Tempo de reflexão sobre o 11/09, por Thiago Gehre

Os ataques que sacudiram os Estados Unidos em 2001 marcaram as relações internacionais em três dimensões: a individual, ao gerar traumas e ressentimentos nas pessoas diretamente envolvidas com o acontecimento; a estatal, ao afetar a história dos EUA e modificar a trajetória política e econômica que vinha se desenhando anteriormente; e a sistêmica, pelo impacto que teve na história global, ao afetar construção de alianças, distribuição do poder, reposicionamento do lugar de potências tradicionais, bem como trouxe luz à dispersão do poder e atuação de agentes não estatais.

As relações internacionais após o 11 de setembro foram marcadas por diversos conflitos localizados e crises humanitárias que afetaram princípios e práticas atreladas à democracia, ao liberalismo e ao humanismo. O frágil equilíbrio entre segurança e liberdades civis foi quebrado por uma tendência à supervigilância e controle absoluto das informações pelas instituições. Outrossim, os problemas ligados aos traumas e ressentimentos parecem ter sido esquecidos, gerando uma ilusão de que aquele momento se congelou.

Por exemplo, no início do século 21, as ameaças à segurança internacional constituíam-se no Talibã, como organização política sectária, que atentava contra os direitos e a vida das comunidades afegãs; mas sobretudo a Al-Qaeda, rede terrorista que se desenvolveu com a expansão do jihadismo como força transnacional, a radicalização das posições religiosas e a organização política de uma geração de seguidores liderados por Osama bin Laden em sua empreitada antiocidental (GERGES 2011, 29-32)

Os termos fundamentalismo e extremismo islâmico criaram caricaturas, imagens distorcidas da realidade, mas que permaneceram informando as políticas exteriores das potências ocidentais engajadas em uma guerra contra o terror.

Entretanto, os ventos da mudança sopraram com força e rapidez. Do norte da África ao Oriente Médio manifestações populares em vários países sacudiram o contexto social e político e ainda que não significaram mudanças profundas, sinalizaram para as demandas sociais represadas por melhorias na qualidade de vida de suas populações. O contexto de fragmentação do Iraque, aprofundado após a retirada de tropas da “coalização da vontade”, evidenciou o desígnio estratégico dos EUA na região em termos de sua segurança energética. O Afeganistão tornou-se laboratório para as experiências com a “paz democrática” norte-americana e o Irã voltou a ser importante ator regional ao atrair atenção dos grandes poderes para a conclusão de um acordo nuclear.

O Talibã foi neutralizado e a Al-Qaeda foi desmantelada na medida em que suas lideranças iam silenciosamente sendo abatidas, amarando de glória o enredo de caçada a Osama Bin Laden com uma narrativa de sucesso das tão contestadas operações encobertas dos EUA na região, e que marcaram filmes como “Guerra ao Terror”, “A hora mais Escura” e “Rede de Mentiras”.

A ação liderada pelos Estados Unidos resultou em mortes de militares e civis, cerceamento de liberdades e desrespeito às populações locais (invasões de domicílios, prisões aleatórias e assassinatos). A exacerbação da prática da tortura seguiu o desenho  de unidades prisionais dedicadas a centralizar a extração de informações relevantes à guerra ao terror, utilizando-se da metodologia da “bomba relógio” (ticking time bomb) que justifica o dano (físico e psicológico) ao individuo para garantir que um mal maior, como um atentado de grandes proporções, não venha a ocorrer (ALLHOFF 2012, 88).

Em contrapartida, o escrutínio da opinião pública internacional, a atuação das organizações internações não governamentais dedicadas à proteção dos direitos humanos e à pressão de alguns países influenciaram Washington na revisão de sua rígida posição. Em um contexto de recuperação econômica, Barack Obama aproveitou para restabelecer laços diplomáticos com Cuba, arrefecer as pressões sobre o governo Castro e vislumbrar o fechamento de Guantanamo, ao mesmo tempo em que desmobiliza outras prisões similares ao redor do globo.

O novo é sempre ameaçador. A ascensão do Estado Islâmico (EI) foi catalizada pela desestruturação do Iraque, o conflito na Síria, a capacidade de formação de uma aliança entre vários grupos sunitas radicalizados.  Sua propensão a lutar pelo estabelecimento de um califado islâmico unificado seria um objetivo muitas vezes concebido como utópico ou simples retórica (COCKBURN 2015, 47-54).

Antes as decisões dos terroristas, como os que perpetraram os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, se explicavam pela crença no Corão e na vontade divina de Alá, ainda que parcialmente. Depois, o fundamentalismo ganhou contornos de radicalismo sádico-político com a emergência de organizações como Boko Haram, responsável pelo sequestro e violação de meninas na Nigéria, e o Estado Islâmico, capaz de barbarizar o mundo ao transmitir, via mídias sociais, cruéis execuções de reféns estrangeiros.

O tipo desviante de legitimidade de grupos como esses vale-se do medo e da violência, aplicando punições cruéis a todos aqueles que desobedecerem os líderes do movimento religioso naquela localidade (situação retratada no filme Timbuktu sobre cidade tombada pela UNESCO no norte do Mali).

Esse olhar sobre a ordem internacional em cristalização levantou preocupações quanto ao poder explicativo das Teorias de Relações Internacionais e espelhou o debate pós-Guerra Fria, sobre limites e alcances epistemológicos e metodológicos das RI.

Buzan (2001, 255) se adiantou em afirmar que “Nenhuma das principais perspectivas teóricas de relações internacionais foi fatalmente, ou mesmo significativamente, desafiada pelo 11 de setembro.” Nada obstante, o flanco estava aberto quanto ao impacto do evento em redirecionar não só a agenda da política internacional, como canalizar os estudos em relações internacionais pelo recrudescimento de um realismo motivacional e ofensivo e por um viés da securitização (COLLINS 2012).

A eclosão da crise de refugiados na Europa dá o tom de como questões humanitárias estão sendo securitizadas, retirando-se o foco da essência do problema que deveria ser garantir atenção especial e condições dignas de vida ao migrante.

Em suma, a evolução da sociedade global esbarra em desafios constituídos na era pós-11 de setembro. As guerras com componente religioso, a intolerância e a violência associadas à fragmentação de Estados seguem dobrando as normas internacionais até um ponto insustentável. Algumas delas já quebraram e outras parecem no limiar para esvanecerem. A construção da paz é, portanto, fruto tanto de nossa capacidade de imaginar (teorizar) algo diferente e adequado para esta ordem internacional de hoje, como de trabalhar para o estabelecimento de normas adequadas para lidar com os novos desafios.

REFERENCIA

ALLHOFF, fritz. Terrorism, ticking time-bombs, and torture : a philosophical analysis. The University of Chicago Press, 2012.

BUZAN Barry. As Implicações do 11 de Setembro para o Estudo das Relações Internacionais. Contexto Internacional, vol 24, n 2, 2002

COCKBURN, Patrick. The rise of Islamic State: ISIS and the new suni revolution. London: Verso, 2015.

COLLINS, Alan. Contemporary Security Studies. 2nd edition. Oxford: Oxford University Press, 2012.

GERGES, Fawaz A. The rise and fall of Al-Qaeda. Oxford: Oxford University Press, 2011.

Thiago Gehre é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília

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