Os significados da queda de Ramadi no Iraque, por Cláudio Júnior Damin

Ramadi caiu. Antes governada e protegida pelo governo do Iraque, agora faz parte do califado autoproclamado em junho de 2014 pelo grupo terrorista conhecido no Ocidente como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, em inglês). A Constituição e demais leis iraquianas deixaram de valer na cidade e seus arredores, com a sujeição da população local a uma interpretação dogmática da sharia, a lei islâmica, aplicada sem reservas pelos fighters do califa Abu Bakr al-Baghdadi.

O momento da captura de Ramadi pelos extremistas não poderia ser mais simbólico para o ISIL. Desde o último trimestre de 2014 a organização praticamente havia estagnado sua expansão territorial no Iraque em função do início dos ataques aéreos comandados pelos Estados Unidos. Outros países, já em 2015, se engajaram em campanhas aéreas contra posições do grupo na Síria e Líbia.

Além dessa ofensiva multinacional contra o crescimento da influência do ISIL no Oriente Médio, recentemente o grupo perdeu o controle da cidade de Tikrit – comandada pelos terroristas desde junho de 2014 -, capital da província de Salah-ad-Din, distante pouco menos de 200 quilômetros de Bagdá. Após uma renhida batalha opondo insurgentes do califado, forças de segurança iraquianas, milícias xiitas ligadas ao Irã e poder aéreo norte-americano, a cidade natal do ex-ditador Saddam Hussein foi retomada no início do mês de abril.

Mais recentemente notícias deram conta de que o califa do autoproclamado Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, teria sido seriamente ferido em um ataque aéreo em março. Segmentos da imprensa europeia chegaram a noticiar até mesmo o nome do sucessor de Baghdadi em função de sua suposta morte. Os serviços de inteligência norte-americanos, por sua vez, não confirmaram a morte do califa. Em meados de maio o ISIL publicou na internet um áudio de seu líder máximo tratando de temas atuais, tais como a ofensiva militar da Arábia Saudita no Iêmen. A morte do califa seria, para o Estado Islâmico, uma perda simbólica das maiores, uma vez que ele próprio se diz descendente do profeta Maomé e, em função disso, se dedica a estabelecer a união universal dos muçulmanos ao redor do mundo através da imposição do califado.

Já o Departamento de Defesa norte-americano confirmou, no dia 16 de maio, que sob ordens do presidente Barack Obama (investido no poder de comandante-em-chefe), forças de operações especiais dos Estados Unidos mataram um graduado líder do ISIL conhecido como Abu Sayyaf em al-Amir, na Síria (DEPARTMENT OF DEFENSE, 2015). Uma das estratégias dos Estados Unidos tem sido a de neutralizar o chamado “gabinete” do califado, ou seja, seus dirigentes mais importantes.

Note-se que toda essa conjuntura indicaria um enfraquecimento relativo do ISIL na região, uma vez que perdera territórios antes conquistados e, também, viu-se na iminência de perder importantes dirigentes. É, pois, justamente nesse contexto que a tomada de Ramadi se torna emblemática, um ganho providencial para o ISIL.

Do ponto de vista intragrupal, o controle de uma grande cidade iraquiana pelo ISIL mostra sua capacidade de organização e também suas condições materiais e militares para tomar terrenos no chamado “cinturão de Bagdá”. A mensagem para os seus militantes já convertidos é a de que a edificação de um Estado Islâmico avança a partir da erosão dos governos nacionais do Oriente Médio e a despeito de reveses recentes.

Para o público externo, por exemplo, a comunidade internacional, a conquista de Ramadi produziu uma grande repercussão, uma vez que atestou a incapacidade de as forças iraquianas controlarem uma grande cidade próxima à Bagdá por si só. Reforçou, por outro lado, o sentido de urgência na ameaça representada pelos extremistas do ISIL.

