Os Estados Unidos diante da independência no Brasil, por Virgílio Arraes

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Os primeiros anos de viver republicano no Brasil do final do século dezenove foram bastante turbulentos, haja vista a dificuldade de se estabelecer a acomodação de poder entre as elites locais no tocante a duas questões de monta:

O grau de federalismo, ou seja, da relativa vontade de descentralização de segmentos paulistas e mineiros, sem desconsiderar o radicalismo de maior autonomia às províncias defendido por representantes gaúchos, até a concentração do poder conforme pretendido pelos positivistas, em cuja órbita figuravam mais militares, especialmente os cariocas;

O perfil agroexportador, isto é, do revigorante regime do café espraiado no Sudeste ao do combalido açúcar do Nordeste, concentrado em Pernambuco e Alagoas, sem descurar da borracha do Norte – Pará e Amazonas.

Com o golpe militar de 15 de novembro de 1889 consumado sem resistência significativa, a modorra do período monárquico desaguaria em inesperada agitação cotidiana menos por ideologia ou idealismo, mais por incompetência política ou inapetência administrativa nos momentos iniciais de ‘republicanização’ do Brasil.

Como exemplo, poder-se-ia mencionar o denominado Encilhamento, causado por formulação insipiente do ministério da Fazenda, cujo resultado, após intensa especulação na bolsa de valores da capital e emissão de moeda sem lastro, foi a falência de inúmeros empreendimentos e a desvalorização da moeda nacional em face da libra britânica, calcada esta no padrão-ouro adotado por todo o mundo desenvolvido, a despeito de haver longo um período de recessão mundial (a Grande Depressão, 1873-1896).

Não era, portanto, uma fase alvissareira ao país, malgrado o entusiasmo inicial no Rio de Janeiro e em São Paulo, de maneira que os saudosistas da monarquia viriam à torna de modo muito precoce. Um deles seria Eduardo da Silva Prado, membro do patriciado cafeeiro paulista, representado por duas obras de impacto naquela época: Fastos da Ditadura Militar no Brasil, coletânea publicada em 1890, e A Ilusão Americana, de 1893.

Bacharel em direito, dedicou-se de início ao jornalismo. Após breve passagem pela vida diplomática em Londres, fixou residência em Paris onde desfrutava de vida social fastuosa. De tempos em tempos, vinha o Brasil, onde  se hospedava na capital paulista ou em Santa Cruz das Palmeiras, local em que escreveria a acerba crítica ao regime republicano, ao incluir o desmedido deslumbramento com a aproximação com os Estados Unidos em detrimento da tradicional parceria com a Grã-Bretanha.

Na parte inicial de A Ilusão Americana, o autor bem observa que a emancipação política obtida pelas sociedades ibero-americanas devia-se basicamente a Londres: “a independência das nações latinas da América em nada foi protegida pelos Estados Unidos” – p.15.

Mais adiante, aborda ele o desinteresse de Washington com vistas a um relacionamento mais próximo com os novos países do continente, ao ponto de até embaraçar a recepção de representantes consulares daquelas sociedades.

Concernente ao Brasil do final do século dezoito e do começo do dezenove, ele recorda as dificuldades de obtenção de apoio à causa republicana, ao aludir eventos conectados com a movimentação de 1789 em Minas Gerais bem como a de 1817 em Pernambuco ou de consecução ao próprio autogoverno em setembro de 1822: “(…) não recebemos prova alguma de boa vontade por parte dos americanos e só depois que outros países reconheceram a emancipação do
Brasil é que os Estados Unidos reconheceram a nossa autonomia” – p.23.

Nesse sentido, as considerações do empedernido monarquista embasavam-se na legislação estadunidense, em especial na Lei de Neutralidade de 1818, favorável à Espanha e naturalmente no futuro a Portugal.

