Terror em Dois Atos: a história se repete? – Implicações para o Brasil, por Marcos Degaut

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Alçado ao patamar de principal ameaça à paz e estabilidade mundial após os atentados de 11 de setembro de 2001, o terrorismo permanece uma das principais expressões de violência da arena internacional e sua frequência e intensidade vêm aumentando sistematicamente. Desde aquele ano, quando ocorreram 3.547 mortes, houve aumento de nove vezes no número de mortos por ações dessa natureza.

Dados do Departamento de Estado americano revelam que 10.415 incidentes terroristas ocorreram em 2013, resultando em 17.891 mortes, subindo para 13.463 incidentes em 2014, com 32.727 mortes. Isso representa mais de 36 ataques e mais de 89 vítimas fatais por dia.

Todavia, como a maior parte desses incidentes se dá em países convulsionados por fraturas políticas, clivagens étnicas ou conflitos religiosos, como Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Líbano, Síria e Iraque, não se lhes confere a mesma atenção proporcionada a atos extremistas em países considerados parte da civilização Ocidental, como os recentes atentados em Paris, que mataram ao menos 129 pessoas.

Guardadas as devidas proporções, os cenários de 2001 nos EUA e 2015 na França espelham semelhanças. Em ambos, presidentes altamente impopulares subitamente encontraram plataforma que lhes permitiu alavancar seus índices de aprovação; movimentando-se com base em retórica política, no princípio da ação e reação e premidos pela necessidade de fornecer resposta imediata à opinião pública interna, ambos clamaram por coalizões internacionais e desencadearam retaliações militares que colocaram considerações de natureza estratégico-militar no centro das relações internacionais, relegando a agenda econômica e de desenvolvimento a segundo plano.

As semelhanças, contudo, encerram-se aí, e um cenário que já era complexo em 2001 torna-se mais imprevisível, evidenciando que o emprego do terrorismo como instrumento de opção para perverso padrão de barganhas representa grave e crescente perigo, sobretudo quando retroalimentado por conflitos regionais e interesses antagônicos. Hoje, a ameaça terrorista pode atingir estágios mais elevados de confrontação bélica e redesenhar o mapa geopolítico regional.

Vários fatores contribuem para o agravamento desse quadro. Primeiro, a França não é os Estados Unidos. Não possui a liderança estratégica, a capacidade de aglutinação política, os recursos militares e de inteligência ou o fôlego econômico para liderar uma coalizão contra o terrorismo, num contexto em que EUA e Rússia assumem posturas e estratégias divergentes quanto ao conflito na Síria, que lança o Oriente Médio em espiral ascendente de violência. Isso, por si só, já representa alteração radical em relação a 2001, quando uma Rússia ainda enfraquecida avalizava a formação de ampla frente internacional antiterrorismo e a “Doutrina Bush” de guerra preventiva. Solidária, a França emprestava apoio incondicional à Global War on Terrorism (GWOT) do governo americano e enviava oito mil soldados para lutar no Afeganistão.

Segundo, priorizando sua política doméstica, os EUA continuam relutando em assumir protagonismo no conflito sírio, insistindo em condicionar qualquer ofensiva militar mais ampla ao afastamento do Presidente Assad do poder. Divergem, assim, frontalmente da Rússia, que, mais pragmática, defende primeiramente a eliminação do Estado Islâmico e a estabilização do país para, em seguida, discutir questões políticas.

A falta de assertividade de Obama levou um grupo de militares de alta patente, liderados pelo ex-Diretor da Defense Intelligence Agency (DIA), General Michael Flynn, a criticar a estratégia americana e apoiar a intervenção russa. Ingenuamente, Obama parece acreditar que o terrorismo na região reflete apenas lutas políticas locais.

Enquanto isso, Arábia Saudita e Turquia, importantes potências regionais, fazem jogo duplo, ao publicamente apoiarem esforços antiterroristas, mas, sub-repticiamente, fornecerem suporte ao EI, para desestabilizar o regime de Assad.

Algumas dessas lideranças parecem negligenciar – ou ocultar – o fato que o terrorismo desempenha papel crucial na estratégia militar do Estado Islâmico (EI) no conflito sírio, tarefa que vem sendo facilitada pela falta de convergência política entre os principais atores regionais e globais acerca de uma estratégia de ação conjunta.

Por meio desse método, o EI – também conhecido pelo acrônimo árabe Daesh – busca aumentar seu prestígio junto aos radicais muçulmanos e atrair simpatizantes, desmoralizar tropas e governos estrangeiros, exibir poder e resolução e eliminar inimigos e oposição internos ao seu projeto de criar um grande califado que incluiria inicialmente a Síria e o Iraque e, em um segundo estágio, Líbano, Jordânia, Palestina e Israel.

À semelhança da estratégia perseguida pelo Estado Sírio nas últimas três décadas, o EI opera em vários níveis simultaneamente. Proporciona ajuda econômica e militar a diversos grupos terroristas em todo o mundo em troca de auxílio logístico e operacional para seus atentados; treina e arma terroristas de outras organizações em seu território; promove a radicalização e cooptação de indivíduos via mídias sociais; financia organizações políticas e insurgentes que objetivam minar a legitimidade dos governos da região, como forma de desestabilizá-los; e busca se tornar uma organização guarda-chuva, agrupando outros movimentos terroristas sob sua orientação.

Com suas ações espetaculares, o EI buscou fazer com que, a exemplo do 11 de Setembro, o 13 de novembro possa inspirar nova geração de terroristas, ávidos por mostrar a força e “legitimidade” de sua causa. De fato, relatórios de inteligência indicam que novos ataques vêm sendo tramados contra a Europa e os EUA, podendo atingir Israel.

