Petróleo, shale e energias de baixo carbono: inter-relações e incertezas, por Larissa Basso

Variações nos preços da produção de energia estão diretamente relacionadas a oscilações da economia mundial, e vice-versa. Nos últimos meses, o preço internacional do petróleo tem estado em queda: passou de mais de 110 dólares o barril para a metade. Não é a primeira vez, na história recente, que esse fenômeno ocorre. O preço do barril de óleo cru iniciou 2008 em aproximadamente 90 dólares, depois de uma longa e contínua ascensão desde 2005 (quando seu valor girava em torno de 50 dólares). Ao longo de 2008, sofreu drástica oscilação: chegou ao pico de 140 dólares nos primeiros meses e despencou em seguida, fechando o ano a menos de 50 dólares. Desde então, passou por nova longa e contínua elevação, girando em torno de 120 dólares no início de 2011. Entre 2011 e meados de 2014, o preço manteve-se estável acima dos 100 dólares o barril para, então, voltar a diminuir de maneira drástica e chegar aos 50 dólares o barril no início de 2015 (dados de NASDAQ, 2015).

Os fatores que explicam a oscilação do preço do petróleo são vários, e inter-relacionados. O primeiro, como não poderia deixar de ser, é a lei da oferta e da demanda. É inegável que mudanças na conjuntura econômica mundial afetam o preço do petróleo. As duas ocasiões recentes em que o preço do petróleo caiu, 2008 e 2014, foram precedidas por diminuição da atividade econômica em relação aos patamares imediatamente anteriores – no primeiro caso, nas economias desenvolvidas; no segundo, principalmente na China. A produção de petróleo é controlada, em grande medida, pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. Sendo a exportação de petróleo uma grande fonte de renda para a OPEP, quando há uma diminuição da demanda pelo bem, os membros do cartel organizam-se  para diminuir a produção, de modo a reequilibrar oferta e demanda com preço mais alto – e, desse modo, seus orçamentos. No entanto há defasagem temporal entre a desaceleração econômica e o ajuste da produção, por isso a queda no preço internacional, durante algum tempo, é inevitável.

Na conjuntura atual, porém, não há expectativa de redução, no curto prazo, da produção de petróleo para aumentar seu preço internacional, em razão de interesses divergentes dos produtores de petróleo. O preço mínimo a ser cobrado por um barril de petróleo varia de país a país, conforme o custo de exploração de suas reservas do óleo e da quantidade de reservas internacionais em dólar que detém para enfrentar as oscilações de câmbio. Alguns países possuem reservas de mais fácil exploração, por isso podem oferecer o produto a preços menores, ou possuem grandes reservas internacionais em dólar, que permitem que sustentem por algum tempo um preço mais baixo do que precisariam para balancear seu orçamento sem colocar as finanças nacionais em situação crítica. Esse é o caso, por exemplo, da Arábia Saudita, o maior produtor e exportador mundial de petróleo (IEA, 2014).

Quando aceita uma redução na produção, a Arábia Saudita cede, para outros produtores de petróleo, parte do mercado que, em concorrência perfeita, seria seu. Esses produtores têm custos de produção mais altos, portanto precisam de um preço mínimo mais alto para conseguir uma fatia do mercado internacional. A postura saudita de não reduzir a produção, mantendo preços baixos, prejudica a si – já que o valor atual do barril está abaixo do preço mínimo que precisa para balancear seu orçamento, portanto requer dispêndio de parte de suas reservas internacionais – mas prejudica bem mais alguns de seus concorrentes. Entre eles estão: o Irã, com o qual a Arábia Saudita tem relações bilaterais estremecidas; a Venezuela, altamente dependente das vendas de petróleo para obter dividendos, situação especialmente grave diante da crise de abastecimento que o país enfrenta; e a Rússia, que enfrenta sanções econômicas de diversas economias desenvolvidas por conta de sua atitude em provocar a crise na Ucrânia. A Arábia Saudita age para aumentar sua fatia no mercado internacional de combustíveis fósseis, ainda mais competitivo depois do início da exploração comercial do petróleo e gás não convencionais, shale oil e shale gas, na América do Norte.

