Desafios Estratégicos para a Política Externa da Alemanha, Pedro Txai Leal Brancher

A estagnação da França e as enormes assimetrias em favor da economia alemã em relação aos demais países da UE alavancaram Berlim a posição de líder político do bloco. O PIB alemão é o quarto maior do mundo (3,874.4 bilhões de dólares) e corresponde a 21% do PIB da UE. A taxa de crescimento do PIB da Alemanha se manteve acima da média europeia nos últimos 5 anos (BANCO MUNDIAL, 2015). As exportações alemãs em bens e serviços alcançaram 1.3 trilhões de euros em 2014, aumento de 3.7% em relação ao ano passado, registrando o maior superávit comercial no mundo (DESTATIS, 2015). Além disso, enquanto países membros da UE enfrentam altas taxas de desemprego, como França (10.8%), Itália (11.9%), Portugal (12.3%), Espanha (21.8%) e Grécia (24.6%), o desemprego na Alemanha em agosto de 2015 foi de apenas 4.5% (EUROSTAT, 2015).

A pujança econômica alemã provém essencialmente de suas exportações. O país é o terceiro maior exportador do mundo, atrás apenas de China e EUA. Bens industriais constituem a maior parte dos produtos, principalmente automóveis (17%) e bens de capital (14.5%). Quando levamos em conta o setor de serviços, as exportações alcançam 50% por cento do PIB alemão (GERMANY, 2015). Ademais, como demonstra o gráfico abaixo, 36.6% das exportações do país se destinam para a Zona do Euro e 21% para a União Europeia. Assim, conforme argumenta George Friedman: Germany is a massive exporting power that depends on the European free trade zone to purchase a substantial part of its (FRIEDMAN, 2015).

Principais Parceiros Comerciais da Alemanha

grafico 3
Fonte: Germany 2015

Duas conclusões derivam dos dados apresentados: i) as relações entre Alemanha e os países da UE são extremamente assimétricas e ii) a estabilidade da economia alemã depende da continuidade da Zona do Euro e da área de livre comércio na Europa Ocidental. Ou seja, ao mesmo tempo em que a unificação monetária e a liberalização comercial impulsionaram a economia alemã, para países com sistemas produtivos menos desenvolvidos elas significaram menor capacidade de competir no mercado europeu. Em um contexto de estagnação econômica e pressões demográficas a percepção dessa assimetria dificulta a existência de um “interesse europeu comum”, bem com gera o recrudescimento de alternativas políticas de caráter nacionalista. Evidencia-se um conflito de interesses econômicos no interior da UE que contraria o projeto de governança coletiva. De um lado os alemães, que precisam assegurar o mercado de suas exportações. Do outro, países com balança comercial deficitária em relação à Berlim, enfrentando altas taxas de desemprego e incapazes de executar políticas monetárias autônomas devido ao seu atrelamento as regras da UE.

O choque de interesses nacionais faz com que a integração europeia seja mantida mais pela dominação do que pelo consenso. A imposição de políticas econômicas de austeridade à Grécia exemplifica esse fenômeno. Caso essas assimetrias continuem, será cada vez mais difícil a possibilidade de posições europeias unificadas. Os processos de tomada de decisão do bloco serão o  resultado das negociações entre Berlim e Paris, ao invés de discussões democráticas na Comissão Europeia. De fato, o demógrafo francês Emmanuel Todd, argumentam que nem mesmo a França é capaz de resistir aos interesses alemães e, portanto “a Europa está se tornando: um sistema de nações desiguais, preso em uma hierarquia que inclui países severamente dominados, países agressivos, um país dominante e um país que é a vergonha do continente, o nosso, a França” (TODD, 2014).

No entanto, ainda que a economia da Alemanha seja a mais dinâmica da UE, sua dependência em relação ao mercado europeu constitui um constrangimento para o unilateralismo. Na medida em que a crise europeia se agrave, as exportações alemãs também diminuirão, afetando as taxas de crescimento e de desemprego. Portanto, o colapso da UE e o retorno do protecionismo no continente seriam desastrosos para os alemães e servem como ferramentas de barganha para os demais membros da instituição. Ademais, além da política europeia a Alemanha precisa lidar com o aumento das tensões entre Rússia e Estados Unidos.

