O Brasil e a América do Sul: Relações regionais e globais, por Cristina Soreanu Pecequilo & Corival Alves do Carmo

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A política externa dos países sul-americanos nestes primeiros anos do século XXI é foco do livro “O Brasil e a América do Sul: relações regionais e globais”. Procuramos apresentar as principais mudanças na política externa e as tentativas de redefinição da inserção internacional dos Estados da região a partir da ascensão dos governos da nova esquerda sul-americana. Em relação ao Brasil apresenta-se uma análise da sua política externa ao longo de todo o século XX ressaltando as escolhas entre a estratégia bilateral-hemisférica e multilateral-global como base para a inserção internacional do Brasil. Já a partir de meados do segundo governo FHC (1995-2003), a estratégia multilateral global predominou, mas foi reforçada no governo Lula. Retirada as Américas como eixo estruturante da PEB, a América do Sul passou a ser a região de referência para a construção da inserção internacional do Brasil dentro da estratégia multilateral-global.

A prioridade dada para a América do Sul por parte do Brasil permitiu colocar a integração regional como um objetivo e um instrumento comum dos governos sul-americanos. A despeito das dificuldades comerciais do Mercosul, em termos de discurso, a integração regional se tornou um objetivo inquestionável dos países da região. Evidentemente, países tão distintos como Brasil, Chile, Colômbia ou Venezuela possuem visões distintas sobre a integração sul-americana, mas cada país sul-americano procurou convergir em alguns aspectos permitindo tanto a criação da Unasul como uma atuação efetiva da instituição na crise entre Colômbia e Equador e nas tentativas de desestabilização política da Bolívia e do Equador.

Do ponto de vista brasileiro, a América do Sul serviu como alavanca para ampliar a sua projeção internacional e legitimar as pretensões brasileiras de posicionar na política internacional como líder da região e uma das lideranças emergentes. Durante o período Lula-Amorim, é inegável a capacidade do Brasil mobilizar a agenda sul-americana, reforçar o diálogo político intrarregional e reverberar essas ações no plano global, o que associado à retomada do crescimento econômico, permitiu ao Brasil colocar como uma potencia emergente. O aprofundamento da crise internacional, a redução do crescimento e a alteração no perfil da política externa fizeram com que refluísse o protagonismo brasileiro no período Dilma.

Evidentemente, o Brasil também encontra grandes dificuldades sistêmicas para concretizar este projeto de liderança regional. Nesse sentido, o argumento desenvolvido no livro ao se analisar a política externa dos demais países da América do Sul e suas relações com as outras regiões do globo reconhece a existência de uma disputa pela liderança da América do Sul que de diferentes formas envolveu o Brasil (com a oferta de propostas de integração política e econômica), os Estados Unidos (com apoio político e ideológico e os acordos bilaterais de livre comércio) e a China (com a oferta de mercado consumidor para a produção primária especialmente e acordos de cooperação sul-sul, envolvendo inclusive a liberalização comercial bilateral). Neste aspecto, entendemos que as transformações sistêmicas e as políticas adotadas por cada ator resultaram em clara vantagem para a China. E do ponto de vista da integração regional, representa retomar a discussão sobre o caráter da integração sul-americana se acabará por reforçar os laços com as potências extrarregionais ao reforçar os corredores de exportação ou se desenvolverá os vínculos econômicos e sociais entre os países da região.

Ainda em relação à China mostramos como o padrão de relações comerciais entre a China e a América Latina foi profundamente modificado a partir de meados dos anos 2000. O comércio com a China, que tinha baixa importância no final dos anos 1990, assume um dinamismo capaz de tornar o país o principal parceiro comercial do Brasil, do Chile, e disputar posição com o Brasil na Argentina, ou ainda com os Estados Unidos no Peru. Se num primeiro momento a aproximação com a América Latina se deu por razões comerciais, inclusive para obter o reconhecimento como economia de mercado na OMC, nos anos 2010, as intenções políticas da China na região crescem, e o país busca introduzir o mesmo modelo de relações estabelecido com os países africanos através do Fórum de Cooperação China-África para a América Latina com a criação do Fórum China-Celac. Esta importância da China para as relações internacionais em geral, e para a América do Sul em particular, justificou a inclusão de um tópico específico para abordar a China ao mesmo tempo em que a China foi um fator considerado na análise da política externa e inserção internacional de todos os países sul-americanos. As oportunidades comerciais geradas pela expansão chinesa foram um fator importante para o sucesso econômico relativo de governos de diferentes matizes políticos, seja o Brasil de Lula, o Chile de Bachelet e Piñera, o Peru de Alejandro Toledo e Alan García ou a Argentina de Nestor Kirchner, como também foi central para o financiamento da Venezuela de Hugo Chávez.

Neste sentido, exploramos a diversificação de parceiros por parte do Brasil e demais países sul-americanos. No século XXI, estes país procuram ir além de seu intercâmbio com os Estados Unidos e buscam sua autonomia por meio de outros parceiros como os BRICS e a União Europeia, e a cooperação com a Ásia e a África. Particularmente o Brasil, por sua importância econômica e política, não precisa escolher parceiros, mas sim buscar todas as alternativas possíveis no mundo, sem virar as costas para a América do Sul. Porém, a opção pela diversificação de parceiros possui custos tanto para o Brasil como para os demais Estados da América do Sul. Há entraves de ordem política e econômica internacional e restrições de ordem interna, pois os recursos de poder, políticos e econômicos, tendem a ser pequenos, pois os países da região enfrentam profundas tensões sociais e políticas agravadas pela pobreza e as grandes desigualdades internacionais, as quais dificultam um projeto nacional e internacional consistente. Ainda assim foi possível ampliar as margens de autonomia e podem ser ainda mais ampliadas caso se aprofunde a cooperação sul-americana para permitir posicionamentos concertados na arena global.

CRISTINA SOREANU PECEQUILO é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP e Pesquisadora do CNPq (crispece@gmail.com).

CORIVAL ALVES DO CARMO  é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe – UFS, Pesquisador Associado dos Grupos de Pesquisa Instituto de Gestão Pública e Relações Internacionais – UNESP e Inserção Internacional Brasileira: Projeção Global e Regional da UNIFESP/ UFABC (corival@gmail.com)

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