Resenha de “Goodbye, Brazil: Emigrantes brasileiros no mundo”, a análise de uma americana sobre a migração brasileira, de Maxine Margolis, por Carla Alexsandra do Carmo Ribeiro

Acompanhamos na mídia televisiva e em outros meios de comunicação, a crescente migração de Haitianos, Sírios e Africanos em direção ao Brasil. Impulsionados por diversos problemas em seus países de origem e com a propaganda positiva do Brasil no exterior, imigrantes chegam todos os dias, atravessam nossas fronteiras e demandam do Estado brasileiro ações rápidas de acolhimento, colocação laboral e documentos legais. Enquanto absortos na questão dos recém-chegados, talvez esquecemo-nos dos milhares de brasileiros que vivem no exterior e que, por conta da crise financeira mundial e de outros eventos exógenos como o terremoto e o tsunami no Japão, tem retornado para o Brasil. Estima-se que de 300 a 400 mil brasileiros voltaram para casa desde 2007.

Para nos relembrar dos milhares de brasileiros migrados, Maxine Margolis escreve “Goodbye, Brazil – Emigrantes brasileiros no mundo”, Editora Contexto, 2013, com uma precisão e riqueza de argumentos que surpreende àqueles que descobrem a autora americana e não, brasileira. Natural de Manhattan, a antropóloga trabalha com a temática migratória desde 1980 e percorreu diversos Estados americanos em busca de brasileiros que para lá migraram almejando melhores condições de vida.

Contudo, engana-se quem pense que Margolis tratará apenas dos brasileiros migrados para os Estados Unidos da América. Nesse recente trabalho, a autora vai além. Primeiro, a estrutura de sua obra mostra-se muito bem feita, demonstrando que o estudo das migrações internacionais é, tal qual seu objeto, universal. Destarte, a autora não só retoma o contexto histórico da migração para os Estados Unidos, como também abre espaço para outros destinos: Europa continental, Inglaterra, Irlanda, Japão, Austrália e países da América do Sul, especialmente, a questão da migração de brasileiros para o Paraguai, chamados de “Brasiguaios”.

Segