A Vietnãmização do Conflito na Ucrânia e o Risco de Colapso do Bloco Europeu, por Robson Coelho Cardoch Valdez

O conflito entre as forças regulares ucranianas e rebeldes separatistas pró-Rússia no leste do país já dura um ano. O envolvimento da Rússia no conflito é evidente. Por conta disso, o país vem sofrendo efeitos de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. No entanto, apesar de todo o desgaste econômico, o Kremlin parece não ter intenção de retroceder em seu posicionamento em relação a este conflito.

Os governos da França e da Alemanha, eixo estratégico sobre o qual se apoia a União Europeia, já perceberam a pouca efetividade das sanções econômicas sobre a dinâmica do conflito. Os dois países agora buscam o diálogo com a Rússia no sentido de interromper a escalada das hostilidades.

Ainda que François Hollande e Angela Merkel argumentem contra o envio de armas para as forças ucranianas, esta estratégia vem ganhando força dentro do governo norte-americano. Embora o presidente Barack Obama opte pela negociação diplomática, seu secretário de defesa, Ashton B. Carter, já se manifestou a favor do envio de armas no sentido de elevar o custo do conflito para os cofres de Moscou.

Porém, na medida em que o conflito se prolonga, tem-se percebido a divergência dos interesses norte-americanos e europeus. O desejo messiânico de desbaratar a secular influência russa na região euroasiática se contrapõe ao temor legitimo dos europeus em relação à ampliação do conflito para além das fronteiras ucranianas. Nesse sentido, o visível racha entre Europa e Estados Unidos pode ser considerado uma batalha vencida por Vladmir Putin.

Além do esforço diplomático de Hollande e Merkel, Marine Le Pen, líder da extrema direita na França, acusa Washington de querer iniciar uma Guerra na Europa e expandir a OTAN até as fronteiras da Rússia. Adicionalmente, a líder direitista afirma que no tocante ao conflito na Ucrânia, os europeus comportam-se como “lacaios dos americanos”. Le Pen pondera também a “falta de independência dos líderes europeus em relação à Washington”. Na mesma linha, o Ex-Primeiro Ministro Francês François Fillon disse que os Estados Unidos pretendem iniciar uma guerra na Europa, cujo fim poderia ser catastrófico.

Por fim, o Ex-presidente francês Nicolas Sarkozy se posicionou contra a escalada do conflito na região temendo pela emergência das hostilidades do período da Guerra Fria. Quanto à questão da Criméia, o ex-presidente francês, em tom contemporizador, declarou apoio ao plebiscito popular que legitimou a anexação da península pela Rússia.

A expansão militar da OTAN para o leste da Europa, na tentativa de conter a alegada expansão russa na região, é cada vez mais evidente. O mesmo argumento utilizado para armar os ucranianos no sentido de aumentar os custos do conflito para o Presidente Putin pode é uma variável latente na recente queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional. Isto posto, a diminuição da receita do petróleo comprometeria cada vez mais a capacidade financeira do Kremlin manter-se em um dispendioso e longo conflito na Europa.

Adicionalmente, a desvalorização do preço do petróleo comprometeria, financeiramente, a influência do Irã no Oriente Médio, o que beneficiaria a Arábia Saudita e Israel – principais aliados dos Estados Unidos na Região. Ainda que seja de amplo conhecimento, vale lembrar que Arábia Saudita e Irã rivalizam-se por maior influência política na região. No caso de Israel, Irã é o maior apoiador de Bashar Al-Assad na Síria e do Hezbolá no Líbano. Percebe-se, então, que o conflito na Ucrânia tem reflexo em várias agendas da política externa norte-americana e na de seus aliados mais próximos. Assim, o maior desafio para entender os conflitos nos quais os Estados Unidos estão envolvidos, é enxergar a interdependência e os interesses das agendas da política externa norte-americana.

