O Petróleo no Perfil Econômico e Energético Chinês Contemporâneo, por Erwin Pádua Xavier

As Relações Internacionais como área de estudo ou disciplina acadêmica podem ser entendidas como o estudo das relações internacionais, isto é, das relações humanas que atravessam as fronteiras de – e conectam – distintas comunidades (grupos culturais) politicamente organizadas e autônomas ou independentes. Essas relações compreendem fluxos de ideias, informações, pessoas, bens, serviços, dinheiro etc. através de fronteiras político-culturais que separam e que, ao mesmo tempo, são o ponto de contato e transição de distintos sistemas sociais, políticos e culturais humanos.

Tais relações, contemporaneamente, se assentam sobre um tripé de setores ou áreas da vida internacional no qual se encontram os grandes e verdadeiros poderes mundiais que são capazes e efetivamente moldam ou controlam aqueles fluxos ou relações. Entendo que tais áreas ou setores através dos quais tais fluxos são predominantemente estruturados ou controlados como sendo o domínio das finanças internacionais, da energia e da mídia global.

O setor de energia – aquele que nos interessa aqui diretamente – diz respeito aos esforços, técnicas e processos através dos quais geramos força que abastece ou ativa os mais variados tipos de aparelhos, máquinas, ferramentas etc. que permitem o modo de vida contemporâneo, como o conhecemos e construímos, funcionar. Quase todo tipo de atividade humana, nos dias de hoje, depende de alguma ferramenta, aparelho, instrumento etc. que precisa de energia (térmica, cinética, eólica, solar, elétrica etc.) para ser operado. O presente e sucinto artigo visa a descrever, panoramicamente, o lugar que a China ocupa nesse setor em termos mundiais contemporaneamente, particularmente no mercado de petróleo, tentando extrair dele algumas conclusões.

Ainda hoje, três quartos da energia consumida mundialmente é oriunda do processamento ou da queima de combustíveis fósseis, isto é, da utilização de fontes energéticas não-renováveis (Klare, 2009, Fuser, 2008). Os chamados “trinta anos gloriosos” ou “anos dourados” (Hobsbawm, 1994: cap. 9) do sistema capitalista mundial foram regados a, e também possibilitados por, petróleo abundante e barato. O petróleo corresponde, hoje, a cerca de 40% da energia consumida anualmente no mundo.

Há perspectivas pessimistas e mais otimistas sobre o futuro do sistema energético mundial e do abastecimento mundial de energia. Autores mais otimistas, como Singer (2008), acreditam que o petróleo, em particular, tenderá e irá perder a sua importância como recurso estratégico internacional à medida que as suas reservas venham a ser consumidas e a se esgotar. Para ele, não fará sentido produzir-se, como no passado, conflitos e guerras por conta de um recurso que, por tornar-se escasso, será menos relevante e substituído por outras fontes de energia – e certamente menos poluentes. Outros analistas, mais pessimistas, como Michael Klare (2009), consideram que uma “nova ordem energética internacional” está emergindo que será, segundo expectativas, caracterizada por uma nova onda de “nacionalismo de recursos” que colocará um prêmio ou valor adicional ao petróleo na medida em que a demanda pelo produto é crescente – não apenas nos países desenvolvidos ou industriais avançados, como também, e especialmente, nos emergentes, estes liderados por China e Índia.

Além disso, é fato que as descobertas de novas reservas têm sido declinantes e não têm acompanhado o aumento do consumo, reforçando as previsões de que o atingimento do chamado “pico do petróleo” – ponto máximo de produção mundial que não será superado por razões geológicas – se aproxima ou é iminente (Fuser, 2008, Klare, 2009). Estimativas internacionais prevêem um aumento de quase 60% no consumo mundial de petróleo até 2030. Nesse domínio ou setor, a China tem ocupado posição crescentemente relevante.

A China no Mercado Mundial de Petróleo Hoje

A República Popular da China (RPC) se tornou, em 2009, o maior consumidor mundial de energia. Interessantemente, estimativas de uma década atrás indicavam o ano de 2030 como a data provável em que a China iria ultrapassar os Estados Unidos, superando o seu consumo energético anual. A China foi responsável por nada menos do que quase metade (50%) do aumento do consumo mundial de petróleo na década anterior, experimentado um crescimento anual de sua demanda petrolífera desde 2002 de 8% (Shambaugh, 2013: cap. 5).

A voracidade do apetite chinês por recursos naturais em anos recentes é notória, tendo recebido um de seus tratamentos mais rigorosos e informativos em Shambaugh (2013: cap. 5). A matriz energética chinesa contemporânea se sustenta quase que integralmente sobre a utilização e queima de combustíveis fósseis, sendo que o petróleo corresponde a algo em torno de 12% de tal matriz e o carvão, quase 80%. A China se tornou o segundo maior consumidor mundial de petróleo e, desde 1993, converteu-se em importadora líquida do produto, acesso ao qual, a preços razoáveis, é considerado fundamental para o continuado crescimento da economia chinesa (Downs, 2000, Kong, 2010, Shambaugh, 2013).

