A NSS 2015 e a “não tão nova” estratégia de combate ao Terrorismo Internacional dos Estados Unidos, por Cristina Soreanu Pecequilo & Clarissa Nascimento Forner

O recém lançado documento de estratégia e segurança nacional da administração Obama (NSS 2015), diferente do anterior, não pareceu despertar as expectativas, nem dos centros de decisão nacionais estadunidenses e nem tampouco de seus correspondentes internacionais. Enquanto a NSS 2010 vinha a público como um bálsamo para acalentar as incertezas norte americanas, motivadas pelo agravamento do cenário de declínio legado pela Era Bush, o novo plano não atraiu muito mais que um sentimento de insatisfação. Tal sentimento foi sintetizado na expressão “inércia” pelos críticos, ao qual a Casa Branca contrapôs a visão de “paciência”.

Ambos de forte retórica, os dois documentos surgem em contextos diferentes: um de início e outro de quase encerramento de governo, mas isso não implica diferenças substantivas. Pode-se dizer que a “nova” estratégia não foge à receita habitual e, pelo contrário, faz do status quo a sua espinha dorsal ao introduzir, dentre outras coisas, o já citado conceito de “paciência estratégica” (strategic patience). Essa força estabilizadora se torna evidente nas reiterações da ideia de que, sejam quais forem os cenários, a América deve liderar. (NSS, 2015)

Ainda que matizadas por novas ameaças e conflitos, como as instabilidades provocadas pela ascensão do Estado Islâmico (EI), as diretrizes de combate ao terrorismo internacional enveredam pela linha da continuidade, reforçando posturas enunciadas em 2010 e buscando atribuir uma aparência inovadora a atitudes que, na prática, não representam verdadeiros saltos qualitativos. Estas ações apenas retomam velhos hábitos da política externa.

Em se tratando da continuidade, pode-se observar a prevalência do alarmismo referente à segurança doméstica econômica e tradicional. Apesar de reconhecer que o território estadunidense já não se encontra mais tão vulnerável quanto no ínicio do século XXI, a NSS 2015 parte da ideia de que as ameaças se transformam, e não se pode descuidar delas O combate ao terrorismo se inicia dentro das fronteiras, mas não se limita a elas, devendo se expandir para o máximo de regiões possível, notadamente Ásia, África e Oriente Médio, tidos como os hot spots para a consolidação de afiliados da Al Qaeda e do próprio EI. (NSS, 2015)

Como em 2010, o documento enfatiza a importância das coalizões internacionais (sob liderança norte americana), das redes de não proliferação nuclear e da utilização do “smart power”, isso é, a conjugação do aparato militar aos instrumentos econômicos, tecnológicos e diplomáticos para que a força não seja mais o único recurso estratégico estadunidense. Esse fator mostra-se sempre atrelado à percepção de que os Estados Unidos não devem se envolver diretamente e sozinhos em conflitos de larga escala como as guerras do Iraque e Afeganistão. Mesmo o incomparável poderio bélico norte americano possui limites, exigindo maior seletividade da parte do governo na escolha de seus empreendimentos estratégicos. (NSS, 2015)

Apesar disso, o país permanece se reservando o direito agir unilateralmente quando necessário. Isso demonstra que mesmo com a defesa do multilateralismo e do respeito aos valores liberais, a reconstrução da liderança e a preservação do status quo estão enraizadas em um forte apelo ao poder, alicerce fundamental da política estadunidense, ainda que justificado por seus policy makers como ações em nome da democracia.

Seguindo a lógica da continuidade, é possível observar que o plano de ação para o Oriente Médio também responde a antigas viscitudes norte americanas. De acordo com a NSS-2015, pode-se resumir a agenda para a região em estabilização/empoderamento e mudança de regime. Assim, o esperado é que os Estados Unidos não só rejeitem envolvimentos solitários e prolongados no continente, como também, se empenhem em estabelecer alianças de cooperação com os poderes locais, visando tornar o terreno cada vez mais infértil para a proliferação de adeptos de práticas terroristas. Além disso, acontecimentos que afetaram (e afetam) diretamente a estabilidade regional derivados da Primavera Árabe, da estagnação das negociações de paz Israel-Palestina, o desmonte da Líbia após a morte de Khadaffi, a guerra na Síria, as recorrentes crises no Iraque e no Afeganistão, são razoavelmente marginais, com a emergência do EI, e seu fortalecimento, surgindo quase que como descoladas deste cenário. (NSS, 2015)

