Brasil em 2016: a persistência do marasmo, por Virgílio Arraes

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Em meio a uma crise política de dimensão inesperada até algumas semanas apenas, o Brasil parece adentrar em uma peça de vaudeville de um hoje esquecido autor francês do século dezenove: Eugène Scribe.

Apesar de agradar a setores mais conservadores da opinião pública daquela época, faltava em seus enredos a profundidade dramática. Assim, em sendo possível transportar no tempo o teor de seus escritos, haveria sem dificuldade a observação no país da disputa rala por poder, onde as lides cotidianas carecem de um bem articulado projeto de nação, ao contentar-se com a substituição de nomes ou, no máximo, de agremiações partidárias em torno das quais os adjetivos ostentados têm pouca afinidade com a realidade.

Em um território continental onde a tradição da metrópole persiste, apontar-se-ia a continuidade de traços do período da mentalidade barroca. O comportamento de parte dos filiados e principalmente dos dirigentes dos partidos no dia a dia não precisa sequer resvalar na designação oficial. Destarte, organizações de estandarte socialdemocrata ou trabalhista podem abraçar de forma serelepe a ideologia neoliberal.

Os desmesurados desafios da sociedade brasileira para o próximo ano não são de maneira alguma inéditos. Ao contrário, encontram-se eles arquivados em estantes ou em computadores governamentais à espera de um bem aventurado grupo político disposto a encará-los de fato sem subterfúgios, em especial sem valer-se de apelos mercadológicos, por meio dos quais a administração superior concebe planos ou programas sem viabilidade ou sem real interesse de executá-los.

Na oposição, os trabalhistas criticavam o Brasil em Ação ou o Avança (sic) Brasil dos socialdemocratas. Ao ascender à situação, procediam estes a apontar os defeitos do Plano de Aceleração do Crescimento. Entre um e outro, ausenta-se a execução de uma programação ferroviária, por exemplo, ou metroviária nas cidades, importante para o bem-estar da população e deste modo para o desenvolvimento.

Enfileirados, os problemas encorpam-se com o passar dos anos, haja vista a ausência de enfrentamento constante pelos segmentos públicos ou privados mais representativos. Chega-se a 2016 sem se descortinar a possibilidade de grandeza para o país.

O próximo ano assinala o coroamento da diplomacia lúdica, opção feita sem hesitação pelo trabalhismo, ao instalar-se no Palácio do Planalto em janeiro de 2003. Com a futura realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro, após a espraiada Copa do Mundo de 2014, Brasília completará sua apresentação ao globo sem resultados expressivos, se considerada a aspiração de apresentar-se como ator de peso nas relações internacionais.

Aos críticos da modernidade adelgaçada das duas últimas décadas em solo pátrio, mais incautos e menos bajuladores contra-arrazoam com a fácil invocação do chamado complexo de vira-latas, originado por coincidência da pena de um jornalista sobremodo conservador, diante do êxito obtido exatamente em evento esportivo, no caso a vitória na copa do mundo de 1958 na Suécia, após o trauma da competição de 1950 no Brasil.

Sinal do desinteresse de uma projeção embasada no quadro das grandes potências reside na valorização insuficiente da ciência e tecnologia. Reflexo, ainda que imperfeito da visibilidade no segmento, é a tradicional premiação sueca em três áreas do saber: química, física e medicina.

Em nenhuma delas, o Brasil logrou obter a indicação final, situação diferente de sociedades de patamar similar como Argentina, México, Egito, Paquistão, Índia e até pouco tempo China – como a Venezuela, o país possui um cidadão com o prêmio na medicina, mas com carreira frutificada no exterior em função da imigração precoce.

No início do seu quarto mandato, a presidência trabalhista, à semelhança de sua predecessora socialdemocrata em quase uma década, mantém de lado a idéia de implementação efetiva do desenvolvimento, ou seja, da medida de satisfação mais elevada de determinadas necessidades do povo, ao contentar-se com ações socialmente compensadoras para os setores menos abonados. Desta forma, mitiga-se a falta do básico como na alimentação, por exemplo, ou na habitação com conjuntos residenciais sem toda a infraestrutura necessária.

Importantes no curto prazo, a fim de aplacar os desdobramentos socioeconômicos mais adversos do neoliberalismo periférico do pós Guerra Fria, mas sem efeito transformador no correr do tempo com o propósito de aproximar o país dos índices de qualidade de vida do arco norte-atlântico e mesmo do sudeste asiático, no qual não se permite ainda a democracia conviver de maneira plena com a melhora material.

Sem sinais internos contínuos de pujança, o ministério das relações exteriores, em sendo o principal órgão encarregado de divulgar e, de forma simultânea, de reforçar o plano nacional abraçado pela população e ratificado pelas oligarquias políticas, esvazia-se.

A motivação do corpo funcional não deve ser tão-somente salarial. Caberia ao Planalto a formulação de diretrizes consistentes com um ideário de transformação efetiva da realidade local, em face da disparidade social, mesmo implementado no longo prazo.

Sem isso, é natural a perda de relevância econômica da chancelaria, ao ter para si parcela mínima do orçamento federal, em um entendimento sem maiores divergências entre o Executivo e o Congresso, e política, ao ter como titulares do cargo nos últimos tempos apenas funcionários de carreira, sem muita visibilidade ou atração e, por conseguinte, com menor margem de circulação perante o restante da sociedade como o empresariado ou a academia.

Intrigante no quadro brasileiro é a razão de não haver o arranque rumo ao emparelhamento do desenvolvimento das grandes potências. Não faltam recursos humanos ou materiais. Sobraria, portanto, a questão da condução do país no grau maior, ou seja, no alto do poder em cujas mãos se localizam a elite política e a econômica.

No ano vindouro, há várias questões a ser tratadas na política externa – arena em que sucessivas administrações enxergam seus maiores êxitos à frente da presidência da república. Entre os temas, assomariam um novo esquadro do MERCOSUL, haja vista a mudança interna de curso na Argentina e a fragilidade institucional na Venezuela; o estímulo às exportações, com o norte a ser direcionado de maneira gradativa para a indústria e com o firmamento de um câmbio competitivo; o abandono da ilusão da reforma do conselho de segurança da organização das nações unidas, no qual o Brasil teria direito a um assento permanente, e, por fim, a substituição do princípio da não indiferença pelo da autodeterminação no tocante à presença de tropas no Haiti há mais de um decênio.

 

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília

 

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Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Brasil em 2016: a persistência do marasmo, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 29/12/2015]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2015/12/29/brasil-em-2016-a-persistencia-do-marasmo-por-virgilio-arraes/>.

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