Rússia no Oriente Médio – no caminho de novo equilíbrio, por Virgílio Arraes

Mesmos contrários ao ingresso dos russos no conflito sírio, os norte-americanos não se animam a iniciar uma terceira investida na região médio-oriental. Se ocorresse, o propósito seria a de pôr a termo a guerra, desde que se encerrasse a ditadura quase cinquentenária da família al-Assad. Todavia, desestimulam-nos o eventual custo econômico e humano.

Em decorrência da importância dos desdobramentos dessa confrontação naquela área, o Pentágono não pôde abster-se de maneira total. Deste modo, ele enviou até o momento meia centena de efetivos, outrora denominados de consultores, com o objetivo de treinar de forma mais intensa a guerrilha antigovernista.

A finalidade é auxiliar os curdos daquele rincão, ainda que organizados sob divisa esquerdista e apoiados também pela Rússia, e desconsiderar o desagrado da Turquia, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com a medida. Washington e Moscou consideram-nos uma das barreiras mais eficientes contra os combatentes do Estado Islâmico (EI).

Ao mesmo tempo, a influência turca reduz-se e há a possibilidade de que se diminuam os fluxos de refugiados, caso se estabeleça um marco firme contra o avanço integrista. A par da questão humanitária, a preocupação russa relaciona-se com o tráfico de armas em meio a movimentações dos opositores à ditadura síria, confundidos sem dificuldades com refugiados.

No dia a dia, com o controle fronteiriço menos rígido, ter-se-ia ampliada a circulação de armamentos, com grupos de contrabandistas com capacidade de levá-las a outros locais do Oriente Médio ou até do Cáucaso.

O descontentamento de Istambul com o apoio das duas grandes potências deve-se ao fato de avaliar a existência de vínculos bem próximos entre os membros da etnia, malgrado a separação territorial. Desde a década de 70, ela tem sido rigorosa com toda movimentação de secessão no país ou de integração curda.

No entanto, nem a diminuição da presença militar estadunidense no Iraque, Afeganistão e por que não Síria reduz o desgaste político perante a sociedade internacional. O abatimento não impossibilita a interrupção das manobras norte-americanas no Oriente Médio e cercanias.

Em seu próprio solo, a corrosão é menor por duas razões: o alistamento não é obrigatório há muitos anos e o número de mortos nas duas confrontações do presente século não se equipara de maneira alguma aos da época do Vietnã. Assim, as participações bélicas não compõem mais o centro do cotidiano da classe média.

Destarte, o descuidado ataque aéreo de três de outubro último a um hospital afegão administrado pela respeitada organização não governamental Médicos sem Fronteiras (MSF), detentora do prêmio Nobel da Paz de 1999, é o exemplo recente da incúria dos Estados Unidos aos olhos da opinião pública global.

Na ação, registraram-se mais de vinte mortes, entre as quais as de três crianças, e dezenas de feridos. A justificativa de que guerrilheiros talibãs supostamente se encontravam lá no momento do bombardeio não alterou o impacto negativo do acontecimento, até por isto ter sido negado de forma perempta pela entidade.

Outro motivo utilizado para a desabonadora incursão foi o de que teria sido de modo lamentável ‘dano colateral’, porém Washington possivelmente detém as coordenadas de localização dos maiores hospitais e escolas afegãs.

Diante disso, inquietam-se historiadores e politicólogos em compreender a fundamentação do ataque ocorrido a passo precipitado. Não se trataria de uma ‘grande tragédia’, mas de um possível crime de guerra, a ser investigado de forma independente. Ele se soma a muitos outros, praticados pelos dois lados desde 2002.

Com a gradativa redução de tropas no eixo iraquiano-afegão, Washington tem valorizado as investidas através do emprego constante de jatos e de veículos aéreos não tripulados (vantes), ao estendê-las à Líbia, Síria, Iêmen, onde houve o bombardeio com mais de uma centena de mortes em um casamento em setembro, e até Paquistão, seu aliado.

Sem contingentes na quantidade adequada, a Casa Branca acostumou-se a subsidiar o treinamento de tropas locais. No entanto, o resultado dificilmente a satisfaz, dado que não é incomum a passagem de soldados ou policiais para o lado adversário – no caso afegão, o Talibã voltou a crescer por todo o país. Na prática, Washington patrocinaria, mesmo de modo involuntário, a formação de muitos de seus inimigos.

Destarte, dezenas de bilhões de dólares teriam sido destinados de modo baldado aos dois países desde o começo dos conflitos na forma de armamentos – onde se aproveita o efeito propagandístico para vendas por todo o globo – e de adestramento.

No alvorecer das ocupações, esta opção era aplicada de maneira paralela ao envio dos próprios combatentes. Em ambos os territórios, o número ultrapassou os seis dígitos. Entrementes, o êxito foi apenas inicial.

Este não é um modelo inédito. Durante a Guerra Fria, após o fracasso vietnamita, esta alternativa foi aplicada em Angola e Moçambique. Nas lutas pela independência contra Portugal, as forças nacionalistas dividiam-se nos dois espectros políticos. A fim de que prevalecesse o de direita, a Casa Branca enviava armas e disponibilizava assessoria militar.

A inovação norte-americana residiria na fixação de edificar, após a derrubada das ditaduras, novas sociedades, sob o parâmetro idealizado da democracia neoliberal. Nenhum dos dois casos registrou sucesso. No Afeganistão, a fragmentação política compunha a rotina administrativa, antes da chegada dos Estados Unidos, mas não no Iraque e na Síria.

O ingresso russo no conflito visa a provocar o estabelecimento de um acordo político nos próximos meses. Com Moscou em cena, Damasco adquire sobrevida e obriga Washington, Riade e Istambul a avaliar a opção castrense, através da intensa ajuda a facções rebeldes. Parte dela observa a chegada da Rússia à peleja como mais uma cruzada no novo milênio, a terceira, ao valorizar a distinção religiosa.

Por outro, mencione-se a presença de Teerã em território sírio em apoio ao atual regime. Com a baixa da cotação do petróleo, reiterar a alternativa bélica é consolidar uma segunda área instável na região médio-oriental e intensificar questões econômicas em seus próprios países.

Por fim, o Kremlin sustenta o governo baatista com o objetivo de manter a pequena base naval de Tartus, concedida a ele em 1971, e de impedir o acesso permanente dos extremistas ao Mediterrâneo – com vistas a isto, a União Européia não se opõe.

A derrocada da atual ditadura de al-Assad poderia significar a ampliação dos problemas russos, em decorrência de um esperado apoio aos insurgentes da Chechênia a partir da Síria por causa da proximidade ideológica.

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da UnB (arraes@unb.br).

 

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