O Brasil e a Internacionalização de Empresas: visão geral, por Carlos Nogueira da Costa Júnior

O processo de internacionalização de empresas compreende os meios pelos quais uma determinada firma amplia a presença de aspectos externos ou forâneos em sua estrutura operacional, tornando-se gradualmente mais relacionada com e dependente de variáveis internacionais para desempenhar suas funções e maximizar seu lucro. Nesse sentido, o escopo desse processo necessariamente exige, para sua compreensão e contextualização, uma análise multidisciplinar – dialogando economia, negócios e política – e multinível – considerando uma abordagem na esfera micro, relacionada à firma, nacional, regional e internacional.

Nessa abordagem, em referência aos mencionados aspectos externos, a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) assume como variáveis do processo de internacionalização a presença de ativos, vendas e empregos externos na estrutura da firma. Destarte, a partir dos anos 1990 a UNCTAD calcula o processo de transnacionalização de empresas por meio de um índice, que varia de 0 a 1 e é uma média de três razões: ativos externos divididos pelos ativos totais da firma; vendas externas divididas pelas vendas totais da firma; e empregos externos divididos pelos empregos totais gerados pela firma (UNCTAD, 1996, p. 32). Assim, a UNCTAD percebe a internacionalização como um processo em que os ativos, vendas e empregos gerados no meio internacional são gradualmente majoritários no perfil total de ativos, vendas e empregos desempenhados pela firma.

Em seu “World Investment Report” de 2014 (UNCTAD, 2014, p. 204), entre as 100 maiores empresas transnacionais de 2013, ranqueadas pelo montante de ativos externos gerados, as empresas dos Estados Unidos lideram a lista com a General Eletric Co., ocupando a primeira posição com US$ 331 bilhões em ativos externos e um índice de transnacionalização de 0,488, ou seja, 48% dos ativos, vendas e empregos gerados pela firma tiveram origem no meio internacional. Apenas uma empresa brasileira aparece nessa lista, a Vale S.A, com ativos externos de US$ 47 bilhões e um índice de 0,464, próximo à da supracitada empresa norte-americana. Contudo, essas três variáveis utilizadas pela UNCTAD, se por um lado permitem uma visão classificatória das empresas transnacionais, por outro lado são insuficientes para compreender o processo de internacionalização de uma empresa, porquanto o índice desse organismo internacional mede empresas já internacionalizadas.

Considerando esse aspecto, torna-se necessário identificar o contexto internacional, de modo a esclarecer o ambiente global em que as firmas operam e se internacionalizam. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional de 2014 (IMF, 2014, p. 1-3), a economia global cresceu 3,2% em 2012, 3,0% em 2013 e 3,58% em 2014, com projeção de 3,87% para 2015 e 3,95% para 2016. Essa estável recuperação do crescimento econômico é alavancado pelo desempenho ascendente dos Estados Unidos e pela manutenção das elevadas taxas de crescimento da China, que provoca um crescimento pujante das economias emergentes da Ásia. A inflação global em 2012 foi de 3,94%, caindo para 3,56% em 2013, 3,49% em 2014 e projeção para 3,44% em 2015. O volume de comércio de bens e serviços registra uma trajetória ascendente, com desempenho de alta de 2,81% em 2012, 3,01% em 2013, 4,34% em 2014 e expectativa de aumento de 5,25% em 2015. Um último agregado importante a ser considerado nesse cenário global é a taxa de desemprego no mundo, que foi de média de 7,40% em 2012 nas economias do G-7, caindo para 6,67% em 2014 e nova queda de 6,50% para 2015. A zona do euro também reflete essa queda nessa taxa, saindo de 12% em 2013 para 11,9% em 2014 e projeção de 11,5% em 2015. Dessa forma, é possível afirmar que a economia mundial se recupera com significativa estabilidade desde 2012, o que demonstra que, no aspecto internacional, as condições são propícias para que as empresas retomem seus investimentos externos e conduzam com grau de confiança mínimo um processo de internacionalização. Vale frisar que se trata de uma perspectiva geral, observando que, dependendo do setor produtivo e da região econômica considerados, a internacionalização será mais ou menos efetiva.

