Resenha de “Is the American Century Over?”, de Joseph S. Nye Jr, por Gustavo Mendonça

image_pdfimage_print

A ordem internacional experimenta um período de turbulência e transformações. Os recursos de poder da China e de outros países emergentes têm crescido rapidamente, enquanto revezes econômicos persistentes – e, em muitos casos, problemas demográficos crônicos – acometem as potências tradicionais. À medida que a distribuição de poder no sistema internacional se desloca do Atlântico Norte para o Pacífico, um amplo debate sobre a resiliência da hegemonia norte-americana tem se intensificado na disciplina das Relações Internacionais e junto ao público em geral. Diversas obras que oferecem uma pletora de prognósticos para a Superpotência norte-americana são publicadas anualmente, muitas delas sem rigor científico ou objetividade analítica.

“Is the American Century Over?” é a contribuição mais recente de Joseph Nye para o debate sobre o declínio dos Estados Unidos. Segundo o autor, a ideia de “declínio norte-americano“ envolve duas facetas complementares. A primeira, que o autor define como declínio relativo, envolve o crescimento do poder de outras potências que eventualmente contestarão de forma contundente o papel hegemônico dos Estados Unidos no sistema internacional. A segunda face, o declínio absoluto, está relacionada com a deterioração das instituições políticas e com o decaimento moral da cultural norte-americana. Na primeira faceta, o declínio norte-americano se assemelha ao declínio do Império Britânico, substituído por rivais mais poderosos e dinâmicos. No contexto da segunda faceta, o fim do Império Norte-Americano é análogo à queda de Roma, que implodiu devido aos seus próprios problemas domésticos.

Antes de avaliar potenciais nações capazes de desafiar a supremacia norte-americana, Nye define que o poder de uma nação tem três dimensões: coerção (poder militar), suborno (poder econômico) e atração (cultura, valores políticos e uma política externa percebida como legítima). As duas primeiras dimensões compõem o Hard Power, enquanto a última equivale ao Soft Power, conceito central na carreira acadêmica de Nye. Além de grandes estoques de Hard Power e Soft Power, uma superpotência deve ser capaz de transformar esses recursos de poder potenciais em ações, habilidade que Nye define como Capacidade de Conversão de Poder.

Como o objetivo de testar a hipótese do declínio relativo norte-americano, Nye utiliza a definição de poder proposta acima para identificar quais potências seriam capazes de desafiar a hegemonia dos Estados Unidos. Segundo o autor, a União Européia tem uma baixa capacidade de conversão de poder (os países-membros nem sempre agem como uma unidade), problemas demográficos e pouco dinamismo econômico. O Japão vive um prolongado período de estagnação econômica e é acometido por uma baixa taxa de natalidade. A Rússia também experimenta um grave declínio em sua população, possui uma economia excessivamente dependente da indústria petroquímica e enfrenta uma prevalência crônica de corrupção. Índia e Brasil, não obstante notáveis avanços econômicos, concentram seus recursos escassos na superação da pobreza e na busca pelo desenvolvimento. Sem muita margem para assertividade internacional. Nenhum dos cinco atores seria capazes de suplantar os Estados Unidos em um futuro próximo, ainda que algums deles tenham experimentados significativos ganhos de poder recentemente.

Apenas a China é um candidato viável para encerrar o século norte-americano. Segundo Nye, no entanto, a China se compara desfavoravelmente com os Estados Unidos em todas as três dimensões de poder. Embora a China possua a segunda maior economia do mundo, a indústria chinesa ainda é pouco sofisticada, a renda per capita chinesa é apenas um quinto da renda norte-americana, o dólar ainda é a principal moeda internacional e o setor de serviços da China tem limitada competitividade internacional. No campo militar, o orçamento militar norte-americano é três vezes superior ao chinês. Os Estados Unidos também possuem um estoque de equipamento bélico moderno dez vezes superior ao arsenal chinês. Ademais, a China não possui bases militares internacionais e tem muito menos alianças estratégias do que os Estados Unidos. Finalmente, os recursos de Soft Power chineses também são inferiores ao poder de atração dos Estados Unidos, uma vez que o sistema autárquico e o capitalismo de Estados vigentes na China têm pouco apelo internacional e a censura limita a expressão artística dos chineses. Em síntese, Nye pondera que a assimetria de poder entre os Estados Unidos e a China está, de fato, diminuindo, mas os recursos de poder norte-americanos são tão vultosos que permitirão a manutenção da hegemonia dos Estados Unidos por mais algumas décadas.

Descartada a hipótese do declínio relativo, Nye aborda a questão da deterioração doméstica do Império Norte-Americano. A obra argumenta que a crise econômica de 2008 e a crescente polarização política solaparam a confiança dos norte-americanos nas instituições de seu país. O paralelo com a profligação romana, no entanto, não é adequado. Embora a economia norte-americana tenha perdido dinamismo, está longe de experimentar uma estagnação análoga à japonesa. O sistema produtivo norte-americano ainda é o mais inovador, catalisado pelos maiores gastos mundiais com pesquisa e desenvolvimento, o melhor sistema educacional superior e laços próximos entre universidades privadas e empresas. O sistema político norte-americano também enfrenta problemas, em última análise, contornáveis. Embora a polarização política tenha se intensificado, o Congresso Norte-Americano não foi esclerosado por disputas ideológicas. Iniciativas legislativas polêmicas, como o estímulo fiscal e a reforma no sistema público de saúde, eventualmente foram aprovadas, não obstante conflitos partidários. Nye também avalia que outros problemas norte-americanos (como a desigualdade econômica crescente e fraco desempenho do sistema educacional de base) são relevantes, mas mitigáveis. Em resumo, embora os Estados Unidos enfrentem óbices sérios, eles não ensejam uma respostas negativa para a pergunta-título do livro.

