A crise grega e a retórica do plebiscito, por Rafael Henrique Dias Manzi

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O plebiscito realizado na Grécia no domingo de cinco de julho de 2015 é o mais recente capítulo da crise na zona do euro.  Apesar do quadro recessivo em diversas economias da zona do euro, a magnitude e a profundidade da crise econômica na Grécia é singular entre os países do velho continente. Entender as causas que levaram o país a um desastre econômico nos últimos anos é fundamental para compreender porque o plebiscito acerca do tema da austeridade fiscal, onde a maioria da população rejeitou os termos do acordo da Grécia com os credores do país, deveria ocupar espaço secundário nas discussões políticas do país.

A crise grega teve início quando a agência de classificação de risco, Standard & Poor´s, rebaixou a nota de risco da Grécia iniciou-se uma crise de confiança na sustentabilidade das dívidas públicas dos mercados emergentes da zona do euro. Do ponto de vista fiscal, os indicadores da Grécia nunca ficaram nos limites e tetos estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, o que contribuiu decisivamente para gerar uma crise de confiança sobre capacidade do Estado grego em honrar seus compromissos financeiros. Entre 1999 e 2008, déficits fiscais na Grécia ficaram acima de 3% em todos os anos. O resultado dos elevados déficits fiscais foi um aumento substancial da dívida pública grega ao longo dos anos 2000. A dívida pública do país saltou de 94% do PIB em 1999, para 124% em 2009. Embora o descontrole fiscal tenha debilitado a economia grega e contribuído sensivelmente para a eclosão da crise econômica a partir de 2010, a crise na Grécia é antes de tudo a combinação de uma crise de competitividade econômica e externa.

Enquanto na média da zona do euro a inflação anual foi de 2%, entre 1999 e 2011, na Grécia os índices atingiram uma média anual próxima de 3,2% no mesmo período. No mesmo contexto, o crescimento da renda média dos gregos foi baseado em um aumento dos salários acima do crescimento da produtividade do trabalho. Os salários ao crescerem acima da produtividade do trabalho elevaram os Custos do Trabalho por Unidade Produtiva (CTUP) em comparação a outras economias da zona do euro, o que acabou reduzindo a competitividade dos produtos e bens produzidos em território grego. Dito de outra forma, a renda do trabalhador grego cresceu acima da produtividade do trabalho.  Ademais, a Grécia mostrou baixa capacidade de melhorar seus indicadores sistêmicos de competitividade econômica ao longo dos anos 2000. No ranking de competitividade econômica produzido pelo Fórum Econômico Global, a economia grega ocupava a 41ª posição de economia mais competitiva do mundo em 1999. Em um período dez anos, a economia grega perdeu trinta posições no mesmo ranking e era considerada apenas a 71ª economia mais competitiva em 2009.

A combinação de inflação acima da média da zona do euro e elevação dos custos do trabalho (CTUP) reduziram a competitividade da economia grega e contribuiu para elevar os déficits comerciais do país. Os déficits nas transações correntes que eram em média de 2,9% do PIB ao ano, entre 1995-1998, se elevaram no período posterior para 7,8% ao ano entre 1999 e 2007. Da mesma forma, a Posição Líquida de Investimentos Internacionais (PLLI), outro importante indicador externo que mensura a diferença bruta entre ativos e passivos de um país no exterior, apresentou uma evolução negativa após a introdução dao euro. A PLII que era de -32% do PIB em 1999, elevou-se para -87% em 2009.  Nesse sentido, as turbulências econômicas na Grécia são antes de tudo o reflexo de uma crise oriunda da deterioração dos indicadores externos. (Sinn; Wollmershaeuser, 2011).

