A Cúpula Celac-China: Interesses estratégicos em jogo, por André Mendes Pini

Realizou-se em janeiro de 2015 a primeira Reunião Ministerial do Foro Celac-China, em Pequim, com a participação dos 33 países da América Latina e Caribe junto ao gigante asiático. A iniciativa advém da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos realizada em Havana, em janeiro de 2014, tendo sido ratificada seis meses depois durante a Cúpula de Brasília. Chama a atenção o fato da República Popular da China ter sido a responsável pela iniciativa que engendrou a realização da I Reunião Ministerial, o que suscita a reflexão acerca da possibilidade do início de uma inflexão nas suas relações com a América Latina e o Caribe, transitando de um período no qual destacaram-se prioritariamente os aspectos econômicos e comerciais para uma nova fase de aproximação política, o que certamente suscitaria reações dos Estados Unidos da América, que sempre consideraram a região como “seu quintal”.

É notável que a China exerce cada vez mais protagonismo no cenário internacional, tendo em vista sua pujança econômica e demográfica, no entanto Pequim vem atuando nas últimas décadas no sentido de não fomentar desconfianças por parte dos EUA com relação às suas relações com a América Latina e o Caribe. Denota-se que “O soft power é o instrumento chinês para mitigar a ideia de “ameaça chinesa”, consolidando sua estratégia de “peaceful rise“, termo substituído depois por “peaceful development“(BECARD, 2013). O gigante asiático vem atuando na região majoritariamente por meio do comércio e investimentos, que já a colocam como a principal parceira comercial de diversos países na região, como o Brasil e o Chile. No entanto, a iniciativa de aproximação com latino-americanos e caribenhos no âmbito da CELAC coloca em xeque esse padrão de relação, devido, principalmente, à estrutura e funcionalidade específica desse foro regional.

A CELAC, cuja primeira reunião ocorreu em Caracas no ano de 2011, pode ser considerado um “spill over” do processo de aproximação regional oriundo do Grupo do Rio e da CALC (Cúpula da América Latina e Caribe para o Desenvolvimento e Integração), consolidando-se como uma iniciativa de perfil pouco institucionalizado, mas que desempenha um papel muito importante na região, por permitir o diálogo e a concertação em torno de uma agenda própria voltada ao desenvolvimento, sem a participação dos EUA e do Canadá. Justamente esse caráter autônomo da CELAC e excludente com relação à participação norte-americana gera a reflexão acerca da natureza da opção chinesa por estabelecer um mecanismo de diálogo com a região por meio da CELAC, evitando atuar, por exemplo, na OEA, organismo hemisférico que inclui os EUA. A atuação independente da CELAC perante os interesses norte-americanos evidencia-se, por exemplo, na participação ativa de Cuba desde a origem do foro, tendo Havana inclusive sediado a Cúpula de janeiro de 2014.

Analises recentes acerca do tema argumentam que a América Latina e o Caribe são regiões que não são prioritárias na agenda bilateral EUA-China. “Such issues as the U.S. trade deficit with the PRC, Chinese increasing military expenditure and differences in regional conflicts (Iran, Iraq, North Korea) are more salient in the bilateral agenda.” (LEON-MANRIQUEZ, Jose & ALVAREZ, Luis, 2014) No entanto, os documentos firmados no Encontro Ministerial Celac-China podem fortalecer os setores da opinião pública norte-americana que alertam acerca da ameaça que a crescente presença chinesa na região representa à influência dos EUA.

Os acordos firmados no Encontro Ministerial Celac-China apontam não somente para a intenção de dobrar o comércio bilateral – atingindo U$ 500 bilhões – e também realizar investimentos da ordem de U$ 250 bilhões na América Latina e Caribe nos próximos dez anos, como também apontam para a intensificação da cooperação sul-sul de Pequim com a região – em temas como segurança, comércio, finanças, tecnologias, recursos estratégicos, indústria e agricultura –  formalizadas em torno do documento denominado “Plano de Cooperação para o quadriênio 2015-2019”.