No entanto, ao que parece, a coesão entre Europa e Washington vem perdendo força. Nesse sentido, argumenta-se que o conflito na Ucrânia é arriscado demais, principalmente para os europeus que, no intuito de evitar outra guerra total, apostaram todas as suas fichas na integração, possível e não ideal, do velho continente. Tem-se a impressão de que a transformação do conflito ucraniano em um ícone da velha disputa entre ocidente e oriente, como foi o Vietnã no período da Guerra Fria, é algo que não está nos planos dos líderes europeus.

Desse modo, antes que a Ucrânia se transforme numa espécie de novo Vietnã para americanos e europeus, sustenta-se que a solução possível para a questão ucraniana passaria pelo fim do expansionismo da OTAN em direção à Rússia; pelo reconhecimento internacional da Criméia como território russo; pelo reconhecimento da autonomia política das regiões pró-Rússia do leste do país por parte do governo de Kiev; e por uma postura de neutralidade do país em relação aos interesses da Rússia e do Ocidente (Europa e EUA).

Dessa forma, algumas questões se impõem à Europa e demandam uma boa reflexão: Vale a pena embarcar numa dispendiosa, longa e arriscada empreitada belicista para ter a Ucrânia como membro da União Europeia e da OTAN? O que de fato a Ucrânia tem a oferecer à Europa? Não seria menos custoso, política e economicamente, reconhecer a influência russa na região em troca da estabilização das relações comerciais com seu principal parceiro estratégico no setor de energia, óleo e gás natural.

Robson Coelho Cardoch Valdez é Analista/Pesquisador – Relações e Assuntos Internacionais da FEE – Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. – UGRGS (robson@fee.tche.br).

6 Comentários em A Vietnãmização do Conflito na Ucrânia e o Risco de Colapso do Bloco Europeu, por Robson Coelho Cardoch Valdez

  1. Redação excelente. É interessante ver a influência da queda nos preços do petróleo sobre a agenda estadunidense no Oriente Médio. Contudo, vale dizer também que a disputa que envolve os preços do petróleo – pelo menos no campo estritamente dos negócios – está pondo produtores sauditas e grupos empresariais americanos em campos opostos. Se essa dicotomia é prejudicial ou proveitosa aos interesses dos Estados Unidos, não está claro.

  2. Perfeito Gihad! Esta ponderação se aplica ao caso da produçao do Xisto nos EUA. Como eu disse, os interesses americanos são diversos. Acredito que a Política externa americana tenta, na medida do possível, contemporizar os interesses de seus apoiadores domésticos (setor de defesa e petróleo). Em todo caso é interessante notar que hoje, 13 de fevereiro, o valor do barril de petróleo voltou ao patamar dos 60 dólares. Será que isso se deve a uma perspectiva de apasiguamento resultante dos acordo de Minsk (12/02)? Será que a manipulação dos preços do petróleo esteve na pauta da negociação do cessar fogo na Ucrânia? Obrigado pelo seu comentário 🙂

  3. Vietnamização não se refere ao processo de substituição das forças combatentes externas à nação em guerra civil por tropas nacionais treinadas e equipadas pelo estrangeiro em proxy wars? Em que medida tal processo é evidente na Ucrânia?

  4. Boa pergunta Felipe! Aqui o temo vietnamização foi usado mais no sentido de tentar antever o que pode estar por vir… algo como foi no Iraque e Afeganistão: os EUA entram., se complicam, passam a armar e treinar as forças locais e partem em retirada.

  5. Permita-me discordar do autor do texto, que vê a Ucrânia como o Vietnã, pois infelizmente a Ucrânia está mais para a Checoslováquia de 1938, com ditadores de um lado ocupando um país alegando questões étnicas e um bando de frouxos do outro lado.

    Ao autor do texto, entregar a Checoslováquia a Hitler, digo a Ucrânia a Putin não vai saciar a sede de poder dos nacionais-bolcheviques, pois já há generais russos falando das fases 2 (Polônia) e 3 (Romênia)!

    Alguns especulam que a 3ª Guerra Mundial começará entre 2015 e 2017. Não sei se será tão iminente, mas estou cada vez mais certo de que a geração Y lutará nesse conflito.