Transbordamento da Crise econômica argentina e seus impactos na indústria brasileira, por Laís Bueno Sachs

Sabe-se que a economia e a política são duas esferas que se influenciam mutuamente. Analisar os impactos da crise econômica argentina na indústria e na economia brasileiras requer uma visão holística do assunto. É preciso averiguar, por exemplo, como políticas e problemas domésticos de nosso vizinho estão afetando as exportações, a indústria e a economia brasileira de modo geral. Nesse sentido, esta análise propõe-se a investigar o spill-over (transbordamendo, em português) da crise argentina recente e seus impactos, principalmente na dimensão comercial, para o Brasil. O nível de análise escolhido é, majoritariamente, o estatal. A pergunta “Como a política e a economia argentinas têm afetado a indústria e a economia brasileiras?” direciona a presente análise. Contudo, utilizar-se-ão conceitos e abordagens econômico-políticos para abordar o tema proposto.

Ao longo dos últimos meses, a Argentina tem enfrentado problemas econômicos e políticos. A inflação está elevada, existem dificuldades para captar investimentos externos diretos, há escassez de divisas e dúvidas quanto à recuperação e à estabilização dessa economia. Existem também dificuldades para renegociar a dívida do país, principalmente, devido aos problemas com fundos abutres e com escândalos políticos envolvendo a atual presidente. Além disso, a moeda argentina enfrenta constante desvalorização frente a moedas como Dólar e Euro. No atual momento, a escassez de divisas decorrente da dificuldade em captar recursos, tais como investimentos externos diretos (IEDs), afeta demasiadamente a saúde macroeconômica do país (KRUGMAN; OBSTFELD; MELITZ, 2012).

Na tentativa de contornar a crise que se alastra e que corrói o poder de compra dos argentinos, a Casa Rosada vem adotando medidas de forte caráter protecionista. Desde fevereiro de 2012, por exemplo, a presidente Kirchner implementa as “Declarações Juramentadas Antecipadas de Importações (DJAI)”. Segundo Palacios, “as DJAI obrigam todas as empresas que desejam importar [praticamente qualquer tipo de bem] a apresentar, de forma prévia, um relatório detalhado à Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip), denominação da receita federal argentina. A norma não contempla qualquer espécie de prazo para que o Fisco emita uma decisão. Desta forma, os empresários frequentemente esperam longos meses até saber se poderão – ou não – importar um insumo ou bem de consumo.” (PALACIOS, 2014). Essa medida protecionista torna a importação demorada e a desestimula. Isso, por sua vez, desaquece a economia argentina e afeta diretamente as exportações brasileiras para o país até hoje.

É válido lembrar que, ao longo de 2014, 20,3% das exportações argentinas tiveram como destino o Brasil. Quanto às importações, 22,8% foram provenientes do Brasil, sendo 14,6% das importações automóveis (MRE/DPR/DIC – Divisão de Inteligência Comercial, com base em dados da UN/UNCTAD/ITC/Trademap,2015).

Além das DJAI, outras barreiras não tarifárias e restrições à importação também contribuem para a queda nas exportações brasileiras para nosso vizinho. Em novembro de 2014, as vendas brasileiras para nosso vizinho em crise foram de US$ 1,080 bilhão, o que representa uma queda de 28,4% em comparação com o mesmo mês de 2013. Segundo o Secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Daniel Godinho, a queda das exportações brasileiras para países da América Latina foi provocada principalmente pela Argentina. Houve queda de 64% na venda  e 58% de retração nos embarques de automóveis produzidos no Brasil para aquele país.

Em consequência, a indústria brasileira já sente os efeitos dessa redução. Somente no mês de Janeiro deste ano, centenas de trabalhadores de montadoras entraram em férias coletivas, foram afastados de seus trabalhos temporariamente ou demitidos. O estado de São Paulo é um dos que mais sofre com a retração da demanda argentina por carros “Made in Brazil”. O volume de importações argentinas dos produtos da linha branca, outro carro-chefe das exportações brasileiras, também está se contraindo.

Essas medidas protecionistas seriam prejudiciais não só para o Brasil, mas também para todos os países que comercializam com a Argentina e para a própria Argentina. Segundo Gregory Mankiw, existem alguns princípios básicos de economia (corrente liberal), tais como “as pessoas [especialmente agentes econômicos] reagem a incentivos” (p.7), “o comércio pode ser bom para todos” (p.9), “Os mercados são geralmente uma boa maneira de organizar a atividade econômica” (MANKIW, 2014, pp. 7, 9).