Adicionalmente a essas questões, o fato de o avanço territorial ocorrido nos últimos dias ter dominado o noticiário internacional poderá servir como um gatilho para que o recrutamento de jovens – ocidentais e orientais – tenha continuidade. Ramadi poderá se transformar na grande vitrine para os combatentes do Estado Islâmico e especialmente por projetar-se uma ofensiva militar oficial iraquiana contra a insurgência a fim de reconquistar a cidade.

Ramadi, vale destacar, é a capital da província de Anbar com uma população estimada de 375 mil pessoas ( em 2011). Anbar é uma província com importância singular na história do Iraque pós-Saddam Hussein, pois foi ali que a insurgência contra as forças anglo-americanas tomou uma grande proporção a partir da liderança de Abu Musab al-Zarqawi e seu grupo chamado de Al-Qaeda no Iraque (o antecessor do ISIL).

A província sempre foi estratégica para os grupos insurgentes, uma vez que possui infraestrutura capaz de fornecer canais logísticos e linhas de comunicação para ataques terroristas em Bagdá. Ao mesmo tempo em que a Al-Qaeda no Iraque conseguiu se estabelecer na província, foi nela que os insurgentes começaram a ser derrotados já em meados de 2006 a partir do que se convencionou chamar de Despertar Sunita (AL-JABOURI, 2010). Os líderes tribais locais – sheiks – se voltaram contra as práticas sectárias dos líderes da Al-Qaeda no Iraque e forjaram alianças com as forças armadas norte-americanas em um esforço mútuo para expelir os radicais de seus territórios. Essa estratégia bem sucedida de proximidade dos militares da coalizão com os líderes sunitas locais em Anbar foi, logo após, reproduzida em outras províncias e resultou na diminuição do número de militares e civis mortos no Iraque a partir de meados de 2007.

Segundo o mapa de controle das principais cidades iraquianas do Institute for the Study of War (atualizado em 22 de maio), o ISIL já controla, na província de Anbar, os municípios de Rutba, Qaim, Ana, Hit e agora Ramadi (ISW, 2015). Além desses territórios, o grupo já tem sedimentado o controle de outra importante cidade, Faluja, 70 quilômetros distante de Bagdá e controlada pelos extremistas desde janeiro de 2014. A ofensiva militar lançada pelo ISIL contra as forças de segurança iraquianas em Ramadi indica que o objetivo dos insurgentes, assim como no passado recente, continua sendo o de sitiar Bagdá a partir do domínio de suas províncias limítrofes. O próprio califa fez conhecer, em uma comunicação oficial do ISIL, que “depois de Ramadi, virá Bagdá e Karbala” (RAI NEWS, 2015, p.1, tradução nossa).

Kagan & Kagan (2015, p. 1, tradução nossa) sentenciaram, em artigo no The Washington Post, que “a queda de Ramadi era evitável”. A julgar pelos acontecimentos recentes na província iraquiana de Anbar, a tomada de sua capital talvez pudesse mesmo ter sido evitada.

Martin, Casagrande & McFate (2015, p. 4, tradução nossa) salientam que desde janeiro de 2014 as forças insurgentes do ISIL contestavam o controle de Ramadi por parte das forças iraquianas de segurança. Os ataques contra a cidade, naquele então, foram incapazes de fazê-la capitular diante dos milicianos do califado – Faluja, no entanto, não teve a mesma sorte. “O ISIL tentou capturar Ramadi como parte de uma estratégia controlar toda a província de Anbar”, salientam os analistas. Em meados de abril de 2015 os extremistas retomaram a tentativa de conquista da capital da província, atacando prédios do governo e estruturas militares nos dias 10 de 14 do referido mês. O maior ataque aconteceria no dia 15 de maio, um mês após o reinício da ofensiva. E no dia 17 de maio o porta-voz do governador de Anbar noticiava que a cidade havia sido dominada pelos extremistas (AL JAZEERA, 2015b).