A inserção internacional chinesa contemporânea advém, majoritariamente, de sua pujança econômica, e apesar da diminuição do ritmo de crescimento nos últimos anos, o país apresenta tendência nas próximas décadas de tornar-se a maior economia do mundo, como foi durante 18 dos últimos 20 séculos, representando de forma singular o único país em desenvolvimento no centro do poder mundial, sendo a detentora, por exemplo, de um assento no Conselho de Segurança da ONU (KISSINGER, 2012). A política externa chinesa atua para liderar os países do Sul, visando a mudanças e/ou resistência frente assimetrias da ordem mundial, sendo a aproximação com a América Latina e o Caribe coerente nesse sentido, devido à inserção já consolidada em regiões como a Ásia – em que desempenha um papel político de extrema relevância, principalmente no período posterior às crises de 1997 na região, por meio de iniciativas que oferecem uma alternativa ao Ocidente e suas instituições na região, como a Chiang Mai Initiative e o recém criado Fundo BRICS de reserva –  e a África – onde desempenha papel de generoso investidor e provedor de financiamentos, em troca do fornecimento de commodities, principalmente petróleo (PAUTASSO, 2011).

O que não se pode perder de vista é a existência de um elemento adicional extremamente relevante relativo aos interesses chineses na CELAC, e que perpassa os elementos relacionados à sua inserção internacional enquanto líder dos emergentes, embora seja muito mais relativo à sua política doméstica. A América Latina e o Caribe comportam 12 dos 22 países que reconhecem Taiwan em detrimento da República Popular da China – Panamá, Paraguai, Nicarágua, El Salvador, Honduras, Guatemala, Belize, República Dominicana, Haiti, São Cristovão e Nevis, São Vicente e Granadinas e Santa Lucia- o que atribui à região um elemento estratégico valiosíssimo para a histórica ambição do Partido Comunista da China de anexar Taiwan e unificar o país.

A importância histórica do Caribe na política mundial consolidou-se enquanto rota comercial que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico, e os recentes projetos de reforma e ampliação do Canal do Panamá, assim como a construção de um novo Canal na Nicarágua – com robustos capitais chineses – tendem a aumentar o grau de importância da região. O que se pode afirmar, no entanto, é que a região agora é palco de uma disputa por influência também política. Os recentes esforços norte-americanos de viabilizar uma reaproximação com Cuba, na intenção de ambos os países em retomar suas relações diplomáticas, representam uma inflexão histórica na diplomacia norte-americana e evidenciam sua preocupação em estabelecer um novo padrão de relação e diálogo com a região. O foro Celac-China, por sua vez, complementa o vigoroso suporte econômico e financeiro que Pequim vem oferecendo à região nos últimos anos – principalmente aos países que a reconhecem – e é a contrapartida política chinesa nesse sentido, dando  sequência à aproximação estabelecida anteriormente pela visita de Xi Jinping a Brasil, Argentina, Venezuela e Cuba em julho de 2014.

A disputa por influência na América Latina e Caribe é claramente benéfica para a região, pois oferece margem de manobra para balancear a histórica dependência dos EUA e se insere em um contexto mais amplo de transição sistêmica, caracterizado pelo rearranjo de forças no sistema internacional, o que se desdobra justamente na abertura de espaços para países emergentes (PAUTASSO, 2011). Com relação à China, os países da Celac certamente têm a intenção de balancear as relações comerciais assimétricas que ostentam com o gigante asiático, tanto na pauta de exportações – que evidencia uma dinâmica de relacionamento padrão norte-sul, com a China exportando manufaturados e importando commodities – quanto no abismo que representa a importância relativa que os países da região representam comercialmente para os chineses e vice-versa – o caso do Brasil é emblemático nesse sentido, pois o país tem a China como seu principal parceiro comercial, enquanto oscila entre a oitava e a décima posição para Pequim (RIBEIRO & JUNIOR, 2013) – somado a isso vem o fato de que a demanda chinesa por commodities  vem declinando na medida em que a política interna chinesa definiu no seu último Plano Quinquenal políticas que priorizam o crescimento do mercado interno, o que torna a América Latina e o Caribe ainda menos importante na pauta comercial chinesa (VADEL, 2011; FERCHEN, 2011).

