Stalin, Mao e a questão nuclear, Por Fernando Horta

No dia 16 de junho de 1945, há pouco mais de 70 anos, os norte-americanos testavam pela primeira vez um dispositivo nuclear em Los Alamos, no Novo México. A denominada “Experiência Trinity” foi um teste com uma bomba de plutônio cuja energia era o equivalente a 20 mil toneladas de TNT. Menos de um mês depois, em 06 e 08 de agosto, Henry Truman autorizava o uso de duas bombas em solo japonês. O alvo foram cidades sem significação militar. Os alvos foram civis.

Desde então, todas as análises e entendimentos sobre a Guerra Fria levaram em conta a questão nuclear. Joseph Nye, por exemplo, afirma que “somos a primeira geração desde o gênesis a ter o poder de acabar com toda a criação de Deus” (NYE, 2009, p. 175). Grosso modo, os pesquisadores se dividem entre os “alarmistas” (GAVIN, 2009/2010) que entendem ser a questão nuclear definidora na política internacional (mesmo atualmente) (LIEBER e PRESS, 2006, p. 2) e os “pacifistas” que acreditam que as armas nucleares possuem um custo de uso (social, ético, político, histórico etc.) muito alto o que as torna impossíveis de serem usadas (GILL, 2009). Em que pese o número de “alarmistas” ser realmente grande as evidências empíricas estão, entretanto, contra eles.

A Teoria

A Guerra Fria como um dilema de segurança foi o tema de um conhecido estudo de Robert Jervis (JERVIS, 2001). Jervis concluiu que, em realidade, muito pouco o dilema de segurança estritamente conseguia explicar de todo o fenômeno (JERVIS, 2001, p. 58). De fato, toda a construção teórica que estabelecia a Guerra Fria como um “longo período de paz”, cuja derivação primária era o termo “Fria”, explicitando uma guerra que não aconteceu de fato, vem sendo constantemente substituído por uma visão mais geral do período em que sequer a afirmação de que não houve guerra é mais aceita. O corolário do entendimento da Guerra Fria como um período de paz era o termo “equilíbrio do terror” (NYE, 2009, p. 178) que juntava uma valoração “alarmista” sobre as questões nucleares com o entendimento realista de que houvera um “equilíbrio de forças” durante a Guerra Fria. Waltz vai ainda mais longe nesse tópico e sugere que todo e qualquer país deveria possuir armas nucleares, dado que a “capacidade dissuasória” deste tipo de armamento tornaria os conflitos entre os países virtualmente impossíveis (WALTZ, 1981). Assim, Waltz capitaneava os que defendiam que o “equilíbrio da guerra fria” fora construído pelo medo das armas nucleares e pensava em alargar esta situação de stasis para todo o cenário internacional (WALTZ, 1990, p. 740).

Se as armas nucleares são, para Nye, a razão do equilíbrio do sistema internacional durante a Guerra Fria, curiosamente não são as mesmas armas nucleares que transformam Estados dentro do sistema anárquico na condição de polos do sistema bipolar. Enquanto Morgenthau colocava na posse do material nuclear a verdadeira condição de diferenciação em polos do “novo sistema bipolar” (Guerra Fria) (MORGENTHAU, 2003, p. 235), Waltz vai afirmar que o artefato nuclear não é mais do que uma mera capacidade de que alguns Estados lançam mão, de tal sorte que, desde o início da Guerra Fria, vários países teriam atingido o conhecimento sobre (e mesmo produzido a) bomba atômica e nem por isso a bipolaridade havia se alterado (WALTZ, 1979, p. 180-181). Logo, se a posse das armas nucleares não alterava a estrutura do sistema internacional (mantido bipolar e sempre com os mesmos polos) esta mesma posse não poderia ser invocada como condição de distinção conceitual (polos) do próprio sistema.

Este constructo teórico por vários anos embalou os estudos sobre política internacional e, ainda hoje, parece ter grandes defensores em postos decisórios-chave uma vez que a questão nuclear ainda norteia as negociações/decisões de alguns países, tanto no plano externo, como também na política interna e mesmo na corrida eleitoral doméstica. De fato, recentemente os EUA anunciaram a resolução de um acordo com o Irã relativo exatamente à tentativa deste último de desenvolver capacidade nuclear.

