Fratria ativa e altiva, ao divã!, por Marcos Kalil Filho & Mariana Kalil

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Muito se fala do simbolismo do 7 a 1, mas foi a apertada vitória das oitavas de final contra o Chile o momento-síntese não só da Copa, como também do ano de 2014. O mundo vive uma evidente crise de significação. Os discursos totalizantes, arcaicamente baseados no consumismo conservador pós-anos 70 e nos binarismos identitários estruturantes da Modernidade, vêm ruindo no Centro globalizado. Na periferia, os efeitos são sentidos a reboque das profundas desigualdades históricas desses países. Assim, presenciamos, nos últimos 24 meses, por aqui, aquela ocasião rara em que o arquétipo brasileiro esfarelou-se diante de nós.

No mesmo Mineirão, onde seríamos engolidos pelos futuros campeões mundiais, Neymar e Felipão correram o risco de não passar pela primeira etapa decisiva do Mundial. Jogávamos em casa contra um freguês regional. Somos herdeiros do maior jogador de todos os tempos e predestinados ao belo futebol. Nada disso, porém, funcionou. As velhas estratégias não surtiram efeito e nos restou apenas o choro, a superexposição das nossas carências – de repertório discursivo, de possibilidades de vida.

No fundo, os meninos dessa nova geração futebolística, criticados por serem mais modelos do que atletas, já sabem que as respostas possíveis oferecidas pelo Sistema são insuficientes. Recorrem, em um ato curiosamente bandeiroso, aos significantes Dinheiro e Beleza para construir significado de maneira rápida e fácil. Contudo, a fragilidade e a simplicidade de seus argumentos não permitem, frente à complexa realidade fática, nada além de uma resposta passional.

Não muito diferente, em Outubro de 2014, enfrentamos o desgastado sistema político-eleitoral brasileiro e o retorno à polarização PT-PSDB. Em um processo que, há muito, desumanizou-se, distanciando-se do seu fim verdadeiro, as eleições foram palco de demonstrações de ódio. Ao largo do diálogo e do debate, eleitores e candidatos encontraram apenas a violência (verbal e até física) como forma de argumentação. Não por coincidência, o lampejo de humanidade do período veio com a morte repentina de um presidenciável, rapidamente engolida pelo rolo compressor do jogo político-midiático, de selfies e lágrimas de crocodilo. O que se impõe, tal qual o futebol que não deslancha da seleção brasileira, é a falência da estrutura partidária-ideológica, das mobilizações institucionais. Afinal, quem votou plenamente confortável nas opções que ali se dispunha?

Forçado a vencer, constrangido pela ineficiência técnica, o time chorou. Impelido a exercer suas obrigações cívicas, consciente da inoperância da política contemporânea, restou a fúria. Se as palavras e a razão se mostram ausentes, a única reação possível é da ordem da intensidade. Com a ruína de velhos ideais e o questionamento da própria noção de identidade nacional, surgem as respostas sedutoras de um deputado com 450.000 votos e defensor da família tradicional. O indivíduo clama por significação. Vivemos o ano-chave dessa disputa por verdades.

No Itamaraty, a perplexidade diante de uma política exterior que se difunde pela Esplanada e pela sociedade civil é escancarada pelo levante das Itamaratecas exaustas, envergonhadas, mas oportunamente empoderadas. “O segredo do Itamaraty é saber renovar-se”, mas sabe o Ministério perder poder? Será possível apenas ressignificar esse poder diante de um novo Brasil que chora as dores do parto?

O ex-Ministro Celso Amorim abre livro paradigmático de Dawisson Belém Lopes transcendendo Putnam, a fundir política exterior e política interna de uma sociedade democrática, ambas como frutos de pleitos do estado da arte da nação. Escreve Amorim que, em 2002, a eleição do Presidente Lula seria o epítome da maturidade do sistema democrático brasileiro, além de representar um senso de autoestima que a política exterior converteria em motor. Se as urnas clamavam por mudança, o MRE assim procederia. Em 2014, o que teriam as urnas sinalizado para o Ministério?

Ainda que parte de nós insista em realizar a profecia do vira-lata, do eterno país do futuro, a polarização bolivariana ou peronista não nos descreve. Nos seria, então, pertinente a similaridade à rivalidade estática Republicana-Democrata estadunidense? Como afirmou o Prof. Thiago Rodrigues em palestra na PUC-Rio, por ocasião da IV Conferência sobre Relações Exteriores da FUNAG, sob a temática “O Brasil e as Tendências do Cenário Internacional”: para nós, não cabe a indagação hamletiana. Para nós, é ser e também é não ser. Construtivistas, pós-colonialistas, pós-estruturalistas, historiadores, cientistas políticos; Brasília, Rio, Niterói, Porto Alegre, Santa Maria, São Paulo, Campinas, Marília, Franca, São Bernardo, Roraima, Palmas, João Pessoa: teremos que estudar a nós mesmos. Teremos que refletir sobre nossas raízes, para além de Sérgio Buarque de Hollanda e para muito longe de Morgenthau.