O capítulo final de “Is the American Century Over?” avalia que investigar a crescente complexidade da política internacional no século XXI é tão importante quanto observar a transição de poder entre as potências. Nye observa que a globalização e a revolução na tecnologia da informação estão erodindo o poder do estado-nação. Nesse sentido, o autor retoma a imagem clássica das relações internacionais como um tabuleiro de xadrez de três níveis: o militar (dominado pelos Estados Unidos), o econômico (multipolar) e o transnacional (sem hierarquia, marcado pela prevalência de redes e atores não-estatais). Nesse contexto de alta complexidade, a cooperação entre as potências internacionais é muito relevante, uma vez que vários problemas comuns – como o terrorismo, o aquecimento global e a livre navegação dos mares – não podem ser resolvidos por nenhuma nação isoladamente. Dada a necessidade de cooperação, o autor avalia que o papel de liderança dos Estados Unidos será cada vez mais relevante, uma vez que nenhuma nação possui tanta legitimidade para formar coalizões.

No contexto do debate sobre o declínio dos Estados Unidos, “Is the American Century Over?” se posiciona na corrente anti-declinista (MENDONÇA, 2013: 245). Nye avalia que, ainda que os Estados Unidos tenha realmente perdido algum poder relativo, o obituário da Pax Americana ainda não pode ser escrito. A análise de Nye – e a corrente anti-declinista de maneira geral – é passível de várias críticas metodológicas. Quando analisa o Soft Power chinês, por exemplo, Nye tem uma perspectiva excessivamente ocidental (STUENKEL, 2015: 2), ignorando o fato que a cultura e os valores chineses têm grande difusão na Ásia. Ao questionar a estabilidade do Partido Comunista Chinês, Nye não considera que a cultura política da China é muito diferente da norte-americana e que os chineses simplesmente não demandam liberdades individuais da mesma forma que os ocidentais (JACQUES, 2012: 574). Além disso, a visão do autor sobre a ausência de alianças chinesas é estática, desconsidera que a china poderá atrair um número cada vez maior de aliados para sua esfera de influência à medida que sua expansão econômica continua.

“Is the American Century Over?” tampouco é uma obra marcada pela originalidade. O livro funciona como uma coletânea de argumentos que Nye apresentou em outras obras, algumas das quais publicadas há mais de vinte anos. “Bound to Lead”, de 1990, foi a primeira obra de Nye a abordar de forma mais profunda o declínio dos Estados Unidos. Nela, o autor refuta o declínio relativo e a deterioração absoluta com praticamente os mesmo argumentos apresentados em “Is the American Century Over?” (NYE, 1990: 8). Em “The Paradox of American Power”, de 2002, Nye comparou os recursos de poder dos Estados Unidos com a capacidade relativa de outras potências, chegando às mesma conclusões apresentadas em sua obra mais recente. Nessa oportunidade, o autor destacou que a primazia norte-americana tem limites claros, ensejados pela globalização e pela interdependência, um dos pontos centrais de “Is the American Century Over?” (NYE, 2002: 40). Finalmente, “The Future of Power”, de 2011, também aborda a resiliência da hegemonia norte-americana, embora apresente conceitos novos, como smart power (NYE, 2011: 28). Nesse sentido, “Is the American Century Over?” é mais útil para estudantes que buscam uma introdução ao pensamento de Joseph Nye do que para acadêmicos que buscam novas perspectivas sobre o fluxo de poder contemporâneo.

Sem embargo das críticas acima, “Is the American Century Over?” é uma obra bastante recomendável. Em primeiro lugar, como exposto anteriormente, o livro funciona como um resumo do pensamento de um dos autores mais relevantes das Relações Internacionais. Em segundo lugar, as observações de Nye sobre os limites da hegemonia norte-americana e sobre o futuro das relações internacionais são esclarecedoras, ainda que já tenham sido apresentadas anteriormente.  Em terceiro lugar, ”Is the American Century Over?” chama atenção para o foco excessivo que a disciplina das Relações Internacionais reserva à hierarquia de poder internacional. Em outras palavras, “o século americano acabou?” pode ser uma pergunta menos relevante do que “como as relações internacionais estão mudando no século XXI?”.

Referências

  • JAQUES, Martin. When China Rules the World. Nova York: Penguin Press, 2012.
  • MENDONÇA, Gustavo R. A “Ascensão do Resto” e o Declínio dos Estados Unidos: Ansiedades e Perspectivas. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Vol. 1, No 2 (2013): 236-257.
  • NYE, Joseph S. Bound to Lead: The Changing Nature of American Power. Nova York : Basic Books, 1990.
  • _____________. The Paradox of the American Power: Why The World’s Only SuperPower Can’t Go It Alone. Nova York: Oxford Press: 2002.
  • _____________. The Future Of Power. Washington: Public Affairs, 2011.
  • STUENKEL, Oliver. Should China Care About Soft Power? Disponível em:http://www.postwesternworld.com/2015/02/14/should-china-about/. Acesso em 11 de maio de 2015.

NYE JR., Joseph S (2015). “Is the American Century Over?”. Cambridge: Polity Press. 152p.  ISBN-10: 0745690076

Gustavo Resende Mendonça é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (gustavo.mendonca@itamaraty.gov.br)

Seja o primeiro a comentar