As evidências em contrário

A análise mais detalhada histórica e política sobre a Guerra Fria e o período atual oferece uma série de evidências que contradizem o constructo realista e neorrealista de forma que hoje há uma discussão bastante grande sobre a utilidade real das armas nucleares. Caras em seu desenvolvimento, caras em sua manutenção e oferecendo inúmeros riscos simplesmente pela sua posse (http://www.mirror.co.uk/news/world-news/man-who-saved-world-doing-5736621 ) a pergunta é se realmente este tipo de artefato oferece “capacidade dissuasória” (GELLER, 1990, p. 291) que concorreria para compor o sentimento de segurança dos países detentores (MESQUITA, 1985).

Podemos citar três tipos de evidências que corroboram para a visão “pacifista” que afirma serem as armas nucleares impossíveis de serem usadas devido ao seu alto custo: evidências estatísticas, evidências políticas, evidências históricas.

Estatisticamente falando nem se deveria dar ouvidos ao medo das armas nucleares. Segundo o SIPRI Yearbook de 2011 (Stockholm International Peace Research Institute) existem 20 530 artefatos nucleares (warheads) sob tutela de nove países (Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão, Israel, Korea do Norte) (KILE, FEDCHENKO, et al., 2011) e o número de conflitos com uso nuclear é 1, apenas 1.

Desde 1946 até 2013 existiram cerca de 331 conflitos em nosso planeta (http://www.systemicpeace.org/warlist.htm) e o número de conflitos com uso de armas nucleares foi exatamente 0. Mesmo com guerras envolvendo ao menos uma potência nuclear, e essa potência sofrendo pesadas baixas (como, por exemplo, a Guerra do Vietnã) não houve o uso. Mesmo em guerras envolvendo duas potências nucleares (Guerra Russo-Chinesa, 1969 ou a Guerra de Kargil entre Índia e Paquistão em 1999) novamente não houve recurso às armas nucleares. Se contarmos ataques indiscriminados matando população civil, ainda assim não houve reação nuclear por parte da potência agredida (caso Israelense ou o norte-americano depois do ataque ao WTC em 2001). De fato, após Hiroshima e Nagasaki, quando ficou evidente o custo do uso de um artefato nuclear, nunca mais foi usado em qualquer conflito, de qualquer natureza. Estatisticamente, portanto, a tese do medo nuclear não merece consideração.

Politicamente todos os estudos sobre processos decisórios em que o “uso nuclear” era carta sobre a mesa houve o descarte imediato desta possibilidade por “irracionalidade” (ALLISON, 1969, p. 696). Mesmo quando se analisam outros momentos de decisão política como o caso do ataque preemptivo contra o programa nuclear chinês, pensado por EUA e URSS, verifica-se também a imediata retirada da “carta nuclear” (BURR e RICHELSON, 2000-2001). Henry Truman criou um comitê interino para decidir sobre o uso da bomba e, mesmo que a decisão tenha sido o sim (sem que haja nenhuma ordem formal do presidente para o uso da bomba), ela foi monocrática e com pouco apoio interno. Ademais, os agentes decisórios há época não tinham, ainda, o conhecimento efetivo sobre os efeitos da bomba (DOBBS, 2012). Mesmo sendo o processo decisório restrito a atores sem todas as informações, isolados e de menor expressão política, a decisão continuou pela a negação do uso, ainda que sob condições extremas de pressão (SAGAN e SURI, 2003).

A mesma visão perdurava nos anos 70 sendo que Paul Nitze continuava retirando a “carta nuclear” das árvores decisórias por ser “irracional” (KRAIG, 1999, p. 144). Na década de 90 Waltz tornava “científica” a conclusão de que as armas eram impossíveis de serem usadas ainda que para isso usasse uma rebuscada construção imagética sobre a possibilidade do uso (Mutual Assured Destruction) e o pensamento utilitarista da guerra, que tem vínculos na famosa frase de Clausewitz de que a “guerra é a política por outros meios” (WALTZ, 1990).