O que esses indicadores externos sugerem é que o consumo interno na Grécia foi superior a renda nacional do país, sendo a diferença coberta pela importação de poupança externa. Como apontou Lynn (2011, p. 73), a exposição dos bancos europeus aumentou em aproximadamente 481% na Grécia no decorrer da década de 2000. Um relatório do Bank of International Settlements (BIS) estimou que a exposição total de bancos e instituições financeiras internacionais na Grécia era de aproximadamente US$ 271 bilhões em 2011. Da mesma forma, aproximadamente 79% dos títulos públicos da Grécia pertenciam a residentes estrangeiros no fim de 2009, o que demonstra o elevado nível de endividamento externo do país (Cabral, 2010). Outro fator de aumento da vulnerabilidade do país decorreu das caracteristicas dos capitais internacionais que ingressaram no país no período de bonança econômica serem ativos de curto prazo e de alta liquidez, o que acaba facilitando sua evasão em períodos de pandemias financeiras (European Comission, 2010).

Com o início da crise econômica de 2008 e a contaminação dos mercados financeiros europeus em virtude do elevado grau de interdependência entre Europa e Estados Unidos iniciou – se um processo de fuga de capitais (sudden stops) dos mercados emergentes da zona do euro. O processo de fuga de capitais e retração dos investimentos internacionais causou o fim do modelo econômico baseado na importação de poupança externa na Grécia.  A situação causou um virtual default por parte do governo grego na rolagem de sua dívida pública e desde 2010 o país depende de recursos financeiros oriundos das instituições europeias e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A recuperação da Grécia passa necessariamente por um ajuste no setor externo que aumente a competitividade da economia grega e o crescimento das exportações nacionais. A melhora nos índices de competitividade econômica depende de uma agenda de curto prazo – como o país está preso em uma união monetária e não pode desvalorizar a moeda a recuperação dos níveis de competitividade depende de uma deflação interna dos preços – e de longo prazo que melhore os índices de competitividade econômica mensurados pelo Fórum Econômico Global. E foi isso que ocorreu parcialmente em outros mercados que enfrentaram as mesmas fragilidades da Grécia. Na Irlanda, Portugal e Espanha, os elevados déficits nas transações correntes foram revertidos em pequenos superávits por meio de uma deflação interna parcial e o crescimento das exportações nacionais.

Como observou Gross (2015), Irlanda, Portugal e Espanha têm registrado uma lenta recuperação econômica em decorrência da deflação dos preços internos, das reformas econômicas que aumentaram os níveis de competitividade sistêmica e da conversão dos déficits comerciais em superávits em virtude do crescimento das exportações nacionais. Em contraposição, na Grécia, o setor exportador demonstra baixo dinamismo o que diminui a capacidade recuperação do país. Os dados referentes as exportações do GIPS estão aglutinados na Tabela 1. Segundo Gross (2015),

To be sure, Greece’s trade deficit has declined, but only because imports collapsed. Meanwhile, exports stagnated, even as wages declined by more than 20%. That, not austerity, is Greece’s real problem. If Greece had experienced the same growth in exports as Portugal (a country of similar size and per capita income), it would not have experienced such a deep recession, and tax revenues would have been higher, making it much easier for the government to achieve a primary budget surplus.

Tabela 1. Evolução das exportações de bens e serviços nos GIPS (em bilhões de euro)

2007

2010 2014

% de crescimento

(2007/2014)

Grécia

52,4

49,9

59

12,5

Irlanda 152,4 157,8 207,7

26,7

Portugal

54,4

53,7 69

21,2

Espanha

277,8

275,8

339

19,1

Fonte: Tabela elabora pelo autor de acordo com os dados do Eurostat. Disponível em: http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/refreshTableAction.do?tab=table&plugin=1&pcode=tec00110&language=en Acesso: 05 jul. 2015.

A constatação que a crise grega tem suas origens principalmente na deterioração de indicadores externos – taxas de consumo e investimento acima da renda nacional – e que a recuperação da economia da Grécia depende de ações que visem principalmente aumentar os níveis de competitividade do país e por seguinte as exportações nacionais deveria ocupar nas discussões nacionais nas discussões gregas. Todavia, nas negociações com a troika (grupo composto pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) o governo grego demanda maior autonomia para a adoção de políticas fiscais mais expansionistas que diminuam o sofrimento da população diante da profunda depressão econômica no país.  O governo grego alega que as medidas de austeridade impostas pela troika reduzem o nível de atividade econômica em uma economia que apresenta índices de desemprego superiores a 20% e acabam por reduzir a própria arrecadação de impostos por parte do Estado grego.

