A academia e as relações internacionais do século XXI, por Paulo Visentini

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Nos anos recentes observa-se uma progressiva aceleração dos acontecimentos mundiais, o que representa um grande desafio para os estudiosos da área. A academia apresenta dificuldades em acompanhar, analisar e teorizar tal evolução. Com o encerramento da era bipolar assistiu-se ao declínio dos estudos da área de segurança internacional (expressivos até então), e o tema da “globalização neoliberal” conquistou o espaço vago. Foram necessários os atentados de 11 de setembro de 2001 para que se voltasse a agregar os temas “tradicionais” aos novos temas como campo de estudo.

Quais teorias teriam perdido capacidade explicativa e quais teriam ganho, com o desaparecimento da União Soviética (1991) e com o início da guerra ao terrorismo (2001)? Trata-se de um debate aberto, e ainda não conseguimos responder adequadamente a questão. Afinal, quanto o mundo mudou, se é que realmente mudou? Creio que, como primeiro passo, os internacionalistas necessitariam resgatar a visão de totalidade. Os fatos e processos internacionais ocorrem dentro de um mesmo cenário, estão associados, direta ou indiretamente. Como disse Eric Hobsbawn, são tempos interessantes (e desafiantes…).

Após a Guerra Fria, ocorreu certo reordenamento de forças no sistema internacional. Mas quando o vácuo gerado pela desagregação da URSS e de seu sistema de alianças foi sendo ocupado por outros atores globais (antigos e novos), emergiu uma espécie de Guerra de Posições. A China e as demais nações emergentes, sobretudo as integrantes dos BRICS, lograram ampliar sua presença internacional. Mas esse precário equilíbrio foi consideravelmente afetado, inicialmente, pela Guerra ao Terrorismo e, posteriormente, pela crise econômica nos países do Atlântico Norte a partir de 2008-2009.

Esse fenômeno se combinou com o insucesso norte-americano na Guerra ao Terrorismo no Oriente Médio e Ásia Central. Não tardou muito para que houvesse uma reação euro-americana, tentando restaurar o statu quo ante. Os desdobramentos da chamada Primavera Árabe constituíram o primeiro estágio de uma reação em cadeia (geralmente com escalada militar), que prosseguiu com a projeção do poder Ocidental para a África (segundo estágio), cuja posição vinha sendo alterada em função da aproximação com potencias emergentes.

O terceiro estágio decorreu do crescimento das tensões na Ásia oriental, que a China vem logrando equilibrar, mas que não cessa de crescer. O quarto estágio da escalada está voltado contra a Rússia de Vladimir Putin por meio do conflito da Ucrânia, e do envolvimento russo no combate ao Estado Islâmico na Síria (KISSINGER, World Order, 2014).

Todavia, os conflitos localizados e as tensões regionais têm recebido uma atenção post facto na academia, e de forma compartimentada. Carecemos de uma reflexão totalizante que seja capaz de interpretar os acontecimentos atuais de forma integrada. Eles parecem confusos e, geralmente, são tratados como fenômenos específicos.

Quando se observa os acontecimentos no Brasil, desde as manifestações de junho de 2013 à Copa Mundial de Futebol, à eleição presidencial e à fragilização das empresas internacionalizadas (privadas e públicas) do Brasil por uma insólita onda de denúncias de corrupção, pode-se identificar o quinto estágio da reação. Ela também afeta a Argentina, a Venezuela e a pressão induzida pela redução do preço do petróleo. Trata-se de um estágio que emprega, intensamente, o chamado smart power. E a motivação é essencialmente econômica.

A difícil recuperação econômica por parte das potencias norte-atlânticas tem sido conseguida, entre outras coisas, às custas das reservas monetárias e do patrimônio de potencias emergentes. O crescente discurso anti-BRICS está associado a esse fenômeno. Há uma verdadeira Guerra Econômica em andamento, que constitui o fio condutor que articula os conflitos e tensões contemporâneos. Ela é acompanhada de um realinhamento geopolítico habilmente articulado, especialmente, por Washington e Londres, visando estruturar uma nova configuração geoeconômica.

Sinal dos novos tempos, temas insólitos emergem, e só ganham sentido e relevância, quando inseridos na totalidade das lutas de poder atuais, como o escândalo da FIFA. A Rússia, que segue pressionada por sanções europeias e norte-americanas, agora se vê ameaçada quanto à realização do Campeonato Mundial de Futebol de 2018 no país. Por outro lado, na Europa, a questão do conflito ucraniano e da crise grega se tornaram secundárias na agenda. O fluxo de refugiados, que cruzava o Mar Mediterrâneo, da desgovernada Líbia para a Itália, foi superado por outro ainda mais expressivo. Sírios, afegãos e outros caminham, em levas maciças, através dos Balcãs rumo à Alemanha e outras nações.

