Um grande bode na sala ou conceitos por contrabando?, por Fernando Horta

O campo de estudo das Relações Internacionais é inegavelmente novo. Poucos ainda são os pesquisadores que, no Brasil, produzem conhecimento e ainda menor são as críticas sobre esse conhecimento produzido (PINHEIRO e MILANI, 2011, p. 19). Existem inúmeras lacunas na produção (especialmente de História das Relações Internacionais) o que, de fato, se torna um convite às gerações mais novas. Esse convite, entretanto, vem com algumas letras miúdas explicando que existem “cânones” nesta área os quais – especialmente no Brasil – não são espaços para críticas. São como “bodes” amarrados numa sala de estar, trazem desconforto a quem criticamente procura entender a história desse país. Conceitos que são forjados ou por evidentes interesses burocrático-institucionais (PINHEIRO e VEDOVELI, 2012), ou por pesquisadores cuja produção e importância são tão evidentes que o peso de suas visões acaba por chancelar uma cientificidade “por contrabando”. Pisando nesse terreno minado é possível apontar vários conceitos ou com fraca capacidade explicativa (seguindo aqui a conhecida crítica de Giovanni Sartori (SARTORI, 1970)), com insuficiente trabalho delimitativo (KING, KEOHANE e VERBA, 1994) ou ainda com evidente endogenia formativa (GEDDES, 1990, p. 133). Conceitos como “interesse nacional”, “diplomacia presidencial”, “poder”, “identidade nacional”, “democracia racial”, por exemplo, estão dentro desse grupo.

Segundo, por exemplo, Celso Lafer, o Brasil teria uma “identidade internacional” “(…) que oferece(m) indispensáveis elementos para explicar, de forma mais abrangente, iniciativas, gestos e decisões governamentais” (LAFER, 2001, p. 20). Ainda segundo Lafer, para a construção desta identidade “muito contribuiu a ação contínua no tempo” do Ministério das Relações Exteriores (MRE) que:

(…) logrou afirmar-se, no correr da história brasileira, como instituição permanente da nação, apta a representar os seus interesses, porque dotado de autoridade e de memória. A consciência da memória de uma tradição diplomática – a existência dos antecedentes, na linguagem burocrática – confere à política externa brasileira a coerência que deriva do amálgama das linhas de continuidade com as de inovação, numa “obra aberta” voltada para construir o futuro através da asserção da identidade internacional do país. (LAFER, 2001, p. 20-21)

Não cabe aqui fazer a crítica do livro de Lafer que recupera uma linha de pensamento nacional absolutamente elitista (PINHEIRO e VEDOVELI, 2012, p. 218-219) e ufanista iniciando com Camões, passando por José Bonifácio e indo até o Barão do Rio Branco. Reificando as superadas teses da “amálgama de um corpo sólido e político” cujo metal formador era o “heterogêneo de brancos, índios e mulatos, pretos livres e escravos” (LAFER, 2001, p. 38) e citando várias vezes a ideia de que “território e governo só têm significado, num estado-nação, em função de seu povo” (Ibidem). De fato, nem mesmo o “povo” (LIMA, 2000, p. 291) como categoria imagética e, portanto, abstrata, é parte importante na definição de Lafer que afirma, contudo, falar de uma “identidade nacional”. Esta reificação atinge o auge ao falar das negociações empreendidas pelo Barão do Rio Branco sobre as fronteiras para quem, citando Ricupero, houve um “uso legítimo, não violento, do poder” (LAFER, 2001, p. 44).

