Dr. Fantástico ou: como deixei de amar e passei a desconfiar do fim da geografia, por Bruno Hendler

O mundo pós 11/09 e, principalmente, pós Guerra do Iraque testemunha o “retorno da Geopolítica” com a conformação de um triângulo de poder composto por Estados Unidos, China e Rússia cujos impactos vão além das questões regionais.

No filme Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, um general de nome no mínimo curioso, Jack D. Ripper, “sequestra” uma base militar norte-americana e passa instruções para que um bombardeiro lance um ataque nuclear contra a União Soviética em plena Guerra Fria. A partir de então, o enredo do longa metragem gira em torno da tentativa da cúpula do governo dos EUA em tentar reverter a ordem de ataque e deixar claro para os soviéticos que se trata de uma falha no sistema de comando e controle das armas nucleares, e não de um ataque intencional premeditado.

O equilíbrio do terror nuclear da Guerra Fria, satirizado na obra de Kubrick, perdeu apelo nos anos 1990 com o fim da bipolaridade. O mantra do fim da história foi pouco contestado e exceto por teses generalistas como a do choque de civilizações, a geopolítica clássica perdeu terreno para a crença da vitória da aldeia global sobre os totalitarismos do século XX. Segundo Robert Kaplan (2012, p. 16), este primeiro ciclo intelectual do pós Guerra Fria foi uma verdadeira era de ilusões.

Com os ataques de 11/09 e principalmente com a Guerra ao Terror travada pelos EUA a partir de 2001, a geografia, segundo o autor, teve sua revanche. Revanche que ocorreu em nível doméstico, regional e global. Kaplan (Idem, p. 29) foca-se nos níveis doméstico e regional ao afirmar que uma breve análise dos mapas étnico e geográfico do Iraque e do Afeganistão seria suficiente para desencorajar mudanças de regime e incursões militares de longo prazo.

Mas mudanças ainda mais profundas ocorreram no nível global. A crise de liderança norte-americana nos anos 2000 deu margem para que novas e velhas potências regionais atuassem de forma mais “desembaraçada” na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindicação de suas “zonas de influência” (FIORI, 2008, p. 37). Apesar de este ser o caso de países como Alemanha, Índia e Brasil, o tabuleiro da high politics, ou seja, da política do poder global, é composto pelo triângulo estratégico que envolve EUA, Rússia e China.

Isto decorre da centralidade dos três países em suas respectivas zonas regionais de influência acrescida da projeção, por vezes antagônica, sobre o Oriente Médio, uma região que não dispõe de grandes potências e, por isso, tende a sofrer maior penetração de forças exteriores (BUZAN, WAEVER, 2003, p. 199). Assim, as conturbações de ordem geopolítica que têm marcado os últimos anos perfazem um arco de instabilidade que remete ao rimland da Eurásia, indo do Leste Europeu, passando pelo Oriente Médio e chegando à Ásia Oriental. Mas ao contrário do mundo da Guerra Fria, marcado pelo embate das superpotências pelo controle do rimland, o período que se descortina nesta década é composto pelo núcleo geopolítico de Estados-economias nacionais com territórios continentais que disputam uma espécie de “guerra de posições permanente” (FIORI, 2014, p. 201), com especial ênfase para o triângulo EUA-China-Rússia.

Nicholas Spykman: O Rimland da Eurasia

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Fonte: Eurasianhub.com

Apesar do fracasso da década anterior no Oriente Médio, o poder global dos EUA continua inconteste. Este é baseado na centralidade econômico-financeira e na projeção de poder por meio de uma rede de alianças bilaterais, de bases militares espalhadas pelo globo e de um poderio aeronaval escorado em porta-aviões, submarinos nucleares, caças stealth e drones capazes de realizar ataques cirúrgicos a milhares de quilômetros de distância de seu centro de operação.

Assim, mesmo diante de um declínio relativo frente a potências emergentes, a projeção norte-americana se estende do continente americano, passa pela Europa no formato da Aliança Atlântica, ganha a forma de alianças bilaterais no Oriente Médio (com Israel, Arábia Saudita e países árabes do Golfo Pérsico), adota um malabarismo diplomático no sul da Ásia entre Índia e Paquistão e finalmente chega à orla do Pacífico no formato de alianças bilaterais com Japão, Coreia do Sul, alguns países do Sudeste Asiático e Austrália, além da singular relação de proteção ao regime político de Taiwan.

A nova engenharia econômica mundial transformou a China numa economia com poder de gravitação quase equivalente ao dos EUA (FIORI, 2014, p. 145). A dependência de seus vizinhos em relação à economia chinesa, combinada com investimentos militares, principalmente em poder naval e cibernético, e com posições mais assertivas em litígios territoriais com aliados tradicionais dos EUA, pode desequilibrar o arranjo geopolítico construído pelos norte-americanos durante a Guerra Fria. E apesar de comprometer-se formalmente com a resolução pacífica de controvérsias no Mar do Sul da China, a retórica da “ascensão pacífica” e do “mundo harmônico” da diplomacia chinesa tende a se chocar com o uso de narrativas históricas que lhes conferem a “primazia natural” sobre essa região. Ademais, segundo Kaplan (2014, p. 18) o Mar do Sul da China tende a ser um dos centros mais dinâmicos e instáveis da geopolítica mundial nos próximos anos devido à importância das rotas marítimas da região e à possível corrida armamentista dos países da área.

