O desafio da mudança de paradigma: o Antropoceno nas Relações Internacionais, por Larissa Basso e Eduardo Viola

No início dos anos 2000, os professores Crutzen e Stoermer publicaram trabalhos nos quais refletem sobre a passagem para uma nova época geológica. A mudança seria caracterizada pelo fim da resiliência dos sistemas ecológicos: a capacidade dos sistemas retornarem ao equilíbrio após enfrentarem interferências, presente desde a última glaciação (há aproximadamente onze mil anos) até o terceiro quarto do século XX, teria chegado ao fim. O principal vetor da mudança foi o crescimento exponencial da população humana e a consequente acumulação dos impactos sobre o meio ambiente, chamada de “grande aceleração”. Na atual época geológica, diversas fronteiras planetárias, limites para uma existência segura na Terra (ROCKSTROM et al 2009; STEFFEN et al, 2015), estão sendo ultrapassadas. E porque a humanidade é o grande vetor da ultrapassagem, a época é denominada Antropoceno.

As Relações Internacionais carecem de atualização para essa nova realidade. Os conceitos base da disciplina foram elaborados na época em que o meio ambiente era estável, por isso considerado não mais do que plano de fundo para os conflitos humanos – esses sim centrais para as Relações Internacionais (DALBY, 2013). Poder, interesse nacional, ameaça e segurança eram definidos nessas bases: o “inimigo” era o outro; sobreviver no sistema internacional era o interesse maior de qualquer Estado; regras comuns só seriam válidas na medida em que emitidas e disciplinadas de acordo com o princípio da soberania. O risco de uma situação ter impacto de desestabilizar o sistema internacional era inversamente proporcional à possibilidade de a situação ocorrer (DALBY, 2013). Ou seja: situações de alta probabilidade de ocorrência tinham baixos riscos de perturbar o sistema; situações de alto impacto sobre o sistema internacional, tinham baixa probabilidade de ocorrer. Desde a década de 1950 emergiu um novo tipo de risco/ameaça – a guerra nuclear global – com baixa probabilidade, mas capacidade de destruir completamente a civilização e provavelmente extinguir a espécie humana. Esta ameaça passou a dominar todo o sistema de calculo decisório das superpotências: a doutrina de destruição mútua assegurada.

Mas esse cálculos de risco, pré-armas nucleares e com as armas nucleares, não são mais válidos. A instabilidade ambiental tira o meio ambiente do pano de fundo e o coloca como protagonista das grandes ameaças ao sistema internacional. Mudança do clima, escassez de água doce e acidificação dos oceanos, entre outros, fazem da sobrevivência da civilização humana, no longo prazo, uma incógnita. Por esse motivo, os conflitos são, agora, muito mais complexos.

De fato, os conflitos humanos ganharam, nas últimas décadas, nuances muito diversas. Há conflitos interestatais e mudanças na balança de poder entre Estados, com a ascensão parcial da Ásia/Pacífico para o centro do poder, dividindo-o com Estados ocidentais, e a diminuição do papel dos EUA como garantidor de última instância da estabilidade global – fenômeno da transição de poder. A sociedade da informação, porém, erodiu parcialmente poderes estabelecidos e trouxe para o protagonismo atores não estatais, como empresas, ONGs, governos subnacionais, organizações religiosas e redes societais. Sobem ao centro da cena internacional interesses diversos dos de Estados nacionais; há conflitos mais difusos e mais difíceis de serem controlados – o terrorismo global e a atuação de redes criminosas internacionais são os exemplos mais importantes. As Relações Internacionais compreenderam essa transformação, a difusão de poder, e tentam adaptar seus conceitos a essa nova realidade.

A instabilidade ambiental, porém, ainda não foi internalizada pela grande maioria dos internacionalistas, embora este quadro esteja mudando significativamente nos últimos anos. Quando o meio ambiente se torna instável, a humanidade, além de seus conflitos internos, passa a ter um desafio comum: enfrentar essa instabilidade para assegurar sua sobrevivência no longo prazo. Nessa situação, os conceitos de risco, ameaça e interesse nacional precisam ser atualizados.