Quanto a Minas Gerais, a iniciativa partiu de José Joaquim da Maia e Barbalho, estudante universitário com passagem por Coimbra e Montpellier, de acordo com as fontes. De forma reservada, ao valer-se mesmo de pseudônimo, Vendek, ele dirigiu-se em outubro de 1786 a Thomas Jefferson, ministro plenipotenciário junto à França, com a solicitação de se estabelecer um ambiente mais reservado de comunicação. Em maio do ano seguinte, encontrar-se-iam pessoalmente em Nimes para confabular sobre política.

Posteriormente, Jefferson endereçaria ao Congresso Continental notícia na qual descrevia ser a revolução norte-americana inspiração para os jovens emancipacionistas luso-brasileiros e, por conseguinte, teriam eles a expectativa de apoio sincero do país em seu projeto, em decorrência do desejo de implementar a república. Todavia, não quis o então diplomata comprometer-se com o eventual movimento, ao alegar não ter a autoridade necessária para subscrever apoio oficial a ele.

Embora tenha demonstrado interesse de fato, uma vez que chegou a relatar a situação da colônia ao Secretário de Estado, John Jay, não conseguiu ele sensibilizar seus compatriotas, ainda que registrasse que a vitória da revolução brasileira ensejaria a simpatia pela proximidade ideológica, mas sem dúvida por outra perspectiva também, a de novos negócios – a abertura dos portos, por exemplo, propiciaria isso. Ao fim da vida, ele lamentaria a permanência de México e Brasil como impérios.

Com vistas a Pernambuco, o relacionamento foi mais próximo, ao se considerar a fase da execução da ruptura colonial. Os revolucionários nordestinos enviaram aos Estados Unidos em abril de 1817a chamada Missão Cabugá, nome posto em virtude do apelido de infância do comerciante  Antônio Gonçalves da Cruz.

Por meio dela, ansiava o governo provisório mercadejar com aquele distante país através da aquisição de mantimentos, armamentos e munições, de sorte que se firmasse o ponto de partida para uma relação mais duradoura, mesmo sem ser de início de modo oficial.

Se possível, o enviado especial deveria obter uma audiência com o titular do Departamento de Estado, com o objetivo de apresentar a nova administração, avistar-se com veteranos franceses das guerras napoleônicas, a fim de recrutá-los para compor as forças armadas pernambucanas, e espiar o abade Correia da Serra, representante de Portugal em solo norte-americano, com a intenção de anular a imagem negativa traçada por ele onde circulasse.

Esta visão realista derivava da postura mantida pela Casa Branca, isto é, a de não reconhecer a independência dos países hispano-americanos, como o próprio Prado, p.17, registraria – isto somente ocorreria em 1823. Assim, havia a necessidade entre os insurretos de dissociar o reconhecimento diplomático, passível de espera, da sobrevivência econômica e militar, de impacto imediato.

A missão teve êxito, ao lograr a permissão a navios de Pernambuco, mesmo militares, para estada nos portos americanos e autorização para a aquisição de armamentos. Todavia, a brevidade da Insurreição de 1817 não possibilitou a materialização da proximidade recém-efetuada.

Referências

Livros
COGGIOLA, Osvaldo. As grandes depressões. São Paulo: Alameda, 2009;
FAUSTO, Bóris. História do Brasil. 12 ed. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006;
LOPEZ, Adriana, MOTA, Carlos Guilherme. História do Brasil. Uma interpretação. São Paulo: Senac, 2008;
PRADO, Eduardo. A ilusão americana. São Paulo: Brasiliense, 1961
Artigos
CABRAL, Flávio José. ‘Highly Important! Revolution in Brazil’: a divulgação da república de Pernambuco nos Estados Unidos. Clio, Recife, v.33, n.1, jan./jul. 2015;
MAXWELL, Kenneth. Conjuração mineira: novos aspectos. Estudos Avançados, São Paulo, v.3, n.6, ago.1989;
Sítios
http://international.loc.gov/intldl/brhtml/br-1/br-1-4-8.html. Acesso em: 29 ago 2015;
 http://founders.archives.gov/documents/Madison/04-01-02-0045. Acesso em: 29 ago 2015.

Virgílio Caixeta Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br)

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