A trajetória da China contemporânea como paradigma para sua inserção internacional, por André Mendes Pini

A perenidade da civilização chinesa é traço marcante da formação de sua sociedade, e a compreensão acerca dos aspectos sociais, históricos e culturais que estabeleceram as condições para esse continuum  temporal e espacial tornam-se essenciais não somente para que se compreenda a inserção internacional chinesa no atual ordenamento internacional, como também para que se projete os impactos de um cenário futuro em que a China recupere as características que ostentou por séculos a fio, tanto de maior economia global quanto de civilização mais moderna do mundo.

Diferentemente da noção ocidental de Estado Nação, que remonta à herança da Paz de Westfália de 1648, as origens da China remontam ao século III a.C. e dão conta de um processo de unificação de uma sociedade já previamente estabelecida e bastante avançada, em torno do “Imperador Amarelo”. Este, apesar de ser o “mito fundador” do país, tem um papel claro no imaginário chinês enquanto a figura que restabeleceu a ordem de um país já existente e então mergulhado no caos, não sendo o responsável por fundar a nação em si. A China, ao longo de séculos de supremacia política e econômica, considerava-se o “Império do Meio”, responsável por governar “Tudo sob o céu” – T’ien Hsia – afirmando-se como uma civilização superior em termos culturais e militares, embora esse viés militar não tenha redundado em políticas agressivas perante os vizinhos ao longo de sua história.

O subsistema asiático apresenta historicamente poucos registros de guerras entre os Estados, assim como pouco ímpeto no envolvimento em corridas armamentistas, quando comparadas ao sistema europeu, em que “a combinação de capitalismo, militarismo e territorialismo criou as condições competitivas para dominação global” (ARRIGHI, 1998).  Isso explica a razão pela qual o desenvolvimento chinês não revelou comportamento expansionista ou revisionista, de modo que a prioridade foi a integração territorial (GOLDSTEIN, 2003). O sistema regional asiático “difere muito da ordem Westphaliana, pois não foi sustentado por lógicas de balança de poder, havendo uma igualdade informal, apesar de se configurar como um subsistema sinocêntrico” (PAUTASSO, 2011).

O “Império do Meio” foi a maior economia do mundo ao longo de 18 dos últimos 20 séculos, produzindo uma parcela do PIB mundial total maior do que todas as sociedades ocidentais somadas no período. Uma vez sendo a economia mais produtiva e a região de comércio mais populosa, a China possuía características autossuficientes, que redundaram em um autoisolamento perante o restante do mundo, em ciclos sucessivos de abertura e fechamento de sua sociedade, cujas consequências foram a consolidação da percepção das elites do país de que aquela não era somente uma “grande civilização”, mas a própria civilização (KISSINGER, 2012). Em decorrência de séculos de isolamento – consolidado principalmente a partir do século XVI, quando a China solidifica sua introspecção –  foi um processo que resultaria na decadência relativa do país, em relação ao Ocidente, a partir do século XIX.

A compreensão acerca dos fatores que balizaram a decadência da China entre o século XIX e meados do século XX é essencial para um entendimento aprofundado acerca do papel que o país poderá adotar uma vez que a ordem internacional volte a ter na China seu centro dinâmico, tendo em vista que, perante uma nação com mais de 24 séculos de história, esse interregno decadente pode ser interpretado apenas como um passo fora da cadência natural.

Para se analisar de maneira mais ampla a trajetória descendente chinesa, deve-se avaliar alguns aspectos estruturais, políticos e geográficos de sua sociedade. Em um período marcado pelo salto tecnológico propiciado pela primeira e segunda Revolução Industrial, a hipertrofia demográfica da China  gerou a necessidade de utilização extensiva da imensa mão de obra disponível em seu território, o que retardou a incorporação de processos industrializantes e avanços tecnológicos aos processos produtivos do país. Além disso, o Confucionismo desvalorizava a atividade comercial, que apenas vendia e comprava produtos, sem os produzir de fato, impossibilitando a ascensão de uma classe burguesa modernizante, em uma sociedade já dominada pelo tradicionalismo e conservadorismo de uma cultura milenar que não incentivava a inovação (FAIRBANK, 2006; LYRIO, 2010).

Outro fator a ser levado em conta perante a decadência chinesa no século XIX é a própria centralização precoce do Estado chinês, que apesar de ter garantido a ascensão do país precocemente, desestimulou a competição entre as regiões do país, desincentivando a inovação tecnológica , como ocorreria por exemplo na Europa, em que sua formatação balcanizada engendrava e incentivava a rivalidade e a competição entre as cidades-Estado, possibilitando, por exemplo, que Cristovão Colombo barganhasse apoio a seus projetos de navegação perante diversos monarcas, até receber o apoio espanhol (DIAMOND, 1999). Na China isso não seria possível, como de fato sucedeu com o Eunuco Zheng He, em 1433, que teve seu projeto marítimo desmantelado e foi proibido de dar continuidade às suas navegações por ordens expressas do Imperador chinês (KISSINGER, 2012).

