A cooperação técnica do Brasil com a África – uma entrevista com Wilson Mendonça Júnior, por Daniel Costa Gomes

pesar dos seculares laços histórico-culturais que unem Brasil e África, os vínculos institucionais são bastante recentes. Na estrutura do Itamaraty, a primeira Divisão (sub-unidade de um Departamento) específica ao continente africano foi criada apenas em 1961. Nesse ano, igualmente, ocorreu a primeira visita de um Chanceler brasileiro à África. Demorariam mais 22 anos para que ocorresse a primeira visita de um presidente brasileiro àquele continente, em 1983. A partir de então, as relações Brasil-África tornaram-se mais intensas, como demonstram a realização da I Cúpula dos Países de Língua Portuguesa, em 1989, e a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em 1996, e da Cúpula América do Sul – África, em 2006. A despeito dessa intensificação, no entanto, as relações Brasil – África têm se caracterizado por ciclos de expansão e retração. Esses ciclos estão espelhados nas variações na corrente de comércio e no número de representações diplomáticas.

Dois dos movimentos mais recentes desses ciclos são analisadas na mais recente edição da Revista Brasileira de Relações Internacionais. Os professores Wilson Mendonça Júnior e Carlos Aurélio Pimenta de Faria, autores do artigo A cooperação técnica do Brasil com a África: comparando os governos Fernando Henrique Cardoso (1995–2002) e Lula da Silva (2003–2010), concederam entrevista a Daniel Costa Gomes, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e membro da equipe editorial da RBPI.

1) No artigo, parece haver uma crítica ao modelo atual da pesquisa em política externa brasileira. Você poderia falar mais sobre “a necessidade de superar a tradição ensaística e normativa”?

Wilson Mendonça Júnior: na verdade, a tradição “ensaística e normativa” já dá lugar, em grande parte, a pesquisas com maior lastro empírico, o que pode ser considerado o modelo atual de pesquisa em política externa brasileira. Este fato justifica a relativa superação do predomínio de temas mais descritivos de História da Política Externa, nas pesquisas de política externa brasileira, por trabalhos mais analíticos e empíricos, tornando o campo mais dinâmico e crível.

2) Você aponta que um dos exemplos da atitude “idealista-solidária” do Brasil para a África foi o perdão de dívidas. Há quem diga, no entanto, que esse perdão era necessário para que o BNDES financiasse empresas brasileiras nesses países em débito. O que você tem a dizer sobre isso?

Wilson Mendonça Júnior: Não se deve, conforme defendemos no artigo, analisar a vertente “idealista-solidária” de maneira isolada, ou seja, a Política Africana de Lula da Silva se ancora, simultaneamente, na dialética Idealismo-Pragmatismo No caso do Bndes, entendemos que o perdão da dívida se encaixa na vertente idealista, e o financiamento de empresas brasileiras se traduz no resultado pragmático desta estratégia de estreitamento de relações.

Leia o artigo em: MENDONCA JUNIOR, Wilson; FARIA, Carlos Aurélio Pimenta de. A cooperação técnica do Brasil com a África: comparando os governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Lula da Silva (2003-2010). Rev. bras. polít. int.,  Brasília ,  v. 58, n. 1, p. 5-22, June  2015 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292015000100005&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Sept.  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201500101.

Contato: 

Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC-MG), Belo Horizonte, MG, Brasil (wilson.mendonca@ibmecmg.br).

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