Um traço importante da brevemente apresentada recuperação econômica global é a performance dos investimentos estrangeiros diretos (IED) no mundo, os quais evidenciam o grau e a profundidade da internacionalização implementada pelas empresas. Segundo dados do já mencionado relatório da UNCTAD de 2014 (UNCTAD, 2014, p. 9), após uma redução em 2012, o IED global cresceu 9% em 2013 totalizando um fluxo de US$ 1,45 trilhões, os quais devem subir para US$1,7 trilhões em 2015. As economias desenvolvidas respondem por 39% desses fluxos, enquanto os países em desenvolvimento representam 54%, liderando o crescimento global de investimentos. Portanto, sob uma abordagem no nível internacional, o ambiente é favorável ao processo contínuo de internacionalização das empresas, ampliando operações externas, como exportações, abertura de filiais, franquias e representações comerciais, estabelecimento de parcerias empresariais – como as joint-ventures – e concluir processos de fusão e aquisição, além de encaminhar investimentos diretos e em portfolio, aquecendo o mercado de ações e de capitais.

Visto esse cenário internacional, parte-se para uma abordagem mais específica, cabendo analisar o papel exercido pelo Brasil e suas empresas no complexo ambiente de internacionalização. O processo de internacionalização das empresas brasileiras é um movimento considerado recente, quando inserido na perspectiva de longa duração. Somente a partir de meados dos anos 1990, impulsionado pelo processo de privatização levada a cabo na administração Fernando Henrique Cardoso, é que a internacionalização de empresas brasileiras começa de modo regular. Antes desse período, apenas as estatais brasileiras, como a Petrobrás e o Banco do Brasil haviam já iniciado, ao longo dos anos 1980, a ampliação de uma presença internacional.

Contudo, é a partir dos anos 2000 que o processo de internacionalização ocorre de modo crescente, e o aspecto fundamental para compreender essa dinâmica é que, justamente nesse período, consolida-se a estabilidade macroeconômica do Brasil, gerando maior segurança e previsibilidade entre investidores e iniciativa privada, viabilizando projetos mais audaciosos de internacionalização (Oliveira Junior, 2010, p. 93-109).

Ressalva-se que, embora a internacionalização de empresas brasileiras seja um processo recente, assevera-se que a presença de empresas estrangeiras no Brasil é um processo anterior, que remonta inclusive aos esforços dos dois governos Getúlio Vargas e do governo Juscelino Kubitscheck de atualização da indústria brasileira via parceria com o capital estrangeiro. Dessa forma, é possível afirmar que a economia brasileira é internacionalizada – em função da consolidada presença de empresas estrangeiras no país –, mas as empresas brasileiras ainda tramitam a experiência de se internacionalizarem e atuarem em mercados externos.

Nesse contexto, o paradigma de internacionalização de empresas no Brasil entre os anos 1980 e 1990 se concentrava em políticas com esforço de desempenhar superávits comerciais; portanto, restrito à via comercial internacional, concentrando-se em poucas empresas, as quais atuavam em setores industriais de baixo valor agregado e conteúdo tecnológico (IPEA, 2011, p. 22). Nos anos 2000 ascende um novo paradigma, mais complexo e diversificado. Conforme o relatório de 2014 da Fundação Dom Cabral sobre as transnacionais brasileiras (FDC, 2014), considerando uma amostra de 52 multinacionais brasileiras atuantes no exterior, constata-se que os setores são diversificados, existindo empresas brasileiras internacionalizadas que operam no setor de alimento, energia, mineração, tecnologias da informação e da comunicação, setor financeiro e construção civil. Dessa lista de 52 empresas, a que apresenta o maior nível de internacionalização é a Construtora Noberto Odebrecht, com índice de transnacionalidade de 0,549; por outro lado, a com o menor índice – de 0,001 – é a M. Dias Branco S.A Indústria e Comércio de Alimentos. Ademais, essas empresas pesquisadas estão presentes em 89 países; entretanto, 75,8% das empresas brasileiras possuem presença física na região sul-americana, destacando-se a Argentina. Aqui, a proximidade geográfica, a maior facilidade de compreensão da língua espanhola, a presença regulatória do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a proximidade cultural explicam a opção brasileira pela região. Em seguida vem a região da América do Norte, na qual 67% das empresas pesquisadas possuem operações, com liderança dos Estados Unidos. Nesse caso, o mercado consumidor e o ambiente de negócios nos Estados Unidos explicam a internacionalização das empresas brasileiras. Assim, a internacionalização de empresas brasileiras tornou-se mais diversa e presente globalmente, conquanto haja concentração na região americana.