O aumento das tensões entre Rússia e Estados Unidos implica um complexo desafio para a política externa alemã. Por um lado, a Alemanha é a maior liderança da UE e membra da OTAN, logo, poderia se esperar um alinhamento do país em relação as diretrizes estratégicas desses dois blocos. Por outro lado, é do interesse nacional alemão a manutenção de boas relações diplomáticas e comerciais com Moscou, tanto em função da dependência energética do país, quanto pela possibilidade de exercer uma política externa com autonomia em relação aos americanos.

A expansão da UE e da OTAN para o leste, o apoio ocidental ao golpe de estado na Ucrânia e a continuidade do projeto do escudo antimísseis são percebidos como fontes diretas de ameaça por Moscou. Nesse contexto, do ponto de vista russo, o bom relacionamento com a Alemanha significa não só o acesso ao mercado europeu para a exportações de recursos energéticos, mas também um meio de reduzir pressões securitárias em sua fronteira ocidental.

Na perspectiva alemã, o elemento primordial da relação com Moscou consiste em garantir a importação dos recursos energéticos necessários para seu parque industrial. Em 2013 a Alemanha importou 40.9% de seu gás natural da Rússia e a União Europeia 39% (EUROPEAN COMISSION, 2015). Além disso, projetos conjuntos para a construção de novos gasodutos entre a empresa russa Gazprom e a alemã Wintershall, bem como as parcerias entre o Estado russo e empresas alemãs como a Siemens e a Deutsche Bahn reforçam a interdependência econômica entre os dois países (STRATFOR, 2014). No entanto, como líder da UE, Berlim também precisa atender as reivindicações de países que percebem como ameaçadora a retomada das iniciativas russas no sistema internacional.

Por sua vez, apesar de aliados, os interesses de Washington e Berlim não são sempre convergentes. O ex-chanceler Gerhard Schroeder foi vocalmente contra a invasão do Iraque em 2003 (THE GUARDIAN, 2002). Recentemente as relações entre os dois países estremeceram após as denuncias acerca da espionagem americana sobre autoridades alemãs (HEILBRUNN, 2014). Enquanto 56% dos americanos é favorável a posturas mais duras por parte da OTAN em relação a Rússia,  58% dos alemães são contrários e 18% acham que as sanções impostas pela UE foram intensas demais (PEW, 2015). Por fim, em um contexto de estagnação da economia europeia a Alemanha não pretende antagonizar chineses e russos – dois de seus maiores parceiros comerciais – na mesma medida em que a política externa dos EUA antagoniza.

A crise ucraniana evidenciou os desafios e o grau de autonomia com que age a política externa de Berlim. Ao mesmo tempo em que se posicionou favoravelmente a imposição de sanções econômicas contra a Rússia, a Chanceler alemã foi a principal mediadora das negociações com Moscou, se opondo ao envio de tropas da OTAN para o conflito. Enquanto o presidente americano Barack Obama é pressionado internamente para tomar medidas assertivas em relação a Rússia, Merkel percebe que a proximidade geográfica e os laços comerciais com Moscou tornam uma eventual confrontação entre os dois países algo extremamente prejudicial para a Alemanha(SPIEGEL, 2015). De fato, na perspectiva alemã, as atitudes dos EUA durante a crise apenas prejudicaram os esforços de mediação realizados por Berlim.

Nota-se a consolidação de uma postura autônoma da Alemanha em relação as grandes potências. Berlim assume posições assertivas para defender seus interesses nacionais, mesmo quando eles vão de encontro à Washington. Assim, ao mesmo tempo em que reage contra medidas mais agressivas por parte da política externa russa, reafirmando seu papel de liderança na Europa Ocidental, a Alemanha atua diplomaticamente para evitar a escalada das tensões e a desestabilização da região.

Portanto, os desafios para Berlim consistem em sustentar a coesão da União Europeia sob sua liderança política, manter autonomia em relação aos interesses estadunidenses e impedir tentativas de expansionismo russo sem prejudicar suas relações comerciais com Moscou. Se tais imperativos já não fossem complexos o suficiente, eles são acompanhados pelas pressões da estagnação econômica na Europa e do aumento exponencial do fluxo de refugiados. É impossível prever qual será a capacidade da Alemanha para responder a essas pressões, mas é cada vez mais claro que seus interesses nacionais impactarão na evolução da política internacional.

Referências

 

Pedro Txai Leal Brancher é Mestrando no Programa de Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (pedro.txai@gmail.com).

​​

Como citar este artigo:

Mundorama. "Desafios Estratégicos para a Política Externa da Alemanha, Pedro Txai Leal Brancher". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 05/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/05/05-2/>.

Seja o primeiro a comentar