O Brasil em tempos de independência, por Thiago Gehre Galvão

A história das relações internacionais do Brasil como nação independente remonta aos processos envolvidos na constituição de uma nova ordem internacional com o Congresso de Viena de 1815 e, especialmente, às transformações na estrutura do sistema colonial americano.

Em tempos de independência do Brasil, vale uma pausa para reflexão sobre os tipos de laços primordiais estabelecidos com as grandes potências da época e com os vizinhos que nos cercavam. Além disso, chama atenção a perpetuação de uma herança compartilhada, que foi gestada pela primeira geração de contatos bilaterais ainda no século 19, mas que continua marcando a imagem de toda uma região do planeta.

A gestação do modo de vida bilateral do Brasil com as grandes potências foi em sua essência dependente, induzida e reativa. Como parte do antigo sistema colonial criaram-se os laços de dependência estrutural que perpetuaram o caráter coadjuvante do país durante a evolução do sistema mundo capitalista.

A inserção do Brasil foi promovida de fora para dentro, ou seja, o sistema internacional e a política de poder entre os grandes da Europa inseriram o Brasil em suas relações internacionais. Quando da independência, em sete de setembro de 1822, o país tinha capacidades apenas para reagir aos fenômenos e acontecimentos internacionais. E mesmo quando recobrou autonomia no seu desenvolvimento nas décadas seguintes, carregou a marca da reatividade em sua diplomacia.

O contexto internacional, que incidiu sobre a construção do Estado e da nacionalidade do Brasil, teve relação direta com a formação histórica dos países da América do Sul, em seus aspectos políticos, econômicos e sociais, bem como derivou do embate entre as diferentes forças conservadoras ou liberais, revolucionárias ou reacionárias que juntas criaram as raízes ideacionais da identidade internacional do Brasil e da região.

Desde 1808, com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, as autoridades locais nos diferentes rincões sul-americanos passaram a desenvolver percepções sobre a grandeza brasileira. Sob a regência de Dom João VI, o Brasil já era considerado um país de “mucha gravitación” no sistema interamericano de relações que emergia do contexto revolucionário e que preocupava pela sua capacidade de impor presença e de ameaçar as transformações que já estavam em curso na América do Sul.

A política exterior, ainda de matiz vestigial entre 1822 e 1831, ocupou-se não apenas do reconhecimento internacional, como dos primeiros contatos com a vizinhança. A preocupação central era desconstruir essa imagem de gigantismo e ameaça que há algumas décadas vinha se formando no contexto político regional. A germinação das relações entre o Brasil e seus vizinhos demandou, portanto, uma carga enorme de energia diplomática que se consubstanciou em importantes missões, tais como a de Miguel Maria Lisboa e Felipe Pereira Leal à Venezuela, Duarte da Ponte Ribeiro às repúblicas do Pacífico e Pimenta Bueno ao Paraguai.

A independência do Brasil foi, na verdade, um processo histórico complexo em suas origens que conectou o país a uma região, América do Sul, e aos países que a conformam. A partir daí, o entrelaçamento bilateral e multilateral entre o Brasil e os países sul-americanos ganhou vida em projetos balizados pelos sentimentos de vizinhança e solidariedade, restando o desafio de afirmar a independência na interdependência complexa das relações internacionais.

Thiago Gehre Galvão é Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor-adjunto do Instituto de Relações Internacionais da UnB

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