A envergadura da obra diplomática de Rio Branco é indiscutível. Como avalia Rubens Ricupero, é difícil encontrar, na história das relações internacionais, um desempenho negociador e um padrão exclusivamente pacífico, próximo do brasileiro, na fixação de fronteiras nacionais. (LAFER, 2001, p. 43-44) grifo nosso

Lafer reforça uma criação discursiva feita pelo Itamaraty e incorporada pela historiografia das Relações Internacionais a respeito do “pacifismo” do Brasil. Já em Lafer é ignorada a noção de que “violência” não é algo necessariamente físico e que o uso “legítimo” do poder só pode assim ser afirmado por quem sofre a ação e não por quem a efetua. O pacifismo de Rio Branco tinha um limite claro, como é mostrado por Moniz Bandeira (BANDEIRA, 2000). O uso “legítimo” do poder foi sim bastante violento com o deslocamento de militares brasileiros para as fronteiras com a Bolívia tanto no Acre como no Mato Grosso, além de reforços em Manaus (BANDEIRA, 2000, p. 158).

Se no campo institucional esse discurso é repetido à exaustão, a Academia também não deixa de dar sua contribuição. Amado Cervo e Clodoaldo Bueno, afirmam que “Na história do Brasil, após o rompimento com Portugal em 1822, a política exterior serviu internacionalmente à paz entre os povos (…)” (CERVO e BUENO, 2008, p. 11). Cervo, em outra obra, é ainda mais transparente:

Uma visão de mundo cooperativo entre países desenvolvidos e aspirantes irá perpetuar-se como viga mestra do pensamento brasileiro aplicado às relações internacionais. (…) Contribuíram para formar o acumulado histórico da diplomacia brasileira as seguintes diretrizes: cooperativa e não-confrontacionista, universalista, pacifista, zelosa pela soberania em razão do papel indutor do Estado e da necessidade de planejar o desenvolvimento.” (CERVO, 2008, p. 19) grifo nosso.

A ideia do “pacifismo” também encontra eco (embora de forma mais contida) nos escritos de outros analistas. Maria Regina Lima, por exemplo, afirma que parte das “orientações substantivas das políticas internacionais do país” tem a ver com a ideia de “país geopoliticamente satisfeito” uma vez que “o processo de construção do Estado brasileiro foi realizado antes, pelo recurso à negociação diplomática do que pela guerra” (LIMA, 2005, p. 4). É evidente que o alcance cognitivo do termo “pacifismo” em Cervo é muito mais abrangente do que a constatação empírica de Lima, entretanto, ambos os discursos cooperam para a formação da ideia de “pacifismo”.

Pinheiro segue pela mesma senda ao afirmar que uma das “tradições” do Itamaraty seria o princípio da não-intervenção, além do pacifismo:

Além disso, a nova proposta de inserção internacional do país iria buscar na tradição do Itamaraty outros fundamentos importantes: o princípio da não-intervenção e da autodeterminação dos povos, a tese da igualdade jurídica das nações, a fidelidade às normas de solução pacífica de controvérsias etc. (PINHEIRO, 2004, p. 35) grifo nosso

Denota-se que, ainda que com diferentes graus de adesão, a tese do pacifismo brasileiro é repercutida tanto em meios institucionais quanto por diversos acadêmicos. Há, entretanto, três objeções centrais a essa tese: (1) a primeira, de caráter histórico, surge quando empiricamente se verifica que o Brasil está inserido num contexto geopolítico de estabilidade, (2) a segunda é de caráter político afirma que não há verdadeiramente uma escolha, por parte do Brasil, por não exercitar o Hard Power simplesmente porque o país não dispõe destes meios. A terceira objeção surge quando se verifica que, mesmo sem dispor dos meios de ação por intermédio da força (3) o Brasil usou sim da força para intervir direta e indiretamente na política dos seus vizinhos.

Assim, deve-se perguntar se o suposto “pacifismo” brasileiro não seria tão somente uma condição histórica da própria região da América do Sul que é de uma “relativa paz autoritária” segundo Lima (LIMA, 2000, p. 268). Fruto não de uma postura brasileira, mas existente apesar da postura brasileira, se analisarmos as várias intervenções brasileiras em seus vizinhos. No tocante à segunda objeção, Pinheiro afirma a predominância de um pensamento realista nas relações internacionais brasileiras (PINHEIRO, 2004, p. 8) o que remete a um cálculo racional das “forças relativas” segundo Morgenthau (MORGENTHAU, 2003, p. 386) ou das “capacidades” usando-se os termos de Waltz (WALTZ, 1979, p. 97-98). Sendo assim, não há verdadeiramente uma escolha no pacifismo senão uma conformidade a partir da avaliação racional da relação entre meios e fins.