Esta agenda se mostra progressista em sua proposição, porém pouco efetiva em sua execução. Isso, porque, os EUA ainda se encontram atrelados às velhas parcerias e pouco empenhados na real abertura para o estabelecimento de novos laços de cooperação. Em outras palavras, a fase de empoderamento ainda surge como exclusividade de aliados tradicionais como Israel, Arábia Saudita e Jordânia, enquanto persiste a relutância em incluir mais plenamente o Irã, potência regional que poderia servir de fiel da balança. As conversações referentes à questão nuclear no âmbito das conversações do P5 +1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e a Alemanha) caminham de forma gradual. Enquanto isso, o EI apenas parece avançar, com demonstrações de força  midiáticas como a decapitação de reféns, e a conquista de novos territórios.

O governo Obama preserva táticas como o armamento e o treinamento de muçulmanos moderados, utilizadas desde a Guerra Fria, repetidas no Iraque, em 2003, e agora, “ressuscitadas” na Síria, para fazer frente ao EI. Essas ações são endossadas na NSS-2015 e classificadas como parte do processo de empoderamento. Contudo, esse empoderamento é seletivo e, além de perpetuar a espiral de violência, exclui os reais poderes regionais das principais decisões (o citado Irã), visando não só evitar conflitos com aliados tradicionais como Israel, mas também garantir que o status quo, seja preservado.

Embora os pontos sublinhados pela NSS 2015, dada a sua natureza essencialmente retórica, não devam ser superestimados em seu alcance prático, é preciso considerar que é com essa mesma retórica que os Estados Unidos apresentam-se ao mundo. Apesar da onipresente roupagem transformadora sustentada por Obama a mensagem de recuperação e sustentação da hegemonia é clara e ecoa em todos os setores da estratégia. O combate ao terrorismo internacional não foge à regra: é formulado com o intuito de dar força ao eixo principal da agenda, mesmo que isso implique quase sempre em um recrudescimento da radicalização, como tem sido observado no Iraque, e com o EI. Esta é uma tática, que parece longe de alcançar a vitória, ou gerar estabilidade.

Após destacar-se pela postura crítica a seu antecessor na Guerra Global ao Terror, Barack Obama frustrou as expectativas de seu eleitorado ao perpetuar e reprisar muitas dessas atitudes. Diante da reprovação motivada por fatores como a prevalência da prisão de Guantânamo e a manutenção da vigência do Ato Patriota, tornou-se claro que o novo governante não disporia de tanta margem de manobra quanto gostaria.

O desafio se repete diante de um Congresso conservador. Resta saber se o presidente optará pela adequação ou o enfrentamento (como demonstram a retomada das relações diplomáticas com Cuba e a revisão da lei da imigração existe certa autonomia quando há vontade política). Independente das escolhas internas, a divulgação da NSS 2015 torna claro que os EUA não estão dispostos a perder seu espaço e procuram transmitir tal mensagem (e isso não deve causar surpresa).

Referências

  • PECEQUILO, Cristina Soreanu. Os Estados Unidos e o Século XXI. Rio de Janeiro: Ed.
  • Elsevier. 2013.
  • THE WHITE HOUSE. National Security Strategy. Washington, 2010. Disponível em:
  • <http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/rss_viewer/national_security_strategy.pdf>.Acesso em: 10 jun.2013
  • THE WHITE HOUSE. National Security Strategy. Washington, 2015. Disponível em:
  • <http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/docs/2015_national_security_strategy.pdf>. Acesso em: 12 fev. 2015

Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP (crispece@gmail.com);

Clarissa Nascimento Forner é graduanda em Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP e Bolsista de Iniciação Científica FAPESP (clarissaforner@gmail.com).

1 Comentário em A NSS 2015 e a “não tão nova” estratégia de combate ao Terrorismo Internacional dos Estados Unidos, por Cristina Soreanu Pecequilo & Clarissa Nascimento Forner

  1. Senti falta de uma análise e consideração em relação aos drones, que representam hoje talvez o principal vetor de total descaso e violação sistemática ao direito internacional por parte dos Estados Unidos, que apenas fazem proliferar ainda mais o terrrorismo e alimentam a escalada de ódio e violência…