Ironicamente, a Rússia é a maior potência nuclear do planeta e o elo mais fraco do triângulo geopolítico global. A diplomacia baseada no potencial energético (KLARE, 2014, p. 88) e na atração/coação sobre as ex-repúblicas soviéticas tendo como base a própria energia e as minorias russas espalhadas pela região carece de uma economia sólida e competitiva, colocando à prova a tese de Paul Kennedy sobre a necessidade de uma base material capaz de sustentar um aparato militar de grandes proporções.

Apesar disso, a linha da política externa que ganhou forma na guerra contra a Geórgia em 2008 e cristalizou-se no imbróglio Ucrânia/Crimeia ainda sem fim aparente deixa claro que a perspectiva “eurasiana” de Putin, ou seja, de definir a região da antiga URSS como uma “área de interesses prioritários”, tende a prevalecer em detrimento da aproximação com o Ocidente – seja por meio da chantagem energética ou pela força. E a faixa que vai do Báltico à Ásia Central, passando pelo Leste Europeu, Mar Negro, Cáucaso e Mar Cáspio deixou de ser o heartland da Guerra Fria para se tornar parte do rimland em disputa entre Rússia e EUA.

Por fim, o Oriente Médio completa a zona de instabilidade do rimland. Embora a administração Obama o tenha substituído pela Ásia Oriental como pivô de sua política externa e a área não componha a zona de influência regional de China ou Rússia, o triângulo geopolítico global tem apresentado interesses diversos e crescentes nessa parte do mundo.

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O Complexo Regional de Segurança do Oriente Médio (BUZAN, WAEVER, 2003, P. 189)

A projeção de poder dos EUA sobre o Oriente Médio é mais multifacetada do que a russa e a chinesa, pois envolve alianças e bases militares, comércio de petróleo em escalas colossais e recentes intervenções militares. Daí a manutenção do interesse especial norte-americano na região, expresso na Estratégia de Segurança Nacional publicada em 2015 (NSS, 2015).

O surgimento do Estado Islâmico em decorrência do vácuo de poder deixado no Iraque com a derrubada de Saddam Hussein e na Síria com a guerra civil é apenas uma das questões de segurança que preocupam os norte-americanos. As outras são: o programa nuclear iraniano, o impasse nas negociações entre Israel e Palestina e as consequências da Primavera Árabe para a legitimidade e a sustentabilidade dos Estados do Norte da África (em especial Egito e Líbia) (NSS, 2015), além do extremismo religioso sunita, patrocinado pela Arábia Saudita, e xiita, apoiado pelo Irã.

A projeção chinesa sobre o Oriente Médio é mais recente e apresenta dois eixos: econômico e estratégico. No eixo econômico, a China redefine as redes de mercadorias para construir uma relação de centro-periferia com países que são exportadores de recursos naturais (principalmente petróleo) e mercados consumidores em potencial para empresas chinesas de construção civil, serviços, tecnologia, etc.

Apesar de relevante, essa relação não destoa da aproximação da China com países da África ou América Latina, onde também busca-se recursos primários para atender ao interesse de desenvolvimento nacional chinês. A diferença é que o Oriente Médio é uma região prioritária para a política global dos EUA e o estreitamento de laços econômicos da China com países como Irã e Arábia Saudita tem impactos estratégicos na projeção norte-americana na região.

A título de exemplo, é possível citar a antiga cooperação nuclear China-Irã, a venda de armas para Irã e Arábia Saudita, a aquisição de tecnologia de mísseis israelenses, o projeto de ligar o Golfo Pérsico à China com oleodutos através do Paquistão, o fato de a China ter passado os EUA como principal destino das exportações de petróleo do Oriente Médio e a frequente oposição chinesa às sanções ao Irã no âmbito do Conselho de Segurança da ONU (CSNU). Assim, para especialistas como Robert Pape (2005) esses fatores demonstram que por trás de interesses econômicos, há uma intenção chinesa premeditada de promover um soft balancing da presença norte-americana na região.

Embora a projeção econômica da Rússia esbarre no Cáucaso e na Ásia Central, não atingindo o Oriente Médio na mesma proporção que EUA e China, é plausível afirmar que aquele país também tende a promover um soft balancing da presença norte-americana na região. Isso decorre do comércio de armas e da antiga cooperação nuclear com o Irã, da diplomacia de obstaculização (entangling diplomacy) no tocante às sanções ocidentais a este país e a ativa oposição a uma possível intervenção militar dos EUA na guerra civil da Síria em 2013 e 2014.

Portanto, diante dos cenários apontados, o retorno da geografia, que ficou nítido com a Guerra ao Terror nos anos 2000, ganhou contornos ainda mais claros na década seguinte. Porém, a figura de Jack D. Ripper e o temido equilíbrio do terror têm dado lugar a uma nova guerra de posições permanente, em que EUA, China e Rússia são os principais protagonistas.

Referências

  • FIORI, José L. O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In MEDEIROS, Carlos A.; FIORI, José L.; SERRANO, Franklin P. O Mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro, Record, 2008.
  • ______. História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2014.
  • BUZAN, Barry; WAEVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. Nova York: Cambridge University Press, 2003.
  • KAPLAN, Robert D. The revenge of geography: what the map tells us about coming conflicts and the battle against fate. New York: Random House, 2012.
  • ______. Asia’s Cauldron: The South China Sea and the End of a Stable Pacific. New York: Random House, 2014.
  • KLARE, Michael. Rising powers, shrinking planet: the new geopolitics of energy. Nova York: Holt Paperbacks, 2008
  • PAPE, Robert. Soft Balancing against the United States. International Security, Vol 30, No 1, 2005.
  • NATIONAL SECURITY STRATEGY (NSS). The White House, 2015.

Bruno Hendler é doutorando em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (bruno_hendler@hotmail.com)

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