A objeção mais evidente, entretanto, é a empírica. Afirmar um pacifismo e uma “não intervenção” por parte do Brasil é esquecer das Questões Platinas contra Oribe e Rosas em 1851 e 1852 respectivamente, e aceitar a tese da “agressão de Solano Lopez” na Guerra do Paraguai (1864-1870). Dentro do período da República o argumento do pacifismo merece, ao menos, muitas reservas. Afora o caso das tropas prontas na fronteira com a Bolívia no caso do Acre (acima mencionado), ainda temos a invasão brasileira à República Dominicana em 1965 em conjunto com tropas americanas, as intervenções sobre a política interna do Paraguai durante o Governo FHC (1996, 1999 e 2001) e a própria MINUSTAH durante o governo Lula. Pode-se argumentar que as interferências brasileiras são autorizadas pela ONU e pela OEA o que, entretanto, não retira o caráter de intervenção.

Por fim, o momento dos 50 anos da invasão brasileira de Castello Branco, Juracy Magalhães e o General Meira Mattos à República Dominicana é um excelente momento para repensarmos se o “pacifismo” da política externa brasileira não é uma construção discursiva com ares de cientificidade. Pode-se não reconhecer os episódios intervencionistas brasileiros na América do Sul desde o século XIX e sentar-se na sala para tomar café, apesar do bode ali amarrado.

Referências

  • BANDEIRA, L. A. M. O Barão de Rothschild e a questão do Acre. RBPI, v. 43 (2), p. 150-168, 2000.
  • CERVO, A. Inserção Internacional: Formação dos Conceitos Brasileiros. São Paulo: Saraiva, 2008.
  • CERVO, A. L.; BUENO, C. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: UNB, 2008.
  • GEDDES, B. How the cases you choose affect the answers you get: Selection Bias in Comparative Politics. Political Analysis, v. 2, n. 1, p. 131-150, 1990.
  • KING, G.; KEOHANE, R.; VERBA, S. Designing social Inquiry: scientific inference in qualitative research. Princeton: Princeton University Press, 1994.
  • LAFER, C. A Identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: Passado, presente e futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.
  • LIMA, M. R. Instituições Democráticas e Política Exterior. Contexto Internacional, v. 22/2, p. 265-303, julho/dezembro 2000.
  • LIMA, M. R. S. D. A Política externa brasileira e os desafios da cooperação Sul-Sul. RBPI, v. 48/1, p. 24-59, 2005.
  • MORGENTHAU, H. A política entre as nações. Brasília: UNB, 2003.
  • PINHEIRO, L. Política Externa Brasileira: Descobrindo o Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
  • PINHEIRO, L.; MILANI, C. Política Externa Brasileira: a política das práticas e as práticas da política. Rio de Janeiro: FGV, 2011.
  • PINHEIRO, L.; VEDOVELI, P. Caminhos Cruzados: Diplomatas e acadêmicos na construção do Campo de Estudos de Política Externa Brasileira. Política Hoje, v. 21/1, 2012.
  • SARTORI, G. Concept Misformation in Comparative Politics. The American Political Schience Review, v. 64 n.4, p. 1033-1053, Dezembro 1970.
  • WALTZ, K. Theory of International Politics. Berkeley: Addison-Wesley, 1979.

[1] Referência ao livro “A festa do Bode” de Mario Vargas Llosa sobre Leônidas Trujillo ex-ditador da República Dominicana.

Luiz Fernando  Horta é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (moonbladers@gmail.com)

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