe é exatamente o preço que os EUA estão dispostos a pagar para dividirem o peso militar da contenção da China. O crescimento do conservadorismo japonês é um resultado “aceitável” dentro dos cálculos ocidentais. É preciso que se diga, contudo, que as amarras simbólicas construídas no fim da Segunda Guerra estão soltas. Um exército japonês é o reconhecimento de que o mundo que se formou no pós-segunda guerra acabou. A luta pela história do Japão está apenas começando.

Bibliografia

JANSEN, M. (Ed.). The Cambridge History of Japan. New York: Cambridge University Press, v. 5, 2008.

KNUTSEN, T. Twentieth-Century Stories. Journal of Peace Research, v. 39, p. 119-127, 2002.

MULLER, J.-W. (Ed.). Memory and Power in Post-War Europe. New York: Cambridge, 2004.

ROBERTS, A. La tormenta de la guerra. Madrir: Sieclo XXI España, 2009.

SCHALLER, M. The Origins of the Cold War in Asia. New York: Oxford University Press, 1985.

TRAVERSO, E. La Historia como campo de batalla: interpretar las violências del siglo XX. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2012.

Luiz Fernando Horta é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (moonbladers@gmail.com)

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "As especificidades da Segunda Guerra Mundial e o Japão de Shinzo Abe, por Fernando Horta". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 21/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/21/as-especificidades-da-segunda-guerra-mundial-e-o-japao-de-shinzo-abe-por-fernando-horta/>.

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