Internacionalização universitária, por Soraya Pessino da Rosa

Para que as instituições se articulem com igualdade de oportunidades e produzam efeitos significativos nas trocas de conhecimentos é fundamental a existência de profissionalismo e transversalidade intercultural na concepção estratégica internacional da Instituição. O profissionalismo técnico fornecerá os meios e institucionalizará as atividades, ao passo que a interculturalidade lapidará os caminhos estratégicos para que os resultados processuais da internacionalização sejam efetivos.

Partindo do pressuposto que esses assuntos devem fazer parte das discussões administrativo-acadêmicas da IES, cabe aqui sugerir estratégias diversificadas para o alcance de efetivas internacionalizações universitárias:

Programas de Mobilidade

A mobilidade pode ser praticada por todos na IES. Docentes, discentes, administradores, funcionários, pesquisadores, entre outros. Ao mesmo tempo em que a tradicional ida e vinda de estudantes para a Europa e América do Norte, existe um vasto espaço a ser explorado na América do Sul, África e Ásia. (STALLIVIERI,2004; SANTOS; ALMEIDA FILHO, 2008).

Redes de Cooperação Internacional

As Redes de Cooperação acadêmica internacional ainda são pouco utilizadas pelas Instituições brasileiras. Por meio de informações dos sites oficiais de algumas delas, por exemplo, apesar do ensino superior brasileiro ser composto por 2.377 instituições muitas não participam da FAUBAI (180 gestores brasileiros cadastrados) e da Laureate (apenas três Universidades brasileiras compõem seu quadro). (FAUBAI; LAUREATE)

Acordos de Colaboração

Os Memorandos de Entendimento ou Protocolos de Cooperação são instrumentos que ratificam os acordos interinstitucionais. Eles podem ser gerais e amplos ou específicos, delimitando áreas, atividades e prazos. (STALLIVIERI, 2004)

Pesquisa Compartilhada

A ideia de intercâmbio só pode ser concretizada quando a base do conhecimento é trocada, compartilhada ou até mesmo construída de forma conjunta, e a pesquisa compartilhada, como uma das funções fundamentais da Universidade, é um dos caminhos para isso. Não se trata apenas de publicações conjuntas, ainda que elas sejam relevantes, mas sim de projetos internacionais comuns para estudo mútuo e troca de conhecimentos. (KRAWCZIK; SANDOVAL, 2007)

Dupla Diplomação

A ideia da dupla diplomação deve ir além da questão de oferecimento de currículo mais amplo para os alunos, mas sim fazer parte do projeto estratégico de ampliação dos saberes em nível global, algo como a oportunidade de diálogos mais participativos em sala de aula e nos projetos que resultem desses ambientes. (SANTOS; ALMEIDA FILHO, 2012).

Gestão da Cooperação Acadêmica Internacional

Os projetos de Cooperação Internacional são tradicionalmente desenvolvidos pelos Estados. Todavia, com o fim da Guerra Fria, outros atores e temas se fortaleceram nos processos de descentralização de poder. O centro das discussões não era mais baseado apenas na guerra pelo poder, mas sim, outros assuntos e experiências passavam a nortear os debates e as parcerias internacionais. Tanto em projetos diretos de cooperação acadêmica internacional (entre Universidades) como para participação das IES nos projetos federais oficiais entre países, os espaços e assuntos foram ampliados. Entende-se que os acordos de cooperação acadêmica devem materializar as parcerias institucionais e contribuir para o projeto de internacionalização das Universidades. (MOROSINI, 2006).

Alocação de Recursos para a internacionalização

Os financiamentos são extremamente relevantes para a academia, mas a IES não deve se limitar a atuar internacionalmente apenas por essa via.   É necessário investimento e/ou contrapartida para que exista liberdade de atuação também nas áreas de interesse específico local. A previsão de recursos deve fazer parte do processo de internacionalização institucional. Isso corrobora com a idéia de que é importante a internacionalização fazer parte do planejamento estratégico da IES como algo profissional, técnico, contínuo e necessário para a ampliação dos saberes. (MOROSINI, 2006; STALLIVIERI, 2004)

Fluxo de Informações

Entende-se por “fluxo de informações” a estratégia que se desenvolve para a comunicação dentro e fora da IES. O acesso às informações e a oportunidade de diálogos constantes são mecanismos fundamentais para que os objetivos institucionais sejam alcançados. A divulgação das oportunidades de intercâmbio e editais internacionais, espaços constantes de diálogo para promover maior integração entre os alunos e professores visitantes e os locais, a publicação de ações internacionais da IES, o compartilhamento de pesquisas, publicações e debates globais, entre outras tantas iniciativas como essas possibilitam que o fluxo constante de informações seja um aliado ao projeto institucional de internacionalização. (MOROSINI, 2006; STALLIVIERI, 2004)

Todos estes caminhos técnicos podem ser utilizados como instrumentos para a profissionalização da internacionalização acadêmica nas Universidades, mas em nada contribuirão se a cultura, característica fundamental da internacionalização universitária, não for considerada como um elo relevante para a execução qualitativa destas iniciativas.