À guisa de conclusão, denota-se que embora seja passível de argumentações em contrário, a atual conjuntura internacional sugere uma transição na política chinesa perante a América Latina e Caribe, com a ampliação dos laços consolidados na esfera comercial e financeira, para iniciativas no âmbito político sob a bandeira da cooperação sul-sul, como os documentos firmados no Encontro Ministerial Celac-China sugerem. Essa inflexão na política chinesa se insere em dois âmbitos distintos, a crescente ambição chinesa de estabelecer vínculos com os países do sul e se consolidar como líder desse bloco emergente, à medida que segue rumo à posição de maior economia global; assim como o projeto interno de unificação da China, com a aproximação e cooptação de mais da metade dos países que ainda mantém internacionalmente o reconhecimento de Taiwan em detrimento da RPC.

 Referências

  • BECARD, Danielly Ramos; CASTRO, Aline Contti. As relações China-ASEAN e a construção da liderança sub-regional chinesa: economia e diplomacia (1997-2010). Revista Carta Internacional, vol 8, nº1, p 22-47. ABRI, Brasília, 2013
  • FERCHEN, Matt. As relações entre China e América Latina: Impactos de curta ou longa duração?. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 105-130. Curitiba, 2011.
  • KISSINGER, Henry. Sobre a China. São Paulo: Ed. Objetiva, 2011.
  • LEON-MANRIQUEZ, Jose; ALVAREZ, Luis F.. Mao’s steps in Monroe’s backyard: towards a United States-China hegemonic struggle in Latin America?. Rev. bras. polít. Int. Brasília, v. 57,n.spe, 2014.Disponível em http://www.scielo.br/article_plus.php?pid=S003473292014000300009&tlng=en&lng=en>. access on  19  Oct.  2014.
  • ITAMARATY. Beijing Declaration of the first ministerial meeting of the Celac-China Forum. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/ index.php?option=com_content&view=article&id=6743:documentos-aprovados-na-i-reuniao-dos-ministros-das-relacoes-exteriores-do-foro-celac-china-pequim-8-e-9-de-janeiro-de-2015&catid=42:notas&Itemid=280&lang=pt-br#beijing. Acesso em 05/02/2015
  • ITAMARATY. China-Latin America and Caribbean Countries Cooperation Plan (2015-2019). Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/ index.php?option=com_content&view=article&id=6743:documentos-aprovados-na-i-reuniao-dos-ministros-das-relacoes-exteriores-do-foro-celac-china-pequim-8-e-9-de-janeiro-de-2015&catid=42:notas&Itemid=280&lang=pt-br#beijing. Acesso em 05/02/2015
  • ITAMARATY. Discurso do Ministro Mauro Vieira na I Reunião do Foro CELAC-China. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/ index.php?option=com_content&view=article&id=6522:discurso-do-ministro-mauro-vieira-na-i-reuniao-do-foro-celac-china&catid=42:notas&Itemid=280&lang=pt-br. Acesso em 05/02/2015.
  • PAUTASSO, Diego. A Economia Continental Chinesa e seu Efeito Gravitacional. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 45-56. Curitiba, 2011
  • RIBEIRO, Pedro Feliú ; JUNIOR, Haroldo Ramanzini. As relações bilaterais Brasil-China: Uma relação em processo de afirmação. Revista Carta Internacional, vol 8, nº 1. Brasília, 2013.
  • VADEL, Javier. A China na América do Sul e as implicações geopolíticas do Consenso do Pacífico. Revista de Sociologia e Política, v 19, n. suplementar, p 57-79. Curitiba, 2011

Resumo

O artigo sugere a inflexão na política chinesa perante América Latina e Caribe, visando consolidar-se enquanto líder do bloco emergente, e aproximando-se a uma região composta por 12 dos 22 países que reconhecem Taiwan em detrimento da RPC.

André Mendes Pini é professor do curso de relações internacionais do Centro Universitário SENAC-SP (andrempini@gmail.com)

1 Comentário em A Cúpula Celac-China: Interesses estratégicos em jogo, por André Mendes Pini