Percebe-se, nesse sentido, que as características que compõem os grandes diferenciais da China – sua continentalidade, cultura conservadora e hipertrofia demográfica – podem ser encaradas tanto como virtudes quanto como desafios, podendo encaminhar o país ao desenvolvimento ou à estagnação. No século XIX essas particularidades tornaram a China atrasada com relação ao Ocidente, no entanto, o país adaptou-se ao novo ordenamento global e, principalmente a partir da década de 1970, sob a liderança de Deng Xiaoping, viabilizou uma inserção internacional capaz de tirar proveito de suas especificidades, de forma a estabelecer o país novamente enquanto um ator relevante nas relações internacionais.

A China contemporânea vem buscando o estabelecimento de uma sociedade “moderadamente próspera”, por meio de reformas capazes de promover o desenvolvimento econômico interno, com crescimento econômico e geração de empregos, garantindo estabilidade social em uma sociedade com direitos políticos restritos.  O desafio do país, nesse sentido, é diminuir as disparidades entre a China rural (correspondente ainda a 54%) e a China moderna, almejando consolidar a coesão nacional e diminuir as instabilidades políticas internas, advindas, em grande parte, devido à responsabilidade de integrar 22% da população mundial ao mundo moderno, sem que todo o sistema internacional entre em colapso (CUNHA, 2011).

A política externa chinesa passou a fortalecer sua atuação multilateral desde meados dos anos 1990, tornando-se mais assertiva e pragmática. Segundo Pautasso:

“A integração chinesa ao sistema internacional tem se dado de modo gradual desde a liderança de Deng Xiaoping e, consolidou-se especialmente após a Guerra Fria. Por isso, a China aderiu aos regimes de controle de armamentos; passou a envolver-se em operações de paz coordenadas pela ONU; apoiou 84% das resoluções do Conselho de Segurança da ONU abstendo-se das demais; realizou concessões substantivas a fim de ingressar na OMC; integrou o Banco Mundial e virou o maior tomador de créditos; assinou pactos voltados à defesa das instituições e direitos civis, entre outras ações (PAUTASSO, 2011).

Apesar da percepção chinesa acerca das assimetrias de poder do sistema internacional, o país percebeu que ao aderir aos regimes internacionais vigentes também poderia atuar no sentido de restringir a atuação do Ocidente e evitar seu isolamento, assim como equilibrar a ordem mundial, por meio da aproximação com outros países do Sul. Nesse sentido, “os contextos da transição sistêmica são caracterizados pelo rearranjo de forças no sistema internacional, o que se desdobra na abertura de espaços para países emergentes” (PAUTASSO, 2011).

Da mesma maneira que a ascensão da economia continental dos Estados Unidos da América moldou a história do século XX, arregimentando instituições internacionais a ela associadas, o mesmo processo na China também terá impactos notáveis no ordenamento mundial ao longo do século XXI (JABBOUR, 2010). Com efeito, “Se a transição sistêmica em curso e a ascensão chinesa são irrefreáveis, resta acompanhar e compreender como a ordem mundial vai adaptar-se à China e está irá moldá-la ao fornecer novas soluções sistêmicas” (ARRIGHI & SILVER, 2001).

A China “está experimentando a ampliação dos recursos de poder e da capacidade de contribuir para a gestão do sistema internacional, ao passo que se torna mais legítima para desempenhar um papel relevante na arena internacional” (HURRELL, 2009). Percebe-se, portanto, que a China, à medida em que se insere em âmbito regional, ao mesmo tempo se integra plenamente à economia global e aos regimes multilaterais internacionais, legitimada pelo aumento sucessivo de suas capacidades materiais. De acordo com Pautasso:

“Esse maior envolvimento na política e nos negócios internacionais vem acompanhado de uma maior autonomia na capacidade de formulação de sua estratégia internacional. Como mais evidente potência emergente, a China combina ações diplomáticas voltadas à preservação da estabilidade e à reforma do sistema internacional.[…] Paralelamente, o governo chinês atua para liderar os países do Sul, visando a mudanças e/ou resistência frente assimetrias da ordem mundial. O fato é que a China tem buscado um espaço próprio, reafirmando-se como alternativa ao Ocidente para os países periféricos, na medida em que defende um modelo de interação internacional baseado nos ganhos mútuos […]” (PAUTASSO, 2011).