Imran Khan (2015), correspondente da rede de notícias árabe Al Jazeera, no final de abril, escreveu em seu blog uma análise particularmente importante intitulada “Se Ramadi cair”. No texto o jornalista chama a atenção para os ataques do ISIL na província de Anbar e, em particular, nas redondezas de Ramadi. Ele revelava certa preocupação pelo fato de os extremistas estarem encontrando simpatizantes na província, o que seria ameaçador para a soberania ainda exercida pelo governo iraquiano na região. Khan (2015, p. 1, tradução nossa) enfatizava que a cidade se mantinha ainda “resiliente”, mas que uma possível perda da cidade para o ISIL poderia significar “uma emblemática derrota para o Iraque”, uma vez que Ramadi seria, na acepção dada por um diplomata iraquiano, “o coração de Anbar” e se o coração para de funcionar o corpo todo perece.

A queda de Ramadi demonstra que as forças de segurança iraquianas têm se mostrado ineficientes para manter a integridade territorial do país e a soberania do governo de Bagdá sobre todas as províncias do país. Hoje o governo é dependente da ajuda de milícias xiitas apoiadas por Teerã e do poder aéreo dos Estados Unidos. O problema, conforme se pode verificar na ofensiva para retomar Tikrit, é que há uma ampla desconfiança entre ambos os lados com, por exemplo, os milicianos xiitas se colocando frontalmente contra qualquer intervenção/ajuda norte-americana para retomar territórios perdidos. O histórico indica, no entanto, que “nem o Estado Islâmico nem qualquer outra ramificação da Al-Qaeda tomou alguma vez uma grande área urbana ativamente defendida pelos Estados Unidos, em parceria com as forças locais” (KAGAN & KAGAN, 2015, p. 1, tradução nossa).

O day after da queda de Ramadi serviu, uma vez mais, para demonstrar como a heterogeneidade da sociedade iraquiana dificulta o exercício de capacidades estatais plenas por parte de Bagdá. Tomada pelo ISIL no domingo (17/05), já na segunda-feira 3 mil milicianos xiitas se concentravam nas redondezas de Ramadi para retomá-la. Secretário-geral do Conselho de Anbar, Tarik al-Abdullah, em entrevista à Al Jazeera, declarou que esses combatentes xiitas “não eram bem vindos” – era preciso, pois, “apoio do governo” (AL JAZEERA, 2015a, p. 1, tradução nossa). Esse veto de um líder regional sunita à utilização de milícias xiitas na reconquista de Ramadi é, pois, significativo das restritas opções de diálogo e alianças que se apresentam atualmente no Iraque. Frise-se, além disso, que o governo iraniano (país de maioria xiita) se colocou à disposição do governo do Iraque para ajudar a expelir o ISIL de Anbar. Bastava, para tanto, um pedido oficial de assistência (ele seria, pois, extremamente mal recebido pelo governo dos Estados Unidos que tenta limitar a influência do regime dos aiatolás no governo e na sociedade iraquiana).

O fato é que surge, agora, uma demanda urgente ao governo iraquiano: retomar Ramadi. Deixar sua população e território à mercê dos combatentes do ISIL significa incrementar o risco de colapso da capital do país com um possível crescimento de atos terroristas na região metropolitana de Bagdá. Além disso, a ofensiva para reconquistar a cidade de Mosul ao Norte e que segundo fontes militares poderia ocorrer ainda neste ano, tende a ser prejudicada por essa nova emergência que se abate sobre o governo iraquiano.

A reconstrução da soberania territorial do governo iraquiano tende a passar por um maior apoio das forças armadas norte-americanas. Parece ser cada vez mais iminente – em função das necessidades de se combater um inimigo que se mostra extremamente existente – o envio de contingentes militares terrestres ao Iraque. O presidente Barack Obama, desde fevereiro, tenta, sem sucesso, fazer aprovar uma autorização para que possa enviar tropas ao Iraque para atuar em ações beligerantes limitadas. Até o momento o Congresso não deu mostras de que poderá anuir com uma medida desse tipo. Republicanos e democratas não concordam nos termos e na intensidade de uma possível participação dos Estados Unidos na nova guerra civil que se apresenta no Iraque.

