VII Cúpula das Américas e o desafio da cooperação no continente, por Ricardo Luigi e Nelson Damico Junior

Nos dias 10 e 11 de abril de 2015 realiza-se a VII Cúpula das Américas. Essa reunião de chefes de Estado do continente, criada no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), e realizada pela primeira vez em Miami, nos Estados Unidos, em 1994, chega a sua sétima edição repleta de questões a serem debatidas.

A VII Cúpula das Américas, que será realizada na Cidade do Panamá, tem como tema “Prosperidade com Igualdade: o Desafio da Cooperação nas Américas [1]. De acordo com o site oficial do evento, a segurança, a energia, a saúde, a educação, os fluxos migratórios, a governança democrática e a participação dos cidadãos serão os subtemas abordados.

Desde a primeira cúpula, que tinha como tema principal a discussão da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), nunca se viu um encontro com tantas perspectivas. O cenário regional está marcado por uma série de acontecimentos, envolvendo principalmente Cuba, Venezuela, Estados Unidos e Brasil. Além disso, há a expectativa de finalmente se reunirem todos os países americanos.

DABÈNE (2009) alude a um duplo caráter das reuniões de cúpulas nas Américas, ressaltando que possuem uma dimensão simbólica e uma dimensão institucional. Do ponto de vista simbólico, o evento será memorável por ser a primeira vez que um presidente norte-americano e um líder de Cuba irão sentar-se juntos, rompendo com um último marco da Guerra Fria no continente [2].

Cuba e EUA não se sentam juntos em uma mesma mesa de reunião desde 1961, quando do rompimento das relações diplomáticas entre os países, seguido pela suspensão de Cuba da OEA e pelo embargo econômico coordenados pelos Estados Unidos em 1962. Com o iminente fim do embargo, a OEA passa a ser a única organização a contar com todos os países das Américas, passando em membros a CELAC, que não possui a participação dos Estados Unidos nem do Canadá.

Alguns dos holofotes estarão voltados para acompanhar os passos de Raul Castro e Barack Obama. Obama deseja acelerar o processo de aproximação com a tentativa de abertura de uma embaixada americana em Cuba, o que se esperava ocorrer antes do início da VII Cúpula das Américas.

Mesmo com a aproximação cada vez maior de seus países, certos impasses ainda prosseguem, seja pela manutenção do embargo (embora flexibilizado), seja pelos presos políticos de ambos os lados, ou, ainda, por conta da postura americana em relação à Venezuela, criticada pelo mandatário cubano.

Aliás, a questão da Venezuela deve ser outro importante foco de discussão durante esse encontro, já que os países sul-americanos, por intermédio da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), emitiram nota rechaçando a postura dos Estados Unidos.

A ação estadunidense foi considerada uma ameaça à soberania dos Estados e ao princípio de não intervenção nos países, consagrados na Carta da OEA. Imediatamente após a declaração americana, a chanceler venezuelana Delcy Rodríguez recorreu ao órgão continental para denunciar o ato.

O Brasil chegará ao Panamá com uma imagem diferente da que tinha nos últimos anos. Os problemas internos do país, principalmente no que tange à Petrobras e a estagnação de nossa economia, deverão ser temas abordados durante as reuniões. A crise na estatal brasileira afetou diretamente investidores norte-americanos, o que leva a crer que o nome da empresa possa ser mencionado de maneira negativa durante o evento.

Nesse sentido, a cúpula também será importante momento para o Brasil melhorar suas relações com os Estados Unidos. Dilma Rousseff e Barack Obama terão um encontro no Panamá que visa estreitar os laços entre os países de que são presidentes. As relações presidenciais entre os países estão afetadas desde 2013, quando Dilma cancelou uma viagem aos EUA em descontentamento à espionagem americana.

Nesse momento em que a economia americana voltou a crescer e que os EUA parecem se preocupar com a presença de Rússia, China e União Europeia na América, cabe realizar todo o esforço diplomático para criar sinergias no continente americano. Sem perder de vista o debate entre visões de integração distintas, que não sabem se colocam “o Estado ou mercado como propulsor do desenvolvimento econômico” (PIERI, TELLES; OLIVEIRA, 2015, p. 96).

Como expresso por MAGALHÃES (1999, p. 180) por ocasião da primeira reunião, a “Cúpula das Américas, enfim, pode e deve ser um instrumento para que essa nova idéia de amizade interamericana ganhe vida”. Teremos no Panamá uma nova oportunidade para avançar rumo à cooperação apontada no tema da cúpula, o que é de suma importância para o bom desenvolvimento e integração da região. Afinal, teremos uma cúpula das Américas finalmente pan-americana.

Referências: 

  • DABÈNE, Olivier. The politics of regional integration in Latin America. Theoretical and comparative exploration. New York: Palgrave Macmillan, 2009.
  • MAGALHÃES, Fernando Simas. Cúpula das Américas de 1994: papel negociador do Brasil em busca de uma agenda hemisférica. Brasília: Instituto Rio Branco; Fundação Alexandre Gusmão; Centro de Estudos Estratégicos, 1999.
  • PIERI, Vitor Stuart Gabriel de; TELES, Reinaldo Miranda de Sá; OLIVEIRA, Fabiana de. Breve história da integração latino-americana. Entre o monroísmo e o bolivarianismo. Rio de Janeiro: Cenegri, 2015. 
  • SUMMITS OF THE AMERICAS. SITE OFICIAL DA VII CÚPULA DAS AMÉRICAS. 2015. Disponível em: http://www.summit-americas.org/seventhsummit.htm. Acesso em 22.mar.2015
  • TUATHAIL, Gearóid Ó. Critical geopolitics. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.

[1] SUMMITS OF THE AMERICAS, 2015.

[2] De acordo com Tuathail (1996), o fim da Guerra Fria causou uma crise de significado na política global, provocando uma certa experiência de vertigem e desorientação na política internacional. Entendemos a manutenção de cenários da Guerra Fria como parte dessa lógica difusa e ao mesmo tempo confusa.

Ricardo Luigi é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista – UNIP (ricardoluigi@oi.com.br)

Nelson Damico Junior é graduando em Relações Internacionais da Universidade Paulista – UNIP (nelson.damico@outlook.com)

2 Comentários em VII Cúpula das Américas e o desafio da cooperação no continente, por Ricardo Luigi e Nelson Damico Junior

  1. Apesar de ter gostado do artigo como um todo, não posso deixar de reparar em certa falta de neutralidade pró americana, discretamente disfarçada.
    Haverá um encontro entre o presidente americado e um líder de Cuba. Devo depreender que o presidente americano não é um líder dos Estados Unidos ou o líder cubano não ocupa nenhum cargo governamental?
    Outrossim o evento será um “importante momento para o Brasil melhorar suas relações com os Estados Unidos”, e não para os dois países melhorarem suas relações. Parece que tudo começou quando a nossa presidente cancelou uma viagem aos Estados Unidos e não quando aquele país espionou até mesmo o telefone de nossa presidente.

  2. Apesar de ter gostado do artigo como um todo, não posso deixar de reparar em certa falta de neutralidade pró americana, discretamente disfarçada.
    Haverá um encontro entre o presidente americado e um líder de Cuba. Devo depreender que o presidente americano não é um líder dos Estados Unidos ou o líder cubano não ocupa nenhum cargo governamental?
    Outrossim o evento será um “importante momento para o Brasil melhorar suas relações com os Estados Unidos”, e não para os dois países melhorarem suas relações. Parece que tudo começou quando a nossa presidente cancelou uma viagem aos Estados Unidos e não quando aquele país espionou até mesmo o telefone de nossa presidente.