Em 2010, a RPC gastou, aproximadamente, US$140 bilhões com petróleo, tendo consumido 9,2 milhões de barris/dia do produto. Na primeira metade de 2011, a dependência chinesa de barris de petróleo cru importado ultrapassou, pela primeira vez, a dos Estados Unidos: naquele período, a China importou 55,2% do petróleo que consumiu, quando os Estados Unidos importaram 53,5%. Estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que a demanda chinesa chegará, em 2030, a 16,6 milhões de barris/dia, sendo que as importações corresponderão a 12,5 milhões de barris/dia ou 75,3% de todo o petróleo consumido pelos chineses (Shambaugh, 2013: cap. 5).

A RPC vinha desenvolvendo planos de criar uma reserva estratégica de petróleo como um dos meios de garantir a sua segurança energética (Downs, 2000). Tal reserva começou a ser construída em 2001, devendo ser concluída em 2020, oferecendo petróleo estocado em 12 diferentes bases e capaz de suprir o país por um período de cem dias (Shambaugh, 2013: cap. 5).

A atuação chinesa no mercado internacional de petróleo é, hoje, capitaneada e dirigida por empresas estatais que não são apenas as maiores da China. Duas delas, a Sinopec (China Petrochemical Corporation) e a CNPC (China National Petroleum Corporation) são, respectivamente, a quinta e a sexta maiores empresas do mundo. A CNOOC (China National Offshore Oil Corporation) é a mais jovem e menor das três, tendo, todavia, nascido, já no período de abertura e reformas pós-Mao, com um mandato de se internacionalizar (estratégia do “going out” e, posteriormente, do “going global”) (Shambaugh, 2013: cap. 5, Ko, 2010). Em 2007, a CNPC, a Sinopec e a CNOOC, juntas, produziram impressionantes 24,1% das receitas totais de vendas, 23,5% dos lucros e 40% dos impostos coletados entre as 123 maiores empresas estatais chinesas (Shambaugh, ibid).

Essas empresas, mas particularmente a CNPC e a CNOOC, têm sido a ponta de lança da estratégia chinesa de aquisição de direitos de exploração de campos e aquisição de reservas internacionais de petróleo pelo mundo. A CNPC, por exemplo, tem ativos em mais de 29 países e tem desbancado gigantes internacionais do setor nas ofertas e conquistas de direitos de exploração de campos na Ásia Central, África etc. Em torno de 47% do petróleo importado pela China vem do Oriente Médio, sendo o Oriente Médio e a África os seus maiores fornecedores regionais, e a Arábia Saudita e Angola os seus maiores fornecedores individuais, respectivamente (Shambaugh, 2013: cap. 5). Na América Latina, a Venezuela é o maior fornecedor de petróleo para os chineses, sendo que o Brasil tem se tornado um parceiro importante da China também neste setor. Em 2009, em meio aos crescentemente criativos métodos chineses de aquisição de reservas, um empréstimo de US$ 10 bilhões foi concedido à Petrobrás pelo Banco de Desenvolvimento da China em troca do fornecimento de 200.000 barris/dia de petróleo por um período de dez anos (Ibid).

A maioria do petróleo importado pela China chega ao país pela via marítima e através de rotas predominantemente controladas ou patrulhadas pela marinha americana, o que tem gerado receio e esforços dos chineses para incrementar a segurança de seu suprimento externo de petróleo investindo na construção de oleodutos, com destaque para o duto sino-cazaque de 2.228 km de extensão e aquele que liga a província extremo-oriental russa ao nordeste chinês.

Conclusão

A República Popular da China já é o maior consumidor mundial de energia e o segundo maior importador de petróleo no mundo. As suas companhias nacionais de petróleo são as maiores do país e duas delas estão entre as dez maiores empresas do mundo. A avidez assustadora da China por recursos naturais e o crescimento impressionante de seu consumo de energia tem transformado o país num dos maiores jogadores do sistema energética mundial e do mercado internacional de petróleo em particular.

A diplomacia e as relações internacionais chinesas têm sido afetadas por tais pressões na medida em que o país se vê levado a estreitar relações com párias internacionais que são ricos em recursos naturais ou energéticos, o que tem tensionado as relações da China com o Ocidente e, por vezes, particularmente, com os Estados Unidos. A centralidade da energia para a manutenção do modo de vida contemporâneo no mundo e particularmente nas sociedades industriais mais avançadas do planeta determina que não apenas as disputas por acesso a fontes crescentemente escassas de energia podem vir a se tornar mais distributivas e violentas, mas que a atuação da China e de suas estatais será crescentemente acompanhada pelos atores globais no setor energético. Esse é um domínio da vida global contemporânea que será fundamental compreender bem, e principalmente para um país como o Brasil, cujas descobertas petrolíferas recentes poderão colocá-lo, potencialmente, entre os dez maiores exportadores de petróleo do mundo.

Referências bibliográficas

  • DOWNS, Erica S. China’s Quest for Energy Security. Santa Monica: RAND, 2000.
  • FUSER, Igor. Petróleo e Poder: o Envolvimento Militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. São Paulo: Editora UNESP, 2008.
  • HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
  • KLARE, Michael T. Rising Powers, Shrinking Planet: the New Geopolitics of Energy. New York: Metropolitan Books, 2009.
  • KONG, Bo. China’s International Petroleum Policy. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2010.
  • SHAMBAUGH, David. China Goes Global: the Partial Power. Oxford: Oxford University Press, 2013.
  • SINGER, Clifford E. Energy and International War: from Babylon to Baghdad and Beyond. Singapore: World Scientific Publishing Co., 2008.

Erwin Pádua Xavier é professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia – UFU (erwin@ie.ufu.br).

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