Ramadi já caiu. Na toada atual devemos nos perguntar: qual será a próxima cidade a se submeter involuntariamente ao julgo do Estado Islâmico? Na Síria, por exemplo, ele já controla 50% do território (SHAHEEN, 2015). O ISIL não deve, pois, ser subestimado. Ele não é um simples grupo terrorista, mas sim uma complexa organização insurgente com exército próprio e pretensões territoriais que, deixada a agir livremente, poderá colapsar o Oriente Médio.

Referências

  • AL JAZEERA. ISIL seizes control of Iraq’s Ramadi. Al Jazeera, May 18 2015b. Disponível em: http://www.aljazeera.com/news/2015/05/isil-overruns-iraqi-holdout-ramadi-150517142811552.html. Acesso em: 20/maio/2015.
  • AL JAZEERA. Thousands flee as Shia militias mass outside Ramadi. Al Jazeera, May 19 2015a. Disponível em: http://www.aljazeera.com/news/2015/05/thousands-flee-shia-militias-mass-ramadi-150519043255874.html. Acesso em: 20/maio/2015.
  • AL-JABOURI, Najim Abed; JENSEN, Sterling. The Iraqi and AQI roles in the Sunni Awakening. Prism, v. 2, p. 3-18, 2010.
  • DEPARTMENT OF DEFENSE. Statement by Secretary of Defense Ash Carter on Counter-ISIL Operation in Syria. Department of Defense, May 16 2015. Disponível em: http://www.defense.gov/Releases/Release.aspx?ReleaseID=17274. Acesso em: 20/maio/2015.
  • ISW. Control of Terrain in Iraq: May 22, 2015. Institute of Study of War, 2015. Disponível em: http://www.understandingwar.org/backgrounder/control-terrain-iraq-may-22-2015. Acesso em: 23/maio/2015.
  • KAGAN, Kimberly; KAGAN, Frederick W. The fall of Ramadi was avoidable. The Washington Post, May 18 2015. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/opinions/the-fall-of-ramadi-was-avoidable/2015/05/18/37bb2df6-fd6e-11e4-833c-a2de05b6b2a4_story.html. Acesso em: 20/maio/2015.
  • KHAN, Imran. Blog: If Ramadi falls. Al Jazeera, Apr 25 2015.  Disponível em: http://www.aljazeera.com/blogs/middleeast/2015/04/ramadi-falls-150425100900554.html. Acesso em: 20/maio/2015.
  • MARTIN, Patrick; CASAGRANDE, Genevieve; MCFATE, Jessica Lewis. ISIS Captures Ramadi. Institute for the Study of War, May 18 2015. Disponível em: http://understandingwar.org/sites/default/files/ISIS%20Captures%20Ramadi%20–%20May%202015.pdf. Acesso em: 20/maio/2015.
  • RAI NEWS. Baghdadi: “Dopo ramadi libereremo baghdad e karbala”. Pioggia di razzi dell’ISIS su Palmira. Rai News, 18 maggio, 2015. Disponível em: http://www.rainews.it/dl/rainews/articoli/Baghdadi-Dopo-Ramadi-libereremo-Baghdad-e-Karbala-Pioggia-di-razzi-dellIsis-su-Palmira-238240a6-0759-41b0-8cd5-8e5265e4b2f4.html. Acesso em: 20/maio/2015.
  • SHAHEEN, Kareem. Isis ‘controls 50% of Syria’ after seizing historic city of Palmyra. The Guardian, May 21 2015. Disponível em: http://www.theguardian.com/world/2015/may/21/isis-palmyra-syria-islamic-state. Acesso em: 20/maio/2015.

Cláudio Júnior Damin é professor adjunto de Ciência Política na Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA (superdamin@bol.com.br)

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