FUNAG, de novo, entre os melhores "think tanks", por Sergio E. Moreira Lima

A Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG foi classificada, novamente, entre os melhores “think tanks” vinculados a governos, segundo levantamento divulgado este ano pela Universidade da Pensilvânia, nos EUA. A decisão traduz o reconhecimento do trabalho desenvolvido por uma instituição, com sede em Brasília, que representa um elo entre diplomacia e sociedade. Essa interação tem contribuído para a formação de opinião pública sensível aos problemas da convivência internacional. A permanência da FUNAG pelo terceiro ano consecutivo entre as melhores em sua categoria se deve não apenas aos eventos que organiza como também à sua Biblioteca Digital, a maior do mundo de acesso gratuito sobre as relações internacionais do Brasil e matérias do seu interesse.

A Fundação é entidade líder em número de livros sobre temas da política externa, das relações internacionais e da história diplomática brasileira. Coleções como Clássicos IPRI, Teses de CAE, Política Externa Brasileira e Em Poucas Palavras dão a medida de suas obras e da contribuição que presta à bibliografia nacional. Títulos recentes, como Governança da Internet: Aspectos da Formação de um Regime Global; O Brasil no Rio da Prata; Reflexões sobre a Convenção do Direito do Mar; Limites Exteriores da Plataforma Continental; Desarmamento e Temas Correlatos; A América do Sul no Discurso Diplomático Brasileiro; O Brasil no Conselho de Segurança da ONU, além dos três volumes de O Pensamento Diplomático Brasileiro, preenchem lacunas no mercado editorial e despertam o interesse pela pesquisa no campo das relações internacionais. A coleção Manual do Candidato encontra-se também ali disponível para auxiliar a formação do maior número de jovens e de pessoas interessadas nas relações internacionais e no concurso do Instituto Rio Branco.

Em 2014, a FUNAG concluiu projeto de inclusão no portal www.funag.gov.br do seu acervo bibliográfico para leitura on line, iniciado em 2006. No ano passado, o número de downloads cresceu 50,8% atingindo 1.229.421 publicações baixadas. Registrou-se aumento de consultas ao portal por parte de internautas nos EUA (9,8%); na China (37,6%) e na Alemanha (885,5%), que muito se deve à participação da FUNAG na Feira do Livro de Frankfurt. Os usuários no exterior responderam por 64% das visitas ao portal, o que reflete mudanças no alcance das publicações e das atividades da Fundação e maiores responsabilidades institucionais diante do interesse crescente, inclusive fora do Brasil.

Esses resultados traduzem, de um lado, a democratização do acesso ao conhecimento das relações internacionais no Brasil, e, de outro, a maior inserção dos livros da FUNAG nos grandes mercados editoriais formadores de opinião. Brasileiros de diferentes faixas etárias passaram a ter acesso, em português, a clássicos que antes só existiam em outras línguas, e a obras de expoentes do pensamento brasileiro sobre o tema.

A FUNAG publica títulos em português e, também, em espanhol e inglês; ocasionalmente, em alemão e chinês. Em 2014, editou a obra inédita The Quest for Autonomy, de Andrew Hurrell, professor da Universidade de Oxford, sobre a busca pelo Brasil de autonomia em suas relações internacionais, a exemplo de outras teses de doutorado de consagrados cientistas políticos, como Maria Regina Soares de Lima e Gerson Moura, além de obras de Helio Jaguaribe. Trata-se do esforço de apresentar em outros países perspectivas brasileiras sobre temas importantes da agenda internacional. A classificação da Universidade da Pensilvânia e os resultados estatísticos apontados são encorajadores.

Vale recordar que o santista Alexandre de Gusmão, patrono desta Fundação, foi um diplomata nascido no Brasil-Colônia, que se distinguiu por sua capacidade de definir interesses estratégicos de longo prazo, tendo desempenhado papel crucial nas negociações do Tratado de Madri (1750). Este acordo delimitou os domínios coloniais portugueses e espanhóis na América do Sul, consagrando o princípio do uti possidetis, que se tornou uma das bases da doutrina jurídica e da política de fronteiras do Brasil e contribuiu para consolidar a dimensão do seu território.

Desde 1989, a Universidade da Pensilvânia desenvolve o programa Think Tanks and Civil Societies, que analisa o papel de centros de pesquisa e de pensamento junto a governos e sociedades. Esse projeto objetiva estimular parcerias institucionais e elevar a qualidade da pesquisa no plano global. Em 2014, mais de 1.900 instituições, peritos e autoridades acadêmicas internacionais, além de cerca de 20 mil jornalistas, foram contatados pela equipe do Professor James McGann, que examinou 6.618 think tanks catalogados. A FUNAG aparece na 42ª posição entre os centros governamentais e intergovernamentais, como o Banco Mundial, a CEPAL e o PNUD.

A expressão inglesa think tank se aplica a entidades públicas ou privadas dedicadas a produzir e difundir conhecimentos e estratégias sobre questões de especial interesse. Elas complementam a ação de instâncias governamentais ou empresariais no desenvolvimento de ideias e processos inovadores. Nas sociedades modernas, abertas, participativas, essas instituições atendem à demanda por debates independentes, na busca de soluções criativas face a desafios e situações complexas, contribuindo, assim, para o pluralismo e a democracia.

A permanência da FUNAG entre os melhores think tanks distingue uma instituição pública dedicada a atividades culturais e pedagógicas no campo das relações internacionais e do pensamento diplomático brasileiro. Seus esforços na difusão da política externa e na aproximação entre diplomacia, academia e sociedade transcendem o plano doméstico por meio da cooperação com instituições congêneres de outros países e do portal na internet.

Em 2014, a Fundação junto com o Itamaraty organizou os Diálogos sobre Política Externa, o maior exercício de debate com a sociedade realizado pelo Ministério das Relações Exteriores, de 26 de fevereiro a 2 abril. Juntamente com o IPEA, outra entidade brasileira classificada na mesma categoria, a FUNAG organizou, no ano passado, o Conselho de Think Tank e o Forum Acadêmico do BRICS, no Rio de Janeiro, no Palácio Itamaraty e no Palácio da Cidade, respectivamente. Em abril, cooperou com a UNIFOR no seminário preparatório da VI Reunião de Cúpula do BRICS, em Fortaleza.

Nos últimos cinco anos, a Fundação organizou 248 eventos nacionais e internacionais, entre conferências, seminários, palestras e cursos para diplomatas estrangeiros. Esse conjunto de iniciativas tem estimulado o exame e a discussão da política externa brasileira, bem como de questões de interesse do Brasil e seu papel no cenário internacional.

Com esse mesmo propósito, a FUNAG negocia acordos de parceria com instituições estrangeiras para possibilitar a tradução e a divulgação de obras importantes do seu acervo em centros formadores de opinião. Difunde, assim, nossas políticas públicas, bem como os valores em que se fundamentam as aspirações, interesses e a identidade do Brasil.

Sergio E. Moreira Lima é Embaixador e Presidente da Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG (semolima@gmail.com)

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