Hipocrisia e Política Internacional, por Bruno Jubran, Ricardo Leães e Robson Valdez

A política Internacional é pautada pelo pragmatismo. Sua dinâmica não se respalda em princípios éticos e morais. Não existe uma corregedoria internacional para coibir posturas antiéticas ou amorais inerentes à política externa dos países. Tampouco são realmente eficazes os posicionamentos da opinião pública internacional no que diz respeito à moral dos países na seara internacional. Dessa forma, por mais feio, vergonhoso e desesperançoso que possa parecer, o que realmente importa nas relações entre os países é a defesa de seus interesses. Assim, dependendo das circunstâncias, interesses podem aproximar ou afastar países.

Em setembro de 2013, os Estados Unidos lançaram-se numa campanha internacional para garantir apoio a sua intenção de intervir militarmente na Síria. O motivo para a ação militar seria o uso de armas químicas por parte do governo do Presidente Bashar Al-Assad contra a população civil nos arredores de Damasco. Ao mesmo tempo, o Governo de Damasco alegava que os ataques teriam sido feitos por fações oposicionistas, armadas pelo ocidente e seus parceiros na região, que tentavam desestabilizar o Governo do presidente sírio.

Ironicamente, a exemplo do que já aconteceu no Iraque e no Afeganistão, os norte-americanos viram mais uma vez, aliados jihadistas de última hora, transformarem-se numa ameaça à paz e à democracia. Em que pese o desejo de Washington ver ruir o regime do ditador Bashar Al-Assad, parece que, no momento, os Estados Unidos terão de esperar um pouco mais para que isso aconteça. Agora, o país arauto da liberdade e da democracia precisa do apoio de um dos regimes mais deploráveis, na visão estadunidense, para conter a consolidação e o avanço do Estado Islâmico. Mais uma vez o duelo entre criador e criatura.

Por outro lado, enquanto o regime ditatorial sírio é condenado pela opinião pública internacional, os Estados Unidos tratam outro financiador de milícias jihadistas, a Arábia Saudita, como aliado estratégico na luta contra o terror e na defesa de ideais democráticos na região. Vale lembrar, no entanto, que pouco antes da última visita do Presidente Obama à Arábia Saudita, em janeiro deste ano, o regime ditatorial daquele país já havia decapitado sete pessoas em praça pública. Entre 2013 e 2014 165 pessoas foram decapitadas na Arábia Saudita. Igualmente chocante, foi o tratamento dado ao ativista liberal Raif Badawi que foi condenado a um castigo 1000 chibatadas e 10 anos de prisão por ter criado um site liberal e secular no país amigo dos Estados Unidos. Nesse caso, temos um paradoxo. O país da democracia e do liberalismo celebra há mais de 60 anos sua aliança com a monarquia absolutista saudita, país símbolo do conservadorismo, ícone de tudo de ruim que uma ditadura representa. Mas nem tudo está perdido. Pelo menos, em meio a críticas superficiais, o Presidente Obama teve a coragem de condenar o regime saudita por privar as mulheres daquele país do direito de dirigir automóveis. No mais é isso. Enquanto houver interesses convergentes haverá parceria!

No que diz respeito ao Brasil o pragmatismo de suas relações internacionais assemelha-se ao das grandes potências. Como justificar o perdão ou renegociação de países africanos, muitos deles administrados por ditadores? Ao mesmo tempo em que a Presidente Dilma, em 2013, anunciava o perdão aos africanos, assegurava-se a continuidade da inserção internacional das grandes multinacionais brasileiras no continente africano. Muitos dos projetos encampados por estas empresas em países como a Guiné Equatorial, Senegal, Tanzânia ou Moçambique são financiados pelo governo federal que, por regra, não pode disponibilizar linhas de crédito a países inadimplentes. O fato é que, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, de 2000 a 2014 as negociações entre o Brasil e o continente africano passou de U.S$4,25 bilhões para U.S$26,7 bilhões. Então, enquanto houver interesses convergentes, tudo indica que a parceria seguirá adiante.

Se não existem limites éticos e morais para as parcerias no âmbito da política internacional, o que dizer quando os interesses dos países são conflituosos? Tomemos como exemplo o atual cenário de guerra na Ucrânia.  Na medida em que o embate se prolonga, tem-se percebido a divergência dos interesses norte-americanos e europeus. Há um temor entre líderes europeus de que o conflito ucraniano se alastre para outros países.

Assim é importante relembrar o caso da conversa telefônica interceptada e amplamente divulgada entre a Secretária Assistente do Departamento de Estado Americano para assuntos europeus e eurasianos, Victoria Nuland, e o ex-embaixador americano na OTAN, porta-voz do Departamento de Estado, Geofrey Pyatt, então embaixador americano na Ucrânia. Na conversa, os dois tratavam das habilidades de figuras da oposição ucraniana e desnudavam, com incrível franqueza, o envolvimento norte-americano em questões que, segundo o discurso oficial da Casa Branca, tinham de ser resolvidos pelos próprios ucranianos. Em um ponto da gravação, a secretária assistente dizia “Fuck the E.U” (dane-se a União Europeia) em referência à imobilidade dos líderes europeus em relação aos acontecimentos na Ucrânia.

A Política Internacional é, de fato, pragmática. Nesse sentido o pragmatismo é pautado pela hierarquização de interesses. O apoio, o alinhamento ou distanciamento entre os países é, no cenário mais otimista, uma negociação (ou negociata!) do tipo ganha-ganha. Quando não há espaço para negociação ou negociata, a política internacional resume-se a um frio e calculista jogo de soma-zero.

Bruno Mariotto Jubran, doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Ricardo Fagundes Leães, doutorando em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS

Robson Coelho Cardoch Valdez, doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (robson@fee.tche.br)

Os autores são Analistas/Pesquisadores de Relações e Assuntos Internacionais da FEE-Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul”.

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