Resenha de "A Europa Alemã: A crise do euro e as novas perspectivas de poder", de Ulrich Beck, por Jéssica Luciano Gomes

O sociólogo alemão Ulrich Beck, falecido em janeiro de 2015, dedicou uma de suas últimas obras à análise da influência da Alemanha no continente europeu e aos possíveis rumos que a União Europeia poderia tomar, em meio a um cenário de incertezas.  Em um ensaio breve, porém impactante, Beck analisa as raízes da atual crise vivenciada pelo bloco e conjectura a respeito do cenário de instabilidade financeira, econômica e política, que permite o questionamento da importância da integração para a comunidade europeia.

O autor tem como ponto de partida a idéia de Thomas Mann que, na década de 1950, exortou ao estabelecimento de uma “Alemanha europeia”, em detrimento de uma “Europa alemã” (p.15). Essa dicotomia ainda persiste, e é exacerbada nos tempos atuais pela crise do Euro e da Grécia, pelo aumento da participação de partidos eurocéticos no Parlamento Europeu e pelas crescentes manifestações xenófobas e anti-islâmicas ocorridas na Alemanha. Assim, o livro volta-se à reflexão: poderia a União Europeia tornar-se cada vez mais “alemã”, já que o país, uma potência política, econômica e exportadora, representa (juntamente com a França) o núcleo-duro do bloco e, com isso, influencia cada vez mais a conjuntura da integração?

Para responder a essa e a outras perguntas, Beck retoma uma de suas mais notórias teses: a sociedade de risco. Segundo o autor, a sociedade moderna, industrializada e globalizada, acabou criando riscos de toda espécie – desastres ambientais, crises financeiras, colapsos infra-estruturais – ou seja, uma sociedade “em que tudo poderia acontecer” (p.27, grifo do autor).  Assim, a crise do Euro e de suas instituições financeiras (Banco Central Europeu, notadamente) permitiu que se escalonassem outras crises. A principal delas, a qual o autor define como “colapso dos valores europeus” (p.43), seria o aumento da xenofobia e da violência.

Mas, por trás de toda a complexidade do funcionamento do bloco europeu, Beck atenta ao papel de uma líder poderosa e idiossincrática: Angela Merkel. As qualidades da chanceler permitem que o autor a denomine “Merkiavel”, numa alusão a Nicolau Maquiavel. Para Beck, ela é capaz de, ao mesmo tempo, defender firmemente interesses controversos e tranquilizar a população alemã; costurar alianças políticas e deixar abertas suas opções; fomentar a poupança ao mesmo tempo em que bancos europeus resgatam países em situação crítica. De acordo com Beck, a privilegiada posição econômica e política ocupada pela Alemanha permitiria que, em relação à indagação creditada a Henry Kissinger de “a quem devo ligar caso queira falar com a Europa?”, a resposta seja “a Angela Merkel”.

Por fim, o livro dedica-se a uma análise sociológica da crise europeia. Para Beck, questões como imigração, pós-nacionalismo e identidade cultural devem ser levadas em consideração. Os arranjos financeiros do bloco devem garantir a segurança social dos indivíduos, e o sistema político deve primar pela democracia. Beck argumenta que a integração deve ser “horizontal”, isto é, ao nível dos cidadãos, que devem ser convencidos da importância do bloco para o avanço do continente (p.112; 117).

A “Europa Alemã” é uma obra de grande importância não somente para os interessados em política europeia, como também para aqueles interessados na interseção entre sociologia e relações internacionais – neste caso, para a compreensão de como a sociedade europeia foi privada de uma solução democrática para a crise do bloco.

Referência

  • BECK, Ulrich. A Europa Alemã: A crise do euro e as novas perspectivas de poder. Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro/São Paulo, 2015, 126 páginas. (ISBN: 978-85-7753-252-0).

Jéssica Luciano Gomes é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ (gomesjessica89@gmail.com)

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