A “Nova Guerra Fria”: realidade ou efeito-teoria?, por Fernando Horta

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Desde o biênio 1989-1991 surgiram sérias dúvidas sobre o novo desenho do sistema internacional (BALDWIN, 1993) (COX, BOOTH, et al., 2009) (HALLIDAY, 2007b). Durante a Guerra Fria (comumente englobando o período de 1945-1989, embora existam inúmeras e fiáveis divergências (HUNTER, 1998) (WESTAD, 2010)) era aceito pela academia que vivíamos um mundo “bipolar”. Muito embora a tal Bipolaridade nunca tenha sido consensualmente definida (WAGNER, 1993), o Realismo usado, segundo Nye, para “guiar a política externa por entre o labirinto da Guerra Fria” (NYE, 2009), determinava não só o “desenho do cenário de forças da política internacional” (GOWA, 1989) como também propalava sua condição de sistema “mais estável”, com todas as “vantagens” daí decorrentes (WALTZ, 2000).

A debacle da URSS deixou os teóricos realistas sem ação por alguns anos, tentando entender o que ocorrera e o que surgiria desde então. Vários termos foram usados para definir o novo momento: “Bipolaridade em estado alterado” (DUNNE, COX e BOOTH, 2002, p. 98), “Bipolaridade por continuidade” (WALTZ, 2000), “unipolaridade” (JERVIS, 2009) (WALT, 2009) (WOHLFORTH, 1999) e “multipolaridade” (KOLKO, 2009). Porém, desde que “unipolaridade” configurava-se como hegemonia e que os defensores da “multipolaridade” pouco conseguiram agregar argumentos que realmente demonstrassem o surgimento de novos “polos”, a exemplo do que existia no período da Guerra Fria (HORTA, 2014), diversos analistas de política internacional vinham propondo um “novo” polo para reconfigurar o sistema sobre o qual tanto tinham amealhado conhecimento (IKENBERRY, 2008) (KAPLAN, 2005). Era preciso reconfigurar urgentemente a “bipolaridade” e, por isso mesmo, dizia-se que ela ainda existia, embora temporariamente sem a definição clara do outro polo (“estado alterado”), ou mesmo que ela continuava a existir por continuidade histórica, dado que não houve “ruptura” do sistema com o fim da URSS (GADDIS, 2005, p. 238-239).

De todos os defensores da manutenção do entendimento da política internacional como “bipolar”, Mearsheimer advogava a escolha imediata da China para o outro “polo” pedindo, “ataques preventivos” para defender a supremacia americana:

“A China ainda está distante do ponto em que terá poder suficiente para investir na hegemonia regional. Sendo Assim, não é tarde demais para que os Estados Unidos […] façam o possível para retardar a ascensão da China. Na verdade, é provável que os imperativos estruturais do sistema internacional, que são poderosos, forçarão os Estados Unidos a abandonar a política de envolvimento construtivo em um futuro próximo. De fato, há sinais de que o novo governo Bush deu os primeiros passos nessa direção.” (MEARSHEIMER, 2001, p. 402)

A postura de Mearsheimer não era única (ARRIGHI, 2008, p. 213-219) e tampouco era descolada de um arrazoado teórico realista que levava – uma vez aceitadas as premissas sistêmicas – a ideia do “ataque preventivo” com alguma sustentação lógica interna. Ora, se o mundo historicamente vivia equilibrando-se entre as capacidades de dois grandes polos antagônicos e em eterna disputa, por quê dar ao contrincante a vantagem de desenvolver suas capacidades em momento de paz para, utilizando os ditames de Sun-Tzu, “escolher o momento do confronto” (ARRIGHI, 2008, p. 292)? O fato é que, não obstante aos pedidos dos analistas americanos, a China não aceitou o papel de “novo polo”.

Vivia-se (em 1989-1991) um momento sui generis na política internacional. Um momento que a epistemologia define como “experimento natural” (GEORGE e BENNETT, 2005). A bipolaridade tão estudada e tão felicitada durante a Guerra Fria, alçada à condição de “mantenedora da paz” durante os anos de maior possibilidade de confronto nuclear (GADDIS, 1987), desaparecera efetivamente ou não? À resposta dessa primeira pergunta surgiriam novas perguntas que teriam que ser respondidas pela academia e digeridas pelos tomadores de decisão, e de forma rápida. De fato, o período de 1991 até 2014 viu o crescimento de explicações micro-sistêmicas (LAKE, 2013) ou de teorias que tinham como ênfase o processo de construção e reconstrução da ordem internacional (WENDT, 1999, p. 92-94) e não tomavam essa mesma ordem como algo dado, sobre o qual dever-se-ia apenas aprender o manejo dos fatores para tornar viáveis as opções dos Estados, mediante os cálculos de custo-benefício.