Os principais atores nesse conflito parecem privilegiar unicamente interesses individuais, o que retira a eficácia da luta contra o terror. Ao que parece, as tentações do unilateralismo e da estagnação podem se provar mais sedutoras do que as incertezas da ousadia e da cooperação política.

Nesse contexto, ganha especial relevância a estratégia de emprego dos chamados “lobos solitários”, como parece ter sido o caso dos atentados cometidos no último dia 2 de dezembro na localidade de San Bernardino, nos Estados Unidos. Na ocasião, três indivíduos de origem paquistanesa invadiram um centro comunitário para atendimento de pessoas com necessidades especiais, matando 14 e ferindo mais de 20 outros, ainda por motivos desconhecidos.

Todavia, verifica-se que o desconhecimento acerca das potencialidades letais desses métodos ainda persiste no Brasil. Por exemplo, durante o seminário “Enfrentamento ao Terrorismo no Brasil”, recentemente realizado em Brasília, representante da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou que a maior preocupação daquele órgão quanto à segurança dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, não são organizações terroristas, como o Estado Islâmico, mas os chamados “lobos solitários”, descritos como pessoas que conhecem pela internet a ideologia de um grupo terrorista e agem em prol dela sem jamais ter tido contato com seus membros.

Tal descrição simplista revela insciência acerca da natureza e características do fenômeno dos lobos solitários e coloca em dúvidas não só o planejamento de segurança para as Olimpíadas, mas também a capacidade de formulação de políticas e ações de prevenção e repressão ao terrorismo no Brasil.

O termo lobo solitário é usado para designar um indivíduo que cometa atos de violência política em nome de uma causa religiosa/política/ideológica e que não pertença a um grupo extremista ou, embora pertença, opera individualmente ou em pequenos grupos, tanto no planejamento quanto na execução do ataque.

Ao contrário do que acredita o representante da Abin, o chamado lone wolf pode sim contar com alguma forma de treinamento, orientação ou assistência material proporcionados por organizações terroristas.

Na realidade, existem quatro tipos de lobos solitários. Os “autônomos” ou loners são os que se aproximam do perfil delineado pela Abin. Realizam atentados motivados por alguma ideologia extremista, mas não possuem conexão com grupos terroristas. Encaixam-se nessa categoria os irmãos chechenos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, que mataram três pessoas durante a Maratona de Boston de 2013. Suas ações, que são normalmente de baixo impacto, representam menos de 10% dos ataques perpetrados por essa modalidade de terror.

Em seguida, os “lobos solitários” propriamente ditos, embora operem autonomamente, costumam manter contatos com grupos terroristas e recebem algum tipo de orientação e treinamento. Esse é caso do franco-argelino Mohamed Merah, que matou sete pessoas em Toulouse, na França, em março de 2012, em nome da religião muçulmana e em protesto contra o envolvimento da França no combate ao terrorismo no Afeganistão, tendo sido treinado e financiado pela al-Qaeda do Maghreb Islâmico (AQIM).

A terceira categoria se refere à “matilha” ou “lone wolf pack”, indivíduos radicalizados que operam em pequenas células independentes e recebem recursos e treinamento de grupos terroristas, embora não façam parte de suas estruturas. Foram esses indivíduos que, conectados ao Estado Islâmico, perpetraram os recentes ataques em Paris. Segundo o Departamento de Estado Norte-Americano, 40% dos ataques dessa modalidade são cometidos por “matilhas”.

Finalmente, existem os “atacantes solitários” ou lone attackers, que operam individualmente, mas que exibem claros vínculos de comando e controle com organizações terroristas. Esse é o caso de Anders Breivick, integrante de organização de extrema-direita, que matou 77 pessoas na Noruega, em julho de 2011, reagindo contra suposta islamização do país.

Em qual dessas categorias se encaixa o atentado de San Bernardino ainda está por se definir – embora as evidências apontem para vínculos com grupos extremistas islâmicos – e, com isso, a estratégia contraterrorismo mais indicada para suprir eventuais falhas no sistema. De toda forma, o Federal Bureau of Investigation (FBI) dos Estados Unidos assinala que, após a morte de Bin Laden, em 2011, ataques terroristas executados por lobos solitários se converteram na maior ameaça à sua segurança nacional e seus interesses no exterior.

Isso se deve ao fato de que o acompanhamento constante das atividades de organizações terroristas no mundo todo por parte de serviços policiais e de inteligência tem levado à adoção de estratégias subversivas individuais, também denominadas de resistência sem líder, que incluem atividades de pequenos grupos independentes.

Tais estratégias direcionam suas operações para alvos com reduzido nível de segurança e contam com o benefício adicional de não serem impactadas por restrições de tempo ou hierarquia, próprias dos agrupamentos terroristas tradicionais, que podem atrasar ou impedir a tomada de decisões ou a própria execução do atentado.

Outra “vantagem” dessa estratégia é que uma organização terrorista pode facilmente se desassociar de um lobo solitário quando um atentado particularmente abominável ou ultrajante é cometido.

A Abin busca cumprir seu papel ao não alarmar a população. Entretanto, ignorar uma ameaça dessa magnitude não vai fazê-la desaparecer. O desconhecimento e a negligência podem custar caro.

MARCOS DEGAUT é Doutor em Segurança Internacional e Professor Adjunto na University of Central Florida (marcosdegaut@knights.ucf.edu).

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