A União Europeia pareceu, então, surpresa e sem capacidade de reação coordenada. O tsunami de pessoas que o Ocidente classificava como vítimas, uma consequência das intervenções Ocidentais no Norte da África e Oriente Médio, deixou-os perplexos. Até mesmo fronteiras internas da União Europeia passaram a ser controladas, fato inédito em meio século. O surpreendente é que a Europa não esperava tais consequências e não tem a menor ideia do que fazer para resolver o problema, em meio aos avanços da extrema-direita e atentados terroristas em suas grandes cidades.

O principal foco de tensão, no momento, é o Oriente Médio, não apenas pelos conflitos regionais, mas pelo seu espraiamento pelo pelas regiões vizinhas e pela Europa, bem como pelo envolvimento da Rússia na Síria, o que representa um elemento realmente novo. O chamado Estado Islâmico impressiona não apenas por sua superioridade combativa e tecnológica em relação aos grupos terroristas anteriores, mas por suas conexões internacionais e ações de guerra convencional. Quem o apoia e com que propósito? Mais do que acabar com o regime de Assad, parece haver uma tentativa de redesenhar o mapa da região. E o discreto apoio das petro-monarquias e a conivência da Turquia parecem ser apenas a ponta do iceberg. O silêncio e/ou a relativa omissão de atores de peso frente a tal fenômeno é algo que gera muitas interrogações.

Mas há movimentos bidirecionais na política mundial. Após a derrota de Barack Obama nas eleições de meio de mandato, apressados analistas declararam seu governo acabado. Contudo, meses depois foi anunciado o acordo de reatamento com Cuba e, logo, o acordo nuclear com o Irã. Há que prestar atenção, também, não apenas na diplomacia do Papa Francisco, mas na aproximação do Vaticano com a Igreja Ortodoxa. Enfim, são fenômenos inesperados e complicados de serem relacionados com o quadro acima descrito.

E como se comporta o Brasil diante de tal cenário? A extrema polarização política interna e a falta de sustentabilidade da hiperativa diplomacia do Presidente Lula por sua sucessora representam o elemento mais visível. Num curto período de tempo, houve um recuo da política externa brasileira, que se tornou mais pragmática e economicista. O interesse da Casa Branca no petróleo das duas margens do Atlântico Sul (e o relativo desengajamento americano do Oriente Médio), bem como a criação de um novo polo de atração com a Aliança para o Pacífico e a Parceria Trans-Pacífica, parece recriar complementariedades entre o Brasil e os Estados Unidos. Já o Acordo com a UE parece ser mais problemático.

Todavia, o que mais preocupa, para a manutenção de uma política externa coerente, são as dificuldades de governabilidade doméstica. A instabilidade política e a falta de um projeto econômico claro, geram obstáculos sérios. E há mais de vinte anos os setores de defesa externa, segurança interna e inteligência têm sido negligenciados, inclusive pelo governo atual, influenciado por uma perspectiva pós-moderna e (des)orientado por uma agenda emanada das grandes potências. Neste sentido, o governo Dilma Rousseff demonstra não apenas falta de prioridade, mas também certa descontinuidade em relação à diplomacia do presidente Lula.

Um BRICS afastado geograficamente do núcleo eurasiano, o Brasil se debate com problemas de identidade. Uma nação histórica e culturalmente reconhecida pelo predomínio da mestiçagem, sucumbe à ideologia do multiculturalismo que, em última instância, o define como “Ocidental”, com minorias. Sem identidade nacional, não há projeto nacional, e sem ele, não pode haver desenvolvimento sustentado e autonomia internacional. Mas algo que está em jogo, no plano externo, é o realinhamento da diplomacia brasileira, com o afastamento dos demais BRICS. O lugar de destaque que o Brasil parecia haver conquistado no mundo parece estar se perdendo. Enfim, para nós, analistas das relações internacionais, o século XXI está trazendo enormes desafios, práticos e teóricos.

 

Paulo Fagundes Visentini é Professor Titular de Relações Internacionais da UFRGS e Editor da AUSTRAL: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais (paulovi@ufrgs.br).

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Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A academia e as relações internacionais do século XXI, por Paulo Visentini". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 30/12/2015]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2015/12/30/a-academia-e-as-relacoes-internacionais-do-seculo-xxi-por-paulo-fagundes-visentini/>.

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