Denota-se, portanto, que o pragmatismo da inserção internacional chinesa a permite beneficiar-se tanto da aceitação das normas e instituições tradicionais, formuladas pelo Ocidente, quanto dos modelos alternativos que vem propondo para o ordenamento internacional. De acordo com Ikenberry, a atual disposição da ordem global “favorece tanto a acomodação quanto limita a subversão da ordem existente” (IKENBERRY, 2010). Uma vez que Pautasso afirma que “Não interessa à China subverter a ordem mundial, justamente porque ela tem sido a grande beneficiada do status quo” e que “o que interessa ao país oriental é, sim, deslocá-la para ocupar uma posição que confira, a um só tempo, segurança e protagonismo”, pode-se compreender, como por exemplo, o papel que iniciativas como o Banco do BRICS e a Iniciativa Chiang Mai assumem perante a estratégia de inserção internacional chinesa nessa nova ordem internacional em transição.

Com efeito, a ascensão chinesa à condição de maior economia global – projetada pela The Economist para o ano de 2021 –  trará consigo, invariavelmente, elementos simbólicos e materiais que implicarão em um reordenamento das correlações de força no plano global. Embora o bom desempenho da economia de um país não implique, necessariamente, em uma posição de destaque no plano internacional, percebe-se que a configuração do ordenamento internacional atual vem sendo alterado na medida em que a China lidera as demandas dos países em desenvolvimento relativas a reformas das instituições internacionais, e que essas nações assumem posição de destaque no crescimento econômico global.

À guisa de conclusão, compreende-se que as características que tornam a China uma potência no plano internacional também correspondem a desafios, capazes de levar o país à decadência, como demonstrado ao longo do século XIX e meados do século XX. No entanto, o modelo atual chinês vem permitindo a retomada de sua trajetória de ascensão rumo ao papel de grande protagonista econômico mundial, e mesmo os desafios estruturais de seu crescimento não devem ser encarados como elementos capazes de frear a ascensão chinesa à condição de maior economia global nas próximas décadas.Essa tendência de superação do valor nominal do PIB da China com relação aos EUA já é realidade quando o escopo de análise se amplia para a apreciação da fatia que os países em desenvolvimento já representam perante a economia mundial. Os países emergentes já são responsáveis por taxas de crescimento e parcela do PIB global maiores que os tradicionais países desenvolvidos, isso sim podendo ser considerado como uma ruptura de tendências históricas.Nesse sentido, a China capitaliza os anseios emergentes por uma maior correspondência de sua trajetória ascendente no plano internacional, buscando não somente a reforma do ordenamento tradicional, de maneira a refletir melhor essa nova disposição do tabuleiro econômico global, como também exercendo protagonismo na constituição de instituições paralelas, formadas por países em desenvolvimento que buscam maior autonomia perante um ordenamento internacional mais democrático e multilateral.

Bibliografia

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  • BECARD, Danielly Silva Ramos. “O Que esperar das relações Brasil-China?”. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 105-130. Curitiba, 2011.
  • DIAMOND, Jared. Guns, Germs and Steel, the Fate of Human Societies. New York, W.W. Norton & Company, 1999.
  • FAIRBANK, John King. China: A New History. Cambridge, Harvard University Press, 2006
  • GOLDSTEIN, Avery. “China’s Emerging Grand Strategy: A neo-Bimarckian Turn?” International Relations Theory and the Asia-Pacific. New York: Columbia University, 2003.
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  • JABBOUR, Elias. Projeto nacional, desenvolvimento e socialismo de mercado na China de hoje. São Paulo. Tese (Doutorado em Geografia Humana). Universidade de São Paulo, 2010. Disponível em: [http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-18012011-103155/publico/2010_EliasMarcoKhalilJabbour.pdf]Acesso em: 28/10/2014.
  • KISSINGER, Henry. Sobre a China. Nova Iorque: Penguin, 2012.
  • LYRIO, Mauricio Carvalho. A Ascensão da China como potência: Fundamentos políticos internos. Brasília: Funag, 2010.
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  • RIBEIRO, Pedro Feliú ; JUNIOR, Haroldo Ramanzini. “As relações bilaterais Brasil-China: Uma relação em processo de afirmação”. Revista Carta Internacional, vol 8, nº 1. Brasília, 2013.
  • VADEL, Javier. A China na América do Sul e as implicações geopolíticas do Consenso do Pacífico. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 57-79. Curitiba, 2011.
  • VISENTINI, Paulo G. Fagundes. “A Novíssima China e o Sistema Internacional”. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 131-141. Curitiba, 2011.

André Mendes Pini é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário SENAC (andre.mpini@sp.senac.br)

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