Os resíduos nucleares e os seus desafios, por Matilde de Souza & Leandro G. Ferreira

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O repositório de rejeitos nucleares sempre foi uma das principais preocupações dos países que possuem plantas de energia nuclear civil, dado o grau de perigo ao qual estariam expostos os seres vivos, humanos ou não, decorrentes dos dejetos. Assim, o presente artigo expõe a problemática dos dejetos nucleares, apresentando alguns dos desafios enfrentados pelas usinas termonucleares quanto ao problema.

Todos os países que têm plantas nucleares, são legal e eticamente responsáveis pelas medidas adotadas para com os dejetos. Todavia, existem duas preocupações, uma de origem ambiental e outra de segurança. A de origem ambiental relaciona-se à constante emissão de radioatividade que ocorre no local repositório, uma vez que se trata de material químico, mesmo que sem condições de utilização. Já em relação a segurança, a preocupação diz respeito a como evitar a contaminação com material radioativo, que pode provocar problemas de saúde na população residente próxima ao local. (FINDLAY, 2012).

Os rejeitos, dejetos, resíduos ou lixo atômico, são produzidos durante todo o ciclo do combustível nuclear, os quais incluem desde o garimpo nas reservas, até a produção final de energia pelas termonucleares. Existem três classificações para os resíduos radioativos: nível baixo, nível intermediário e nível alto de periculosidade. Os de nível baixo são produzidos em hospitais, laboratórios, indústrias diversas e no ciclo de produção do combustível nuclear. Embora não sejam perigosos,  requerem maior cuidado no tratamento do que o lixo comum. Os de nível intermediário são resíduos de resinas, restos químicos e componentes do reator nuclear, em funcionamento ou não, e requerem um alto grau de cuidados, pois emitem maior radiação. E, por último, os de alto nível são os combustíveis já usados, os reprocessados e restos de material físsil, que liberam uma considerável quantidade de calor (WORLD NUCLEAR ASSOCIATION, 2015).

Resíduos Conteúdo radioativo Volume de lixo
Resíduo de Nível Alto 95% 3%
Resíduo de Nível Intermediário 4% 7%
Resíduo de Nível Baixo 1% 90%

Quadro 1: Porcentagem da radioatividade e volume do lixo por nível. Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados da WORLD NUCLEAR ASSOCIATION

Em um reator que funcione durante um ano é produzida 1ton de resíduos que, se não forem bem armazenados, provocam emissão de radioatividade livre durante sua meia-vida (MULLER, 2010). Além disso o vento carrega grande quantidade de material radioativo, bem como o ciclo da água pode fazer com que áreas afastadas sofram contaminação (BABA, 2013). Assim, a responsabilidade pelos resíduos nucleares, sobretudo em relação aos de alto nível de periculosidade, é uma grande prioridade das usinas nucleares, pois estes geram problemas ambientais e podem significar ameaça à segurança humana.

A resposta para o que deve ser feito com os resíduos nucleares não é tão simples e objetiva. De fato, o problema requer análises geológicas mais exigentes para avaliação do solo e dos impactos ambientais do acondicionamento desses resíduos. Um dos problemas do lixo nuclear é a sua alta meia-vida, ou seja, o tempo que ele demora em retornar às características semelhantes às encontradas no processo de garimpo (MULLER, 2010). O isótopo de urânio 235 (U), por exemplo, tem uma meia-vida de 703.800.000 anos, e mesmo com a ação das mudanças de temperatura ou estações do ano, não chegará a ser reduzido (ALI et al, 2015). Os rejeitos, quando não são bem armazenados, podem gerar graves problemas na saúde das pessoas como câncer e hemorragia; podem também causar sérios danos ambientais como a contaminação da água e do próprio meio ambiente, ao se espalhar através da cadeia alimentar marinha e terrestre, pela ação do vento, nos solos agricultáveis e nas correntes marítimas (idem). A contaminação do solo e das águas subterrâneas é ainda incerto, requerendo um depósito capaz de manter os resíduos separados do solo.

De maneira geral o Plutônio, que tem uma meia-vida de 24.000 anos, não é considerado resíduo nuclear para alguns cientistas, uma vez que o material é insolúvel em água e tem baixa probabilidade de contaminação do solo pelo tempo de permanência. Todavia, como boa parte dos reatores utiliza o Urânio, o problema recai sobre a construção de um local suficientemente selado e que mantenha esse material em seu interior, sem a emissão de radiação por um tempo que se aproxima da meia-vida, ou 24 mil anos. Até o presente momento é possível mensurar as instalações, para o lixo de alto-nível de periculosidade, sendo de 10.000 anos como é da Yucca Mountain nos Estados Unidos, pois as instalações são feitas com material resistente ao tempo (MULLER, 2010).

Em relação a segurança humana, existe um ponto importante a ser apresentado. A politização do assunto ocorre de forma induzida para uma determinada concepção dos malefícios causados à população pela presença das usinas, e pelos processos advindos do ciclo produtivo, o que mobiliza a recordação, principalmente, de eventos como Hiroshima, Nagasaki, Chernobyl e Fukushima (WANG, 2015). Essa associação leva ao receio de uma ameaça que não necessariamente existe para o civil, uma vez que os repositórios nucleares, em geral, têm altíssima segurança e controle frequente. Entretanto, ainda assim esses acidentes ensejam a opinião pública para uma posição anti-nuclear, em razão do medo de contaminação pela inalação dos resíduos nucleares, ou pela radioatividade emitida no meio ambiente (MULLER, 2010).

