Um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso…. a propósito do conceito de América Latina, por Fernando Horta 

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A construção de identidades não obedece a qualquer elemento lógico ou objetivo. A construção das “comunidades imaginadas” nos dizeres de Anderson (ANDERSON, 1993) ou a “invenção das tradições” nas palavras de Hobsbawm (HOBSBAWM e RANGER, 1997) tampouco podem ser circunscritas aos espaços unicamente individuais. Não é o indivíduo, pois, que realiza uma seleção racional daquilo com o que quer estabelecer uma relação de construção de si ou com o que não quer. É certo que a literatura construtivista enfatiza a ação de “identificar-se”, mas tampouco afirma a ideia de que esse processo seja volitivo apenas. Sendo assim, a ação de reconhecimento parte do indivíduo em direção aos valores ou conceitos com o qual se imiscui, mas também é verdade que existem espaços de poder político que oferecem, instigam e favorecem a identificação do indivíduo (e grupos de indivíduos) com valores que sejam de interesse dos que exercem este poder. É parte deste raciocínio que Hobsbawm usa para dizer que “(…) o nacionalismo vem antes da Nação” (HOBSBAWM, 1990). Não se pode, portanto, tratar o processo de identificação (criação e reconfiguração identitária) como puramente baseado na vontade do sujeito, que sequer precisa compreender objetivamente a extensão daquilo com o qual estabelece vínculos identitários.

Partindo deste ponto, não se pode dizer que a identificação como “americano”, “latino americano” ou “sul americano” seja uma questão totalmente baseada na vontade subjetiva de seus povos (MIGNOLO, 2005, p. 81). Tampouco a identificação com estes conceitos é algo “indiferente” histórica, social ou politicamente (BETHELL, 2009, p. 299). Em verdade, o termo “latino-americano” foi criado externamente ao grupo que lhe quer identificar e com uma dupla função de exclusão: em primeiro lugar visava distinguir a parte da América que não era anglo-saxônica num grupo único sobre o qual os interesses externos pudessem ser facilmente enunciados e enumerados (MIGNOLO, 2005, p. 86). Em segundo lugar, o termo “América Latina” foi apropriado pelas elites do continente por ele definido para promover uma exclusão do que seria a “América indígena” ou mesmo a América negra (BRUIT, 2000, p. 1).

Veja-se que, por exemplo, que Haya de la Torre publica um livro em 1928 reportando-se ao subcontinente como “Indoamérica” (BRUIT, 2000, p. 8) ao passo que Charles de Gaulle quando em viagem ao continente americano, em sua porção central e sul – já em 1964 – afirma que “L’Amérique latine déteste les Américains, elle désire ardemment échapper à leur hégémonie” (VAISSE, 2014, p. 8). De Gaulle reconhece não apenas a distinção que estava já a ser criada, mas também os objetivos desta construção no pós-segunda guerra. Abertamente, a viagem de De Gaulle luta contra a ideia de que os americanos não são latino-americanos, reconhecendo que na gênese da diferenciação encontra-se um projeto de poder hegemônico (VAISSE, 2014, p. 9).

José de Martí em 1973 afirma que “No hay batalla entre la civilización y la barbarie, sino entre la falsa erudición y la naturaliza” (BRUIT, 2000, p. 6) evidenciando a dupla distinção aqui mencionada. Se, na utilização do termo pós 1945 está o projeto de poder dos EUA, que pretendia submeter a américa de língua não inglesa aos seus domínios políticos, a apropriação e releitura de “América Latina” pelas elites deste território visava excluir os “bárbaros” (os “não brancos”) mediante uma associação distante e difusa com as populações originadas do Lácio. A “latinidade” era uma segurança de diferenciação social, política e mesmo genealógica (BETHELL, 2009, p. 292) sobre a africanidade ou mesmo o “barbarismo” das populações autóctones da América.

A “latinidade”, contudo, sempre foi de difícil conceituação. Em primeiro lugar, mesmo estudos genéticos cada vez mostram menos capacidade de diferenciar os seres humanos entre si (LEAKEY, 1997). A construção de uma “latinidade”, portanto, não é algo de caráter objetivo contendo novamente ideias construídas para diferenciação. Para Garcia Calderon, por exemplo, o “espírito latino” (CALDERÓN, 1912, p. 6) era definido pela junção de três características: o catolicismo, legislação romana e cultura francesa (CALDERÓN, 1912, p. 153). Nesta latinidade o Brasil não se reconhecia. Segundo Leslie Bethell somente depois da segunda guerra é que o Brasil passou a reconhecer-se parte desta América Latina. Nem os escritores hispano-americanos incluíam o Brasil na “América Latina”, nem escritores e intelectuais brasileiros se reconheciam neste construto (BETHELL, 2009, p. 293). Sequer fomos convidados para o Congresso do Panamá (1826), pois Bolívar acreditava que o Brasil era “completamente” diferente da América Espanhola. É apenas com a República brasileira que o país passa a buscar essa identificação, mais expressivamente depois de 1930 (BETHELL, 2009, p. 296):