O Realismo começou a ser epistemologicamente atacado (LEBOW, 1994). Demonstrava-se a incapacidade de seus conceitos e de suas relações de causa-e-efeito realistas para explicar a “nova” realidade e, estudos mais direcionados, mostravam a incapacidade de fato de que ele (Realismo) tenha explicado o próprio período da Guerra Fria (SCHROEDER, 1994) (HUNTER, 1998) (TRACHTENBERG, 2012). A desconstrução dos termos “bipolaridade”, “equilíbrio do terror”, “período de paz”, “previsibilidade no cenário internacional” e etc. trazia todo um leque de questionamentos históricos sobre a Guerra Fria (STEPHANSON, 2007) e ao mesmo tempo suscitava toda uma gama de novos problemas aos tomadores de decisão internacionais.

O comportamento errático dos EUA na sua política internacional desde 1991, ora defendendo um ativismo intervencionista hegemônico em nome dos “direitos humanos”, da “guerra às drogas”, da “guerra ao terror” ou – mais recentemente – do teórico “responsabilidade de proteger” e, ora defendendo o não interesse internacional ou não possibilidade de intervenção (como em Ruanda, no conflito do Sahara Ocidental, em Angola, na Palestina, na Chechênia e etc.), demonstravam a crise epistêmica pela qual passava a teoria  de Relações Internacionais. Com os cânones realistas sem mais capacidade de explicar a realidade, os tomadores de decisão ficaram bastante desconfortáveis em fazer escolhas políticas sem o respaldo inconteste da teoria como tinham durante a Guerra Fria. O mundo dual do vermelho contra o azul oferecia um cenário de pouca dúvida ética sobre as ações a serem tomadas. Tudo valia para defender a “democracia e a liberdade”, seja lá o que se entendesse por estes termos. Tudo era desculpável na luta ideológica do “bem” contra o “mal” (LAFEBER, 1997).

A questão que hoje se coloca é: “Existiu realmente essa dicotomia de sistemas, mundos, ideologias e mesmo de toda uma moral diferenciada?” E em existindo, esta era uma realidade empírica da qual as ações políticas são DECORRENTES (como defende a epistemologia realista) ou as ações políticas tomadas durante a Guerra Fria consolidaram uma realidade que só se constituiu de fato como EFEITO das mesmas ações tomadas ex ante? A segunda explicação é defendida pelos construtivistas, especialmente os construtivistas sociais (KRATOCHWIL, 2000). Tal mudança de paradigma científico (SANTOS, 2008) leva a toda uma releitura sobre os espaços de atuação, os vetores e os resultados da atuação política durante a História, especialmente, nesse caso, durante a Guerra Fria (GUILHOT, 2011, p. 35; 164).

Se a ação política (tomada no cenário internacional) é informada ex ante por uma teoria interpretativa da realidade que consolida esta mesma realidade, é possível atribuir a essa teoria um papel apenas de interpretação histórico-política ou temos que compreender o viés constitutivo dessas ideias dentro da realidade constituída? Em outras palavras, o entendimento que se faz de uma realidade é uma consequência de “fatores reais” interpretados (como defende o paradigma moderno (SANTOS, 2008)) ou o entendimento de tal realidade (subjetivo o entendimento e subjetiva a realidade) informa e demanda ações sociais e políticas dos atores que, mais do que apenas efeitos, são constitutivos dela? O efeito surge antes da teoria ou a teoria produz o efeito?

A julgar pelos esforços que estão em movimento hoje para reordenar o mundo em uma bipolaridade (http://www.independent.co.uk/news/world/europe/russia-threatens-to-use-nuclear-force-over-crimea-and-the-baltic-states-10150565.html; http://www.themoscowtimes.com/opinion/article/cfe%ADis%ADdead%ADmilitary%ADdeterrence%ADis%ADback/517498.html; http://www.independent.co.uk/news/world/europe/russia-threatens-denmark-with-nuclear-weapons-if-it-tries-to-join-nato-defence-shield-10125529.html), temos indícios fortes de que a teoria – especialmente na política internacional – faz mais do que explicar uma determinada realidade (RUGGIE, 1998). O tomador de decisão cria a ordem sobre a qual está trabalhando e o acadêmico não pode ser ingênuo ao dizer que a política “emana” das materialidades empíricas pré-existentes. É preciso que a política internacional e as Relações Internacionais voltem-se ao entendimento de que são os atores que fazem a sua realidade:

“When America entered the international arena, it was young and robust and had the power to make the world conform to its vision of international relations” (KISSINGER, 1994, p. 19)

Dar historicidade aos sujeitos significa rejeitar as explicações estruturalistas. Significa entender que hoje existe, por parte de EUA e Rússia, um desejo de consolidarem uma “Nova Guerra Fria”, de modo a reordenarem o mundo dentro dos paradigmas que eles criaram. É preciso entender também que isso não é, nem de longe, uma condição estrutural material dada, e que não nos deixemos cair no discurso da inevitabilidade estrutural política.

Bibliografia

  • ARRIGHI, G. Adam Smith em Pequim: Origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.
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Luiz Fernando  Horta é Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (moonbladers@gmail.com)

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