Os desafios na alocação de resíduos nucleares são grandes, dados os fatores já apresentados relativos à segurança humana e do meio ambiente. Requerem políticas públicas ancoradas em estudos geológicos, físicos e químicos, bem como na politização da sociedade em torno das capacidades da energia nuclear. Visando o debate dessa questão, o Senado Federal brasileiro promoveu nos dias 27 e 28 do último mês de outubro, o Seminário Internacional “Usinas Nucleares – Lições da Experiência Mundial”.

O evento contou com a participação de diversos atores internacionais que trabalham na governança nuclear global, sendo estes, professores, membros de agências internacionais, membros do poder legislativo brasileiro e internacional, médicos, especialistas e os interessados da sociedade civil. O Seminário teve como objetivo principal discutir, à luz dos últimos acontecimentos internacionais relacionados à produção de energia nuclear civil, os desafios para a implementação de mais usinas, e a manutenção das já existentes tanto no Brasil quanto ao redor do mundo (SENADO FEDERAL, 2015b).

A discussão girou em torno das lições aprendidas para a segurança das usinas após a catástrofe ambiental ocorrida em Fukushima, em 2011, pois esse acidente mostrou a fragilidade das plantas, caso não sejam adotadas as corretas medidas de segurança (SCHWARZ, 2012), uma vez que a contaminação do ar, água e terra proveniente dos vazamentos, são danos irreparáveis à sociedade e ao meio ambiente. Além disso alguns participantes do seminário apresentaram-se contrários à construção de novas termonucleares argumentando que, dados os atuais mecanismos de controle e produção da energia nuclear, as consequências de possíveis acidentes podem ser catastróficas para toda a população e para o meio ambiente (SENADO FEDERAL, 2015b).

Um dos temas abordados no referido Seminário se relaciona às atuais medidas adotadas para o descarte e acondicionamento dos dejetos nucleares. Um dos palestrantes, o físico francês Bernard Laponche, discutiu os efeitos nocivos desses dejetos, ponderando a concepção de repositórios em aterros subterrâneos ou minas de sal, mas afirmou que, por hora, não há uma solução que satisfaça os requisitos de não contaminação do solo e de segurança humana (SENADO FEDERAL, 2015a). Muitos países assim como o Brasil, armazenam os resíduos próximos às usinas, o que não é uma medida correta, tampouco segura para a usina, os civis e o meio ambiente (MULLER, 2010), principalmente se o solo dessas áreas não for estável.

Os resíduos nucleares demandam muita atenção dos principais atores envolvidos na governança nuclear global, uma vez que requerem avaliações de diversas agências, bem como o esforço dos governos em promover políticas públicas para a gestão do acondicionamento e manejo desses resíduos. Assim, a iniciativa brasileira reflete o empenho necessário, com o objetivo de politizar a população acerca do assunto, problematizar a temática dos resíduos nucleares ao apresentar os desafios enfrentados, e reavaliar os alcances das usinas termonucleares frente a produção de energia elétrica.

Referências

  • ALI, Sikander Hayat Arshad. IQBAL, Shahiq. AWAN Maqbool Sadiq. Nuclear Waste and Our Environment. In: American Journal of Social Science Research. Vol. 1, 2015, pp. 114-120. Disponível em: < http://www.aiscience.org/journal/ajssr > Acesso em: 12 de nov. 2015
  • BABA. M. Fukushima accident: What happened? In: Radiation Measurements. Elsevier. 2013
  • FINDLAY, Trevor. Nuclear Energy and Global Governance: Ensuring safety, security and non-proliferation. London: Routledge. 2012.
  • MULLER, Richard A.. Physics and technology for future presidents: An introduction to the essential physics every world leader needs to know. Princeton University Press. 2010
  • SENADO FEDERAL. Destinação de lixo nuclear preocupa participantes de seminário no Senado. 2015. Disponível em: <http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/10/27/destinacao-de-lixo-nuclear-preocupa-participantes-de-seminario-no-senado> Acesso em 24 de nov. 2015a
  • SENADO FEDERAL. Seminário internacional da CCT debate riscos e vantagens do uso da energia nuclear. 2015. Disponível em: < http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/10/22/seminario-internacional-da-cct-debate-riscos-e-vantagens-do-uso-da-energia-nuclear> Acesso em 24 de nov. De 2015b
  • WANG, Andrew. Nuclear Waste: Forever Contaminated? In: Berkeley Scientific Journal. 2015 Disponível em: < http://escholarship.org/uc/item/876797sd#page-2> Acesso em: 17 de nov.  2015
  • WORLD NUCLEAR ASSOCIATION. Waste Management: Overview. 2012. Disponível em: < http://www.world-nuclear.org/info/Nuclear-Fuel-Cycle/Nuclear-Wastes/Waste-Management-Overview/ > Acesso em 15 de nov. 2015.

Matilde de Souza é professora do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-Minas (souzapuc5@gmail.com).

Leandro G. Ferreira é mestrando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-Minas.

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Como citar este artigo:

Mundorama. "Os resíduos nucleares e os seus desafios, por Matilde de Souza & Leandro G. Ferreira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 10/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/10/06/>.

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