 Para a Unesco, a compreensão de cultura tem dois significados diferentes e complementares.

Em primeiro lugar, é a diversidade criativa plasmada nas “culturas” específicas, com as suas tradições e expressões tangíveis e intangíveis únicas. Em segundo lugar, a cultura (agora no singular) alude ao instinto criativo que se encontra na origem da diversidade de culturas. Esses dois significados, um que se toma a si próprio como referente, e outro que se transcende, são indissociáveis e constituem a chave da interação frutífera de todos os povos. (UNESCO,2011)

E é neste processo de internacionalização universitária, em ambientes multiculturais, que surge a relevância da aplicabilidade intercultural, indicando a possibilidade de convivência equitativa de diferentes culturas, promovendo a integração sem anular a diversidade multicultural (VASCONCELOS, 2013). Neste ponto é importante distinguir os conceitos entre a convivência multicultural e intercultural.

Segundo Vasconcelos: “O termo intercultural diferencia-se de outro bastante usado no estudo da diversidade cultural que é o da multiculturalidade que indica apenas a coexistência de diversos grupos culturais na mesma sociedade sem apontar para uma política de convivência” (VASCONCELOS, 2013, p 2).

Se a interculturalidade não é algo naturalmente estrutural, o fato dela existir vai depender da ação acadêmica utilizada para convivência da multiculturalidade. Compreende-se então que a educação intercultural é um conceito operacional necessário dentro das Universidades internacionalizadas.

Fleuri afirma que a primeira distinção entre educação multicultural e educação intercultural está na intencionalidade que motiva a relação entre as diferentes culturas (FLEURI, 2001). Para ele, o educador passa da perspectiva multicultural para a intercultural quando constrói um projeto educativo intencional para promover a efetiva relação entre culturas diferentes. Ainda seguindo Fleuri (2001), existem outras características que identificam a educação intercultural. São elas a prática educativa e a ênfase nos sujeitos da relação.

As práticas educativas interculturais consideram que a convivência de diferentes culturas viabiliza um modo próprio para um determinado grupo ver e interagir com a realidade de outros. E é esse olhar inclusivo para o outro, que faz com que a educação intercultural enfatize os sujeitos partícipes dos processos de internacionalização acadêmica.

Dando ênfase aos sujeitos, valora-se a cultura como algo que é criado e sustentado por indivíduos. Na educação intercultural os indivíduos são vistos como elementos ativos, que criam e preservam, afetam e são afetados pela cultura em que estão inseridos (FLEURI, 2001). Este olhar multidimensional de interação entre sujeitos faz da interculturalidade um projeto intencional necessário para execução qualitativa das estratégias internacionais das Universidades.

Nos projetos de mobilidade, em pesquisas compartilhadas, nos programas de dupla diplomação, ou em qualquer outro processo técnico de atuação internacional da Universidade, a interculturalidade deverá ser um tema transversal para que as ações gerem resultados efetivos de integração. No entanto, compreende-se que a educação intercultural é algo que exige planejamento metodológico para integração contínua entre todos os envolvidos nos processos de internacionalização acadêmica. Longe de esgotar o tema, fica aqui uma proposta de reflexão para educadores e gestores educacionais sobre os métodos de internacionalização universitária utilizados em suas instituições.

Referências

  • FAUBAI. Disponível em: http://faubai.org.br/pt-br/sobre-a-faubai/. Acesso em 12/10/2015.
  • FLEURI, Reinaldo Matias. Educação Intercultural no Brasil: A Perspectiva Epistemológica da Complexidade. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Vol.80,n. 195. Brasília, 1999.
  • LAUREATE. Disponível em: http://www.laureate.net/OurNetwork. Acesso em 12/10/2015.
  • SANTOS, Boaventura.Sousa.;ALMEIDA FILHO, Naomar. A universidade no século XXI: Para uma Universidade Nova. Coimbra, 2008. Disponível em http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/A%20Universidade%20no%20Seculo%20XXI.pdf. Acesso em: 21 de maio de 2012.
  • STALLIVIERI, Luciane. Estratégias de Internacionalização das Universidades Brasileiras. EDUCS. Caxias do Sul, 2004.
  • UNESCO, Relatório Mundial. Investir na Diversidade Cultural e no Diálogo Intercutural, 2011.

Soraya Pimentel Pessino da Rosa – Universidade Federal da Bahia (sorayapessino@hotmail.com)

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