Considerados o cenário mundial, os aspectos econômicos e o perfil das firmas brasileiras, resta, ainda que breve, uma avaliação das políticas públicas voltadas para a internacionalização de empresas brasileiras. Primeiramente, cita-se a política externa como elemento estratégico nesse processo. Nessa arena, a promoção de investimentos e da imagem do Brasil junto a investidores é a marca da ação brasileira. Pode-se enumerar aqui a diplomacia presidencial, em especial aquela implementada ao longo do governo Lula, em foros internacionais como as reuniões de cúpula do Mercosul, do Fórum Econômico Mundial, reuniões com investidores nos Estados Unidos e na Europa e a ampliação da imagem brasileira em países da África, Oriente Médio e Ásia, destacando-se a China. Outro elemento é a ação de promoção comercial e de investimento executada pelo Ministério das Relações Exteriores.

Para além da política externa, os esforços são perceptíveis no âmbito da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX-Brasil), que implementa feiras internacionais e reforça a imagem do Brasil junto a investidores estrangeiros. Malgrado esses empenhos, no Brasil ainda inexiste uma política pública federal voltada para apoiar a internacionalização de empresas brasileiras. Em 2009, o governo Federal criou um Grupo de Trabalho sobre Internacionalização de Empresas, coordenado pela Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX, 2009, p. 20-6) sobre internacionalização de empresas, no qual reconhece como obstáculos brasileiros a ausência de uma política pública, ausência de acordos de promoção e proteção de investimentos, ausência do tema internacionalização em acordos internacionais que o Brasil firma, ausência de incentivos legais, tributários e financeiros para alavancar a internacionalização brasileira, além de escassez de estatísticas consolidadas sobre a situação brasileira contemporânea nesse campo.

Por conseguinte, o processo de internacionalização de empresas brasileiras é um fenômeno recente, restrito à dinâmica de mercado e provocado pela vontade e decisão das próprias firmas, porquanto não existe uma ação sistêmica do Estado brasileiro em apoiar esse esforço. Nesse contexto, e malgrado o aspecto acima mencionado, a recuperação econômica mundial promove um ambiente propício para os investimentos externos e, por consequência, para viabilizar a internacionalização de empresas brasileiras.

Referências

  • BRASIL. Câmara de Comércio Exterior (org.). Internacionalização de Empresas Brasileiras. Brasília: CAMEX, 2009. 56 p.
  • FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2014: a força da marca Brasil na criação de valor internacional. Nova Lima: FDC, 2014. 52 p.
  • INTERNATIONAL MONETARY FUND. World Economic Outlook: legacies, clouds, uncertainties. Washington: IMF, out. 2014. 243 p.
  • IPEA. Investimento Direto e Internacionalização de Empresas Brasileiras no Período Recente. Texto para Discussão n. 1610, abr. 2011. Brasília:  IPEA, 2011. 56 p.
  • OLIVEIRA JUNIOR, Moacir de Miranda. Multinacionais Brasileiras: internacionalização, inovação e estratégia global. Porto Alegre: Bookman, 2010. 358 p.
  • UNCTAD. The world’s top 100 non-financial TNCs, ranked by foreign assets, 2013. In: UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT. World Investment Report 2014: investing in the SDGs: an action plan. New York; Geneva: United Nations, 2014. 264 p. Disponível em: <<http://unctad.org/en/pages/DIAE/World%20Investment%20Report/Annex-Tables.aspx>>. Acesso em: 25 jun. 2014;
  • UNCTAD. World Investment Report 1996: investing in the SDGs: an action plan. New York; Geneva: United Nations, 1996. 362 p.;
  • UNCTAD. World Investment Report 2014: investing in the SDGs: an action plan. New York; Geneva: United Nations, 1996. 362 p.;

Carlos Nogueira da Costa Júnior é Coordenador do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário do Distrito Federal – UDF (carlos.nogueira@udf.edu.br)

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