O conhecimento sobre a existência do shale não é recente. O shale oil e o shale gas nada mais são do que petróleo e gás natural encontrados em meio a rochas sedimentares denominadas shale. Sua extração é realizada por meio do fracturing – injeção de uma mistura de água e outros elementos químicos, sob alta pressão, no interior das rochas, quebrando-as e liberando os combustíveis fósseis. A tecnologia do fracturing é antiga, mas mais cara do que técnicas de exploração de outras reservas. Passou a ser empregada em larga escala nos últimos anos, exatamente em razão da recente estabilização do preço internacional do petróleo em patamares mais elevados, que a tornou comercialmente competitiva. O shale gas e o shale oil tornaram-se grandes fontes de energia, especialmente nos EUA. De fato, houve um salto na produção estadunidense de gás natural entre 2008 e 2013: de 60 bilhões para mais de 323 bilhões de metros cúbicos anuais (EIA, 2014a).

A produção de shale oil e shale gas tem impacto no mercado internacional. Os EUA sempre foram um grande importador de petróleo; ainda que tenham perdido o posto de maior importador para a China em 2014 (EIA, 2014b), o mercado estadunidense é bastante visado, e a competição por ele tornou-se mais acirrada. A maior produção interna diminuiu a dependência estadunidense do petróleo importado, para prejuízo dos maiores vendedores. Ao manter alta a produção de petróleo, apesar da redução internacional na demanda, a Arábia Saudita força a manutenção de preço internacional baixo para o petróleo, reduzindo a competitividade de um petróleo mais caro – o shale oil – no mercado estadunidense. Não é possível prever se a estratégia será eficaz para minar a concorrência: há informações sobre ganhos tecnológicos no fracturing que permitem a extração do shale oil com custos substancialmente menores, mas também sobre um preço internacional mínimo, e mais alto do que o atual, para manter a produção de shale oil competitiva.

O impacto também pode ser significativo em relação a investimentos para geração de energia por fontes de baixo carbono – nuclear e renováveis. Em razão do alto custo das tecnologias envolvidas, do tempo necessário para retorno do investimento, de seu menor potencial calorífico e/ou da sazonalidade da produção – as duas últimas no caso das renováveis –, a competitividade das fontes de baixo carbono está diretamente relacionada a um preço internacional do petróleo mais alto do que o atual. Se o preço seguir baixo, pode atrasar importantes investimentos na geração de energia por fontes de baixo carbono, cruciais para a diminuição da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e a consequente mitigação da mudança do clima. Em um ano de expectativas para a assinatura de um novo acordo global que substituirá o Protocolo de Quioto, essa não será uma boa notícia.

Referências:

  • EIA, US Energy Information Administration (2014a): Shale gas production 2008-2013, disponível em <http://www.eia.gov/dnav/ng/ng_prod_shalegas_s1_a.htm>, acesso em 03 de fevereiro de 2015. A página apresenta dados em pés cúbicos, convertidos para metros cúbicos neste artigo.
  • EIA, US Energy Information Administration (2014b): “China is now the world’s largest net importer of petroleum and other liquid fuels”, notícia e dados disponíveis em <http://www.eia.gov/todayinenergy/detail.cfm?id=15531>, acesso em 03 de fevereiro de 2014.
  • IEA, International Energy Agency (2014): 2014 key energy statistics, disponível em <http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/KeyWorld2014.pdf>, acesso em 03 de fevereiro de 2015.
  • NASDAQ Stock Market (2015): Latest price & chart for Crude Oil Brent, disponível em <http://www.nasdaq.com/markets/crude-oil-brent.aspx?timeframe=7d>, acesso em 03 de fevereiro de 2015.

Larissa Basso, articulista do Boletim Mundorama, é doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (larissabasso@gmail.com)

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