Historicamente, a análise das evidências também nos aponta na mesma direção. Curiosamente, entretanto, não chancela a visão de Waltz. As armas nucleares não foram usadas também porque os atores internacionais se recusaram a serem ameaçados por elas. Tanto Stalin quanto Mao se recusaram a entender Hiroshima e Nagasaki como ameaças exatamente pela impossibilidade de os EUA suportarem o uso de tais armas novamente. Mesmo sem qualquer capacidade dissuasória estes dois líderes não mudaram suas perspectivas político-históricas e agiram internacionalmente como se a bomba não existisse (HASLAM, 2011, p. 113-114). Mesmo quando recebeu a notícia de que os americanos usariam um artefato de “unusual destructive force” contra o Japão, Stalin (que estava melhor informado sobre o desenvolvimento da bomba do que o próprio Truman (DOBBS, 2012)) limitou-se a dizer: “Glad to hear it, I hope you will make good use of it against the japanese” (DOBBS, 2012).

Conclusão

Em que pese o medo que as armas nucleares têm instilado em artistas, políticos, jornalistas e público em geral, a análise empírica das evidências históricas, políticas e mesmo estatísticas apontam para a impossibilidade do uso. As causas desta impossibilidade, entretanto, são apenas meras conjecturas. Desde a percepção utilitarista da guerra até os mesmos princípios da paz democrática (e a necessidade de accountability interno das decisões internacionais) podem ser usadas como argumento. De fato, desde a moralidade humana até os princípios religiosos podem ser invocados para explicar este curioso fenômeno de se gastar imensas quantidades de recursos para o não-uso. O que não se pode negar é que tanto o medo das armas nucleares, quanto a decisão racional de ignorá-las dentro dos cálculos de tomada de decisão parecem ser a tônica do imaginário do século XX após Hiroshima e Nagasaki. Os EUA são, contudo, o único país a ter seus arsenais nucleares aumentados depois do fim da Guerra Fria ao mesmo tempo que é o principal ator na exigência do acesso a outros países destas tecnologias.

Em 1979 Bob Marley escrevia uma canção que continha uma síntese explicativa do não-uso. Marley dizia: “Emancipate yourselves from mental slavery/none but ourselves can free our mind/Have no fear for atomic energy/’Cause none of them can stop the time”. Stalin e Mao acreditavam piamente no conteúdo evolucionista da doutrina marxista. Talvez não tenham tido medo da bomba atômica porque acreditavam que ela não poderia parar o tempo, e este tempo daria a vitória, inescapavelmente, ao comunismo. Nem Stalin, nem Mao estavam certos com relação ao comunismo, mas nem Truman nem Stimson estavam certos com relação aos efeitos internacionais da bomba. Bob Marley, entretanto, continua certo.

Referências

ALLISON, G. Conceptual models and the Cuban Missile Crisis. The American Political Review, v. 63, n. 3, p. 689-718, setembro 1969.
BURR, W.; RICHELSON, J. Whether to “Strangle the baby in the cradle”: The United States and the Chinese nuclear program, 1960-1964. International Security, v. 25, n. 3, p. 54-99, 2000-2001.
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GAVIN, F. Same as it ever was: Nuclear Alarmism, Proliferation, and the Cold War. International Security, v. 34, n. 3, p. 7-37, 2009/2010.
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Luiz Fernando  Horta é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (moonbladers@gmail.com)

1 Comentário em Stalin, Mao e a questão nuclear, Por Fernando Horta

  1. Excelente análise. Mas acredito que, se a Ucrânia não tivesse renunciado às suas armas nucleares, deixadas quando da quebra da antiga União Soviética, a Russia de Putin não teria avançado contra a Criméia e a região do Don. A disuassão seria mais forte do que atual guerra imposta sem qualquer chance de reação. Embora o artigo assevere que os países detentores de armas nucleares não se intimidaram de levar adiante suas políticas próprias, ainda que contra outros também detentores de armamento nuclear, sempre agiram por procuração, após a guerra da Coréia, aonde os limites foram postos expressamente na mesa das grandes potências.