Estados Unidos e Rússia no Oriente Médio, por Virgílio Arraes

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Há alguns dias, parte dos analistas preocupou-se com recente medida da Rússia: a de operar militarmente na convulsionada Síria, sob o intuito de contribuir para a contenção do denominado Estado Islâmico.

As más lembranças das quase duas décadas de ocupação do Afeganistão ainda reverberam nas mentes da elite política e militar. Lá, o desgaste dos efetivos terrestres foi enorme, de modo que o uso de helicópteros adquiriu maior peso nas operações até a entrega de inúmeras armas antiaéreas de porte menor – os afamados stingers – aos guerrilheiros pela burocracia estadunidense.

Assim, o deslocamento de tropas para território sírio poderá nem ocorrer nos primeiros meses do envolvimento, por causa do receio dos prováveis efeitos negativos à população diante das primeiras mortes comunicadas pelos noticiários.

Aos olhos da opinião pública ocidental, não há consenso sobre o ingresso russo em tão distante contenda. A participação de Moscou seria um gesto de aproximação do enigmático presidente Vladimir Putin à Europa e por que não aos Estados Unidos no esforço de interromper a marcha fundamentalista em terras médio-orientais.

Todavia, avaliam uns não haver na decisão desprendimento ou nem sequer almejo de cooperação com norte-americanos e europeus. O Kremlin apontaria para assegurar uma base firme no estratégico Oriente Médio, objeto de cobiça desde o período da rivalidade bipolar; desta vez, em virtude do extremo abatimento do governo de Bashar al-Assad, depois de meia década de conflito civil, a Rússia teria finalmente boas chances de êxito.

No transcorrer da Guerra Fria, recorde-se que os soviéticos tentaram de maneira baldada acertar-se com os sírios, liderados pelo pai do atual presidente, com o propósito de competir com a presença dos países do arco norte-atlântico naquela área. Damasco atraía a atenção de Moscou em troca de armamentos de última geração.

Entre opositores mais ferrenhos do regime moscovita, espera-se com a entrada do país na confrontação até o descortinar de um gradual desgaste de Putin, movido por uma política externa bonapartista incapaz de ser sustentada por muito tempo.

O pasmo do espectro russo não se aplica na mesma intensidade ao norte-americano. Presente na região de forma efetiva desde a transição do encerramento da rivalidade amero-soviética, quando da I Guerra do Golfo, Washington acostumou-se a transitar sem muito embaraço na maior parte daquele torrão, mesmo sem aprovação de todos os governos, como no caso de Teerã.

Uma possível diferença para considerar-se adequada ou não a eventual circulação das duas grandes potências em terras médio-orientais nos dias de hoje seria a finalidade. Porta-voz da democracia neoliberal, a Casa Branca esforça-se para a implementação do ideário, até por ser ela mesma a maior beneficiária, ao passo que o Kremlin tem mais dificuldade de apresentar-se como o representante de um projeto de aplicação também supostamente universal.

O ponto de origem da doutrina norte-americana localiza-se em John Locke, amparado no direito de propriedade e no governo limitado. Os dois conectados, por sua vez, com a preocupação de se prover o bem estar da população e a eficiência na economia.

Nenhuma das duas sociedades acostumou-se desde a metade do século vinte a privilegiar a negociação, isto é, a utilização do poder de convencimento. Ambas se valem, se necessário julgarem, de seu robusto sistema de coerção, estruturado para a satisfação mais imediata de determinados interesses como a substituição de um dirigente ou mesmo de um regime ou a garantia de acesso a uma matéria-prima de alto valor como petróleo ou gás.

A consecução para a Rússia ou para os Estados Unidos não depende da disponibilidade de recursos materiais das forças armadas, ao menos no curto prazo, porém da disposição de outras potências como China ou Grã-Bretanha de aceitar determinados interesses de um ou de outro.

Acrescente-se que a esfera de ação dos russos é sem sombra de dúvida bem menor que a dos estadunidenses, o que implica dobrada atenção para a postura adotada pelo Kremlin nos últimos dias com vistas à Síria.

Os Estados Unidos assinalam o estabelecimento de um mercado mundial com consumo convergente e com plena desenvoltura para a circulação do capital como o alvo a ser atingido de modo prioritário.

Em toda nova ordem mundial moldada em um pós-guerra tem sido este o posicionamento da Casa Branca, a despeito da agremiação partidária: ora são os democratas como Wilson, Roosevelt-Truman e Clinton; ora, os republicanos como Reagan e os Bushes.

Com o mais novo desta família no poder a partir de janeiro de 2001, parecia ser o processo de abertura dos mercados inexorável, haja vista o peso dos neoconservadores na formulação da política externa.

 No entanto, atravancos de toda a sorte irromperam, sendo o mais turbulento deles, o econômico do final de 2008 tendo por ponto de partida os Estados Unidos. Até o momento, ele tem sido o mais extenso e, por conseguinte, o de maior dificuldade de superação. Para tanto, basta mencionar a situação de fragilidade do Brasil e da Argentina ou de países mais organizados tais quais Portugal, Espanha e Grécia.

Nem se pode adicionar com entusiasmo um exemplo ou outro de resistência ideológica, em que pese o impacto geográfico como foi o chavismo na Venezuela, motorizado pela petrodiplomacia, na América do Sul e no Caribe, ou o efêmero jospinismo na França, impulsionado pela reforma trabalhista, na Europa Ocidental. Todos eles foram de reduzida duração.

No tocante a aspectos militares e mesmo políticos, as adversidades manifestaram-se no Afeganistão e no Iraque para os norte-americanos; na Chechênia, a situação foi similar, mas com impacto desta vez para os russos.

Pode-se argumentar que os custos materiais têm sido bastante elevados, mas os humanos, não, de sorte que governos não desanimam nas suas investidas castrenses. Em uma década de conflito no Vietnã, estimam-se de maneira aproximada sessenta mil mortes, das quais pelo menos dois terços em combate; no segundo confronto no Iraque, em período pouco mais extenso, menos de cinco mil faleceram, a despeito da letalidade maior dos armamentos.

Infelizmente, nenhum dos dois governos dispõe de mensagens alvissareiras para a convulsionada região. O discurso anti-imperialista esgotou-se na disputa anterior, a da rivalidade bipolar, com a saída oficial dos europeus, ou melhor, dos franceses e de forma posterior dos britânicos. Na I Guerra do Golfo, os norte-americanos ainda puderam de modo indireto beneficiar-se disso, ao atrelar a ditadura do Iraque à anexação do Coveite.

Outrossim, a democracia advogada por Washington, após o relativo fracasso de sua implementação no Afeganistão e no Iraque, não estimula a arregimentação de novos seguidores, nem encoraja a admiração dos já aderentes a ela.

Hoje, já não é possível vincular a eliminação do resistente governo da Síria a uma disfunção meramente temporal, mesmo evocada a necessidade de renovação do poder local, ao se registrar a preservação da família al-Assad há mais de quatro décadas – ressalte-se que a costumeira fundamentação ideológica do regime, o baathismo, não é sequer mais citada nas eventuais considerações de troca de governantes.

Com a persistência das consequências do baque de 2008, não se descortina também a possibilidade de oferecer aos países do Oriente Médio seu ‘Plano Marshall’, ainda que de modo escalonado.

Portanto, a necessária estabilidade da região, caso venha a se materializar, possivelmente advirá da utilização da força, porém isto não seria de maneira alguma uma animadora perspectiva no longo prazo.

Virgílio Arraes, historiador das relações internacionais, é professor do Departamento de História da UnB (arraes@unb.br)

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