Esses princípios devem ser observados por tomadores de decisão na hora de criar e de implementar regras e medidas políticas e econômicas. Com a imposição de várias medidas tarifárias de caráter protecionista, a Casa Rosada está desestimulando empresários a importar bens de capital para investir em sua atividade produtiva. Ao invés de estimular a indústria nacional ao protegê-la, Kirchner dificulta importação de insumos necessários à produção de bens manufaturados e limita a possibilidade de escolha de consumidores. Isso, por sua vez, gera insatisfações por parte da população. Outras medidas empreendidas pela presidente – nacionalização de certas empresas – também geram incertezas para os investidores. Consequentemente, os investidores tendem a investir em países cujas economias mostram-se menos voláteis devido a políticas governamentais incertas e repentinas. Essa diminuição no fluxo de IEDs na Argentina faz com que haja menor quantidade de divisas, o que gera diversos outros problemas que agravam ainda mais a situação macroeconômica do país. Além de essas medidas afetarem negativamente as relações econômicas Brasil-Argentina, também geram indisposições e atritos no âmbito político-diplomático.

Em um cenário pessimista, a Argentina continuará a empreender tais medidas, o que levará o Brasil a questionar as atitudes de seu maior parceiro comercial. Os benefícios advindos da União Aduaneira imperfeita que é o MERCOSUL também poderão ser questionados e mal quistos pela sociedade brasileira em geral. A mídia brasileira, atualmente, já associa demissões e desaquecimento na atividade econômica nacional a fatores políticos internos (escândalos de corrupção, inflação, falta de investimentos em áreas prioritárias) e também externos (queda no preço das commodities no mercado internacional e crise na Argentina).

Em um cenário otimista, entretanto, a crise pela qual a Argentina passa atualmente seria algo contornável. No médio prazo, o país recuperar-se-ia, principalmente, com a ajuda de investimentos externos diretos e empréstimos provenientes majoritariamente da China. Recentemente, a Buenos Aires firmou acordos com Pequim para impulsionar investimentos chineses no país, bem como o comércio entre esses dois Estados. Essa intensificação das relações Argentina-China, por sua vez, traria o impulso necessário para nosso vizinho recuperar-se e, com sua saúde macroeconômica estabilizada, poderia voltar a comprar produtos brasileiros. Contudo, esses produtos “Made in Brasil” sofreriam maior concorrência com produtos chineses no mercado argentino. Isso, por sua vez, poderia estimular as empresas brasileiras a investir em seus produtos e a se tornar mais eficientes para, assim, ficarem mais competitivas ou expulsá-las do mercado argentino devido à falta de competitividade delas frente aos produtos “Made in China”. Caso este último caso ocorra, a indústria brasileira que exportava majoritariamente à Argentina terá de se realocar – realocar recursos humanos e produtivos – ou irá falir. Seja como for, a indústria de nosso país será forçada a buscar maior eficiência produtiva – inovações, etc -, o que beneficiará tanto consumidores brasileiros como argentinos.

Referências

  • KRUGMAN, Paul; OBSTFELD, Maurice; MELITZ, Marc. “International Economy – Theory and Policy.” Boston: Pearson, 2012.
  • MANKIW, Gregory (2014). “Introdução à Economia”. São Paulo: Editora Campus, 2001.
  • PALACIOS, Ariel (2014). “Exportação do Brasil para a Argentina cai 28% em novembro”. Disponível em [http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,exportacao-do-brasil-para-a-argentina-cai-28-em-novembro,1601641]. Acesso em 27/03/2015.
  • VEJA. “Exportação de automóveis para a Argentina cai 64% em janeiro”. Disponível em: [http://veja.abril.com.br/noticia/economia/exportacao-de-automoveis-para-argentina-cai-64-em-janeiro]. Acesso em 27/03/2015.
  • WATANABE, Marta; PEDROSO, Rodrigo. “Restrição argentina faz exportação cair 22%”. Disponível em [http://www.abipecs.org.br/index.php?mact=News,cntnt01,print,0&cntnt01articleid=507&cntnt01showtemplate=false&cntnt01returnid=99 ]. Acesso em 27/03/2015.

Laís Bueno Sachs é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (laisbuenosachs@gmail.com)

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