Em primeiro lugar, o cálculo de risco enraizado na psique humana não é mais válido: fenômenos da instabilidade ambiental têm alta possibilidade de acontecer – a mudança do clima, por exemplo, é consequência direta da acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera (leis da física) – e alto impacto sobre o sistema internacional. A probabilidade que ocorra é alta – já está em curso – e seu impacto é também alto. Temperaturas extremas, secas prolongadas, enchentes, tsunamis e outros fenômenos climáticos extremos tornaram-se mais frequentes, e os impactos já estão sendo sentidos – o número de refugiados climáticos, por exemplo, está aumentando e a situação tende a se tornar crítica no futuro próximo.

Em segundo, o “grande inimigo” não é mais o outro, o diverso, mas os modos de vida de grande parte da sociedade contemporânea capitalista, os padrões de produção e hiperconsumo. Mitigar a ameaça da instabilidade ambiental significa diminuir drasticamente o consumo das classes altas em todos os países e moderar o consumo das classes médias nos países de renda alta e média; precificar o uso de bens ambientais; eliminar os combustíveis fósseis e taxar as emissões de carbono; distribuir mais a renda; investir pesadamente em educação para aumentar a consciência de causas e efeitos de longo prazo e para reformular a definição de sucesso. É uma revolução, e envolve, simultaneamente, ações de direcionamento e mudanças de comportamento.

Nesse sentido, e em terceiro lugar, interesse nacional passa a bases mais amplas: em um mundo complexo como o da sociedade da informação, pensar o Estado como ator unitário é irreal. Ele é, na verdade, plural, conjunto de governo, empresas, comunidade científica e sociedade civil (VIOLA, FRANCHINI e RIBEIRO, 2013). Esses grupos têm interesse conflitantes, mas também interesses comuns, em especial a sobrevivência humana no longo prazo. Buscar diálogo em relação ao que é conflitante, de modo a acomodar as diferenças, mas sempre tendo em máxima consideração o que é comum, é a chave da atualização do interesse nacional para o século XXI.

As Relações Internacionais ainda não internalizaram a realidade do Antropoceno e a necessidade de atualização dos conceitos para fazer frente aos desafios dele decorrentes. É nosso papel na Academia insistir com essa necessária mudança de paradigma, de modo que nossas pesquisas estejam em consonância com os desafios contemporâneos e ajudem a compreender as causas dos conflitos no sistema internacional e os caminhos de sua solução, razão de ser da disciplina.

Referências:

  • CRUTZEN e STOERMER (2000): The Anthropocene. Global Change Newsletter, n. 41, p. 17-18.
  • DALBY (2013): Biopolitics and climate security in the Anthropocene. Geoforum, v. 49, p. 184–192.
  • ROCKSTROM et al (2009): A safe operating space for humanity. Nature, v. 461, p. 472-475.
  • STEFFEN et al (2015): Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science, v. 347, n. 6223.
  • VIOLA et al (2013): Sistema internacional de hegemonia conservadora – governança global e democracia na era da crise climática. São Paulo: Annablume.

Larissa Basso é doutoranda no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e membro da rede de pesquisa Sistema Internacional no Antropoceno e Mudança Global do Clima (<larissabasso@gmail.com).

Eduardo Viola é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e coordenador da rede de pesquisa Sistema Internacional no Antropoceno e Mudança Global do Clima (eduviola@gmail.com).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "O desafio da mudança de paradigma: o Antropoceno nas Relações Internacionais, por Larissa Basso e Eduardo Viola". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 31/12/2015]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2015/12/31/o-desafio-da-mudanca-de-paradigma-o-antropoceno-nas-relacoes-internacionais-por-larissa-basso-e-eduardo-viola/>.

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