Quando foi que o Brasil finalmente começou a fazer parte da “América Latina”? Quando a “América Latina” se tornou “Latin America”, isto é, quando os Estados Unidos, e por extensão a Europa e o restante do mundo, passaram a considerar o Brasil parte integrante de uma região chamada Latin America, começando nos anos 1920 e 1930, mas principalmente durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. E quando, ao mesmo tempo, os governos e intelectuais hispano-americanos passaram a incluir o Brasil no seu conceito de “América Latina”, e alguns (poucos) brasileiros começaram a se identificar com a América Latina. (BETHELL, 2009, p. 305-306)

A criação da CEPAL, em 1948, também fortalece esse processo de formação identitária (ou indução identitária):

Lo que quiero mostrar es que, por el contrário, com la ‘idea de América Latina’ se distorsionó el passado de modo tal que el período imperial/colonial sirviera para encuadrar las protohistorias nacionales, y se incluyeron como parte de ‘América Latina’ acontecimentos históricos que sucedieron después de da invención y adaptación de esa idea. (MIGNOLO, 2005, p. 91)

Assim, fica clara tanto a ideia de construção do termo “América Latina” quanto o fato de esta ideia ser exógena e buscar diferenciar-se de uma américa “anglo-saxônica” capitaneada pelos EUA. O conceito de “América Latina” constrói pontes com um passado inventado através do interesse de suas elites em aproximarem-se da civilização europeia também mitificada.

Esse entendimento, claramente delimitado na historiografia americana, é, entretanto, incompleto. Retomando a ideia da “dupla diferenciação”, não é somente aludindo ao projeto de poder dos EUA, tampouco ao projeto das elites americanas em aproximarem-se do modelo civilizacional europeu que o termo “América Latina” é construído. Existe o interesse também de afastar da formação dos Estados Nacionais negros e índios que não poderiam fixarem-se como “latino”, eis que lhes faltava o fio condutor ao Lácio:

La “idea de América Latina” permitió a las elites criollas distanciarse de su passado español y português, abrazar la ideologia de Francia y olvidarse del legado de su própria consciência crítica. Asó, los criollos ‘latinoamericanos’ dieron la espalda a índios y negros y se volvieron hacia Francia e Inglaterra. (MIGNOLO, 2005, p. 91)

O termo “América Latina criava, portanto, uma herança civilizacional positiva advinda de França e Inglaterra ao mesmo tempo que renegava a advinda de Espanha e Portugal. Mais ainda, negava peremptoriamente qualquer possibilidade de inclusão de negros e índios tornando o construto social americano de “redenção impossível ou duvidosa” em função da “heresia dos nativos” nas palavras de Eduardo Galeano (GALEANO, 1978, p. 11).

Essa reflexão é feita pela política externa brasileira no século XXI, mas agora tomando-se “o sul como norte” (ARAÚJO, 2013). Buscando afastar o termo “latino” após todo o reconhecimento do caráter colonialista e sectário que está imbuído no conceito, o Itamaraty tem preferido usar a indicação geográfica “sul” apenas para delimitar o subcontinente. Assim, não existe uma escolha entre os termos “América Latina” e “América do Sul”. Existe uma aceitação tácita de um projeto de poder norte-americano e de uma construção identitária colonialista que se alia ao interesse de manter excluídos negros e índios de uma imaginada, porém inexistente, “América Latina”. A política externa do século XXI tornou-se grande demais para ser inclausurada nos conceitos “latinos” do século XIX. É tempo de redenção.

Referências

  • ANDERSON, B. Comunidades Imaginadas: Reflexiones sobre la origem y la difusión del nacionalismo. Ciudad de Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1993.
  • ARAÚJO, R. O Sul como norte: A inflexão da política externa brasileira no início do século XXI. Brasília: Tese de Mestrado UNB/IREL, 2013.
  • BETHELL, L. O Brasil e a ideia de “América Latina” em perspectiva histórica. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 22, n. 44, p. 289-321, julho-dezembro 2009.
  • BRUIT, H. A Invenção da América Latina. Anais Eletrônicos do V Encontro da ANPHLAC, Belo Horizonte, 2000.
  • CALDERÓN, F. G. Les démocraties latines de l’Amerique. Paris: Ernest Flammarion, 1912.
  • GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
  • HOBSBAWM, E. Nações e Nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • HOBSBAWM, E.; RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
  • LEAKEY, R. A origem da espécie humana. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
  • MIGNOLO, W. La Idea de América Latina: La herida colonial y la opción decolonial. Barcelona: Gedisa, 2005.
  • VAISSE, M. De Gaulle et l’Amérique Latine. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2014.

Luiz Fernando  Horta é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (moonbladers@gmail.com)

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