O que as discussões sobre o plebiscito escondem e deveriam ser centrais na sociedade grega são: quais são as opções e estratégias que o país possui para alavancar o crescimento econômico e restaurar a confiança dos agentes econômicos na economia grega? Isso porque, mesmo que a troika concorde em aumentar a margem de ação do governo grego na adoção de um superávit primário abaixo dos 3,5%, como proposto pelos credores, qual será o efeito disso em uma economia que apresenta encolhimento de aproximadamente 20% do PIB nos últimos cinco anos? Sem a elevação dos índices de competitividade econômica e o crescimento das exportações a economia grega terá pouca margem de crescimento econômico nos próximos anos. Nesse sentido, o plebiscito realizado pelo governo grego no primeiro domingo de julho de 2015 apenas contribuiu para aumentar os níveis de tensão nos mercados financeiros a respeito do futuro da Grécia. Até porque, apesar da dívida pública grega estar perto de 178% do PIB, os dispêndios referentes ao pagamento de juros na rolagem da dívida publica do país é menor em virtude das dívidas terem sido adquiridas em sua maior parte pelo FMI e instituições europeias.

Referências

AVDJIEV, Stefan. UPPER, Christian; VAUSE, Nicholas. Highlights of the BIS international statistics. Bassel: BIS Quarterly Review, march 2011.

CABRAL, Ricardo. The GIPS’ external debt problem. Voxeu, 8 may 2010. Disponível em: http://www.voxeu.org/article/gips-external-debt-problem. Acesso: 5 jul. 2015.

EUROPEAN COMMISSION. Surveillance of Intra-Euro-Area Competitiveness and Imbalances. Luxembourg: Directorate-General For Economic and Financial Affairs, 2010. (European Economy 1/2010).

EUROSTAT. Disponível em: http://ec.europa.eu/eurostat Acesso: 5 jul. 2015

GROS, Daniel. Why Greece is different. Project Syndicate, may 13, 2015. Disponível em: http://www.project-syndicate.org/commentary/greece-export-problem-by-daniel-gros-2015-05.  Acesso: 5 jul. 2015

LYNN, Matthew. Bust. Greece, the Euro, and the sovereign debt crisis.  Hoboken: John Wiley & Sons, 2011.

SINN, Hans-Werner; WOLLMERSHAEUSER, Timo. Target Loans, Current Balances and Capital Flows: The ECB’s Rescue Facility. Washington: National Bureau of Economic Research, 2011. (NBER Working Paper No. 17626).

WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Competitiveness Report.. Geneva: World Economic Forum, vários anos.

Rafael Henrique Dias Manzi é doutorando em relações internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. Bolsista da Capes (rafaelmanzi@hotmail.com).

3 Comentários em A crise grega e a retórica do plebiscito, por Rafael Henrique Dias Manzi

  1. O seu texto também esconde um fator fundamental, que é o questionamento da legitimidade da dívida grega. Quantas vezes a Grécia já pagou a dívida original, sendo que o pagamento contínuo resulta apenas de uma vergonhosa usura internacional, de juros sobre juros, que canalizam divisas públicas para os bancos? Como esse sistema internacional se presta apenas para alimentar uma minoria de países e pessoas, deixando a maioria de joelhos? A Grécia questiona o sistema financeiro internacional, e tomara que esse seja o início de uma grande revolução.

  2. Caro Pedro, o objetivo do artigo não é discutir a dívida da Grécia, mas sim demonstrar que o principal problema do país é o crescimento econômico e as exportações e isso ajuda explicar porque Portugal, Espanha e Irlanda estão em situação econômica melhor. Mas já que tu mencionou a questão da dívida é exatamente o contrário o que aconteceu. Quando a Grécia entrou na zona do euro a percepção de “risco” do país se igualou ao risco da Alemanha. Ou seja, o custo da dívida grega na verdade se reduziu. No site do banco central europeu tu encontra essas informações. Mas esse gráfico aqui é baseado nos dados do BCE.

    https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Long-term_interest_rates_of_eurozone_countries_since_1993.png

    Abraço,
    Rafael Manzi