O que queria o Brasil com sua política externa ativa e altiva? É o questionamento de acadêmicos como Joseph Nye e Barry Buzan, sem acesso ao debate proporcionado em português pelo próprio Amorim. É também a pergunta que se fazem diplomatas brasileiros cientes de que a política de poder não nos define, mas com dificuldades de verbalizarem, para além do Barão do Rio Branco, os rumos de seu papel como frequentemente bem-sucedidos empreendedores de normas, como pontes entre o Norte e o Sul. Convencer a um Ocidental – ou mesmo a um vizinho sul-americano – de que o Brasil, se, por exemplo, membro permanente do Conselho de Segurança, não agirá como hoje se comporta o P5 demanda refletir sobre capacidades de poder, hard, soft e smart, mas sobretudo a respeito de identidade e de novas maneiras de verbalizar o país.

É inegável que parcela quantitativamente relevante da população brasileira reagiria a atentados terroristas como os mais hawks dos estadunidenses do Tea Party. É explícito que a polícia militar brasileira, em geral, é racista como a do Missouri. Não à toa, em um ano, a passagem ao ato em relação ao preconceito contra muçulmanos aumentou em mais de mil por cento no Rio de Janeiro. E a cordialidade? Esta fica onde sempre esteve: no patrimonialismo do homem cordial. Jamais esteve em outro lugar, em que pese o mito da democracia racial – avançado por autor que colabora com o lusotropicalismo salazarista. Se, discorre Maria Rita Kehl, a condição essencial para a fraternidade é o reconhecimento da semelhança diante da desigualdade, estaríamos algo distantes do ideal iluminista.

Homi Babha, ao refletir sobre o conceito de colonial mimicry, declara, então, que o Outro seria almost the same, but not quite. Este nosso lo mismo, pero no mucho, no entanto, não se reconhece latino, tampouco ibero, muito menos africano ou indígena. Quem somos nós? Para onde vamos? Por que estamos aqui? As neopentecostais proliferam-se diante dessa crise existencial coletiva que, até 2010, não parecia contaminar a política exterior – embora moçambicanos, angolanos, paraguaios e brasiguaios já sentissem o resultado da utilização do vazio deixado pela perplexidade do Estado brasileiro por movimentos sociais diversos: de mineradoras a missionários.

Se, entre 2010 e 2014, havia uma continuidade por inércia, uma política exterior que, tocada pelo MRE, continuava a preencher os canais funcionais levando a cabo diretrizes dos áureos tempos Amorim-Lula, com novidades significativas, como a responsabilidade ao proteger; em 2014, não foi somente o jovem, talentoso e competente Thiago Silva quem sentou na bola.

Atividade e altivez não são compatíveis com inércia. Inércia, por sua vez, não garante movimentação eterna. Há atrito, o vetor deixa de girar. A fezinha, o jeitinho, a peculiaridade do Brasil deixa de ser capability diferencial para a vitória no campo. A estratégia, a tática, o treinamento e a disciplina ganharam de 7×1. Tudo isto que representa o Ocidental é laureado com superioridade inequívoca, ainda que os Argentinos tenham feito sua parte no posterior 1×0. Deveríamos, então, ser Ocidentais? Precisaremos optar, mais uma vez, pelo neoliberal? É possível fazer essa opção diante da consolidação de tantas mudanças estruturais?

A pátria brasileira, cidadãos ávidos por privilégios de um Estado-pai, esperneia diante dos irmãos negros, pobres e nordestinos que agora dividem a ponte aérea e têm smartphones. O Estado, por sua vez, mostra-se incapaz de manter os privilégios da privataria, do mensalão, do aeroporto do tio, em concomitância com o Bolsa Família, com o Minha Casa Minha Vida, dentre outros. A fratria brasileira é órfã.

A morte psicanalítica do pai pode ser deveras oportuna para o indivíduo. Para o MRE, emerge como o desafio de explicar à população a relevância e o significado da política de Estado, ainda que este esteja afirmando seus limites como provedor. Para falar, precisará escutar. Para ser ouvido, precisará daqueles que têm audiência: da mídia, dos Professores universitários, do cidadão comum na mesa do almoço de Domingo. As mulheres itamaratecas parecem ter sido bem-sucedidas em identificar o momento de reformar a relação com o pai. Já Ministros de 1ª e 2ª Classe e Conselheiros terão também de ir ao divã. São, em esmagadora maioria, intelectuais e homens de Estado de imenso valor para o país – e isso não está em questão. Por sorte, são talvez alguns dos homens e das mulheres mais capazes de refletir. Por ora, o país precisa que eles abdiquem da posição de pai e passem a ser parceiros da sociedade, das itamaratecas, dos secretários – e, não esqueceremos, dos oficiais de chancelaria.

Marcos Kalil Filho é Jornalista, mestrando em Estudos de Linguagem na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Mariana Kalil é Doutoranda em História das Relações Internacionais do Brasil, IRel/Universidade de Brasília (UnB) (marianakalil@gmail.com).

Como citar este artigo:

Mundorama. "Fratria ativa e altiva, ao divã!, por Marcos Kalil Filho & Mariana Kalil". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 03/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/03/04/>.

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