Paris 13/11: comportamento estratégico do terrorrismo internacional?, por Marcos Degaut

image_pdfimage_print

Os recentes atentados terroristas em Paris reavivaram, mais uma vez, os debates acerca da ameaça imposta pelo terrorismo internacional em escala global. Não deveria ser assim. Os ataques à capital francesa não representam um caso isolado. Ao contário, dados do Departamento de Estado Norte-Americano indicam que a frequência e intensidade de atos extremistas vem aumentando ao longo dos anos. Apenas em 2013, 10.415 incidentes terroristas foram registrados, resultando em 17.891 mortes. Seguindo a tendência, foram registrados 13.463 incidentes terroristas em 2014, com 32.727 mortes[i]. Isso representa mais de 36 atentados terroristas e mais de 89 vítimas fatais por dia. Desde o ano 2000, quando foram registradas 3.361 mortes, ocorreu um aumento de quase nove vezes no número de pessoas mortas por ações dessa natureza. Os números relativos a 2015, embora ainda não consolidados, apontam na mesma direção. Entretanto, como a maior parte desses incidentes se dá em países convulsionados por fraturas étnicas ou conflitos religiosos, como Somália, Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Síria, Líbia e Iêmen, não se confere a eles a mesma atenção proporcionada a atos extremistas em países considerados parte da civilização Ocidental e que são, curiosamente, importantes destinos turísticos.

Esses dados evidenciam que a brutalidade e letalidade das ações terroristas – uma das características do terrorismo[ii] –  tem se acentuado significativamente, em proporção maior do que o número de atentados, o que apresenta três implicações. Primeiro, reflete a  elevada capacidade técnica, financeira, logística, operacional e de inteligência do grupo Estado Islâmico e de outras importantes organizações terroristas. De fato, cerca de 70% dos atentados terroristas registrados em 2014 foram reivindicados por apenas seis organizações, todas com elevado grau de institucionalização: Estado Islâmico, Boko Haram, a guerrilha Talibã, al-Qaeda e suas afiliadas[iii], Hizballah e Hamas.

Em segundo lugar, e mais importante, verifica-se uma transformação em curso na própria natureza do terrorismo. Historicamente, o recurso ao terrorismo apresentava caráter simbólico. De forma geral, não se buscava, de forma imediata, a consecução de objetivos políticos, em uma acepção ampla, com o emprego de técnicas e métodos terroristas. Buscava-se, principalmente, chamar atenção para uma causa por meio da disseminação do pânico, explorar vulnerabilidades do estado ou do inimigo da causa, e atrair simpatizantes e recrutas. Nesse contexto, buscava-se mais amedrontar do que matar, embora  a morte de inimigos fosse aceita com naturalidade, como se fosse um “desejável” efeito colateral. Não mais. Esse caráter simbólico tem sido substituído por um caráter instrumental, em que a brutalidade e a letalidade se tornaram objetivos em si mesmos. A eliminação direta e em grande escala do inimigo se tornou uma meta autônoma, em um contexto em que exibições maciças de força refletem a impossibilidade de se estabelecer qualquer canal de diálogo com essas organizações. Esses terroristas “modernos” não querem diálogo. Querem não só mostrar seu poder e sua capacidade, mas, sobretudo, eliminar aquels percebidos como inimigos.

Finalmente, a escala e o grau de ousadia e coordenação dos ataques a Paris e ao Líbano, na semana anterior, jogam por terra a crença popular amplamente disseminada de que terrorismo é coisa de loucos e fanáticos. Nada mais distante da realidade. A opção pelo terrorismo não é uma escolha aleatória, que surge do nada ou que funcione em um vácuo. É uma estratégia de ação lógica, racional, programada e com objetivos, geralmente, claros e específicos. É errôneo tratar a questão do terrorismo como mais um dos sintomas de uma sociedade doente e decadente, como parte de um padrão de violência que inclui a delinquência juvenil, taxas crescentes de crimes comuns, vandalismo ou fruto do materialismo e do individualismo que predominam na sociedade ocidental atual, refletidos em índices alarmantes de divórcio, pobreza, criminalidade e concentração de renda. O terrorismo não é parte de um problema generalizado. É um problema específico e, por assim ser, apresenta os seus próprios efeitos intrinsecamente maléficos sobre a sociedade, sobre as nações e sobre a humanidade, de forma geral, não obstante a retórica idealista e igualitária dos autodenominados movimentos de libertação nacional.

O terrorismo promove a idealização e a exaltação da violência como uma forma desejável de participação política, ancorada por uma suposta ideologia justificadora da ação. Dessa forma, a violência torna-se algo “positivo” e transformador, não apenas um meio justificável pelos fins, mas um fim em si mesmo. Assim, prega-se a destruição dos valores comunitários e a rejeição da moralidade vigente. Para que possam realizar sua missão e empreender ataques contra a população ou outros alvos, os terroristas são doutrinados –  dentro de um espectro que varia do político-ideológico ao religioso – e treinados em técnicas de desengajamento moral e de desumanização, que os levam a se julgarem diferentes do resto da humanidade e portadores de uma verdade universal. Seus integrantes são anonimizados, seus reflexos morais são anestesiados e sua natureza humana é encoberta por uma vestimenta de freedom fighter. Por meio desse desengajamento, os terroristas passam a ver as outras pessoas não como seus semelhantes, mas como entes desumanizados ou meros animais. A desumanização remove o ônus de matar pessoas inocentes e permite que a violência seja empregada indiscriminadamente contra todos que são percebidos como “inimigos”. Comumente, grupos que assumiram a autoria de atentados se referiram a suas vítimas como “porcos” ou “cães”, além de outros epítetos depreciativos, os quais não seriam dignos de qualquer compaixão humana. Outros enfatizam a continuidade de uma luta entre opressores e oprimidos e a existência de um dever religioso de combater e derrotar oponentes desumanos, em nome dos povos oprimidos e pela expansão de crenças religiosas específicas.

A consequência direta da exaltação da violência e da rejeição da moralidade é a renúncia da política, da negociação e do diálogo como meios pelos quais as comunidades resolvem conflitos. Para os terroristas, a violência não é uma arma política para ser usada em casos extremos, mas sim um substituto para todo o processo político. Em algumas situações, entrar para uma organização terrorista e dedicar-se às suas atividades se torna não só uma forma de atingir objetivos políticos ou sociais, mas também uma forma de viver, um estilo de vida causado pela incapacidade de se adaptar aos padrões de determinada comunidade e que explicita a renúncia aos valores morais da sociedade onde se está inserido, em prol de interesses particulares. Assim, ao ceifar vidas e destruir propriedades, os terroristas objetivam desconstruir as instituições estatais democráticas ou pseudodemocráticas, abalando a fé dos cidadãos em seu governo e provocando repressão policial ou militar, as quais, se não bem direcionadas, podem minar a estrutura político-social, transformando democracias em estados militarizados em permanente prontidão.

[i] Global Terrorism Index 2014.

[ii] Degaut, Marcos (2014). O desafio global do terrorismo: política e segurança internacional em tempos de instabilidade, CSI Publishing.

[iii] Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM), al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), al-Qaeda na Somália (Al-Shabaab), al-Qaeda na Síria (Frente al-Nusra) e a al-Qaeda no Subcontinente Indiano (AQIS).

Marcos Degaut – Professor Adjunto na University of Central Florida, Ph.D. em Security Studies (marcosdegaut@knights.ucf.edu)

1 Comentário em Paris 13/11: comportamento estratégico do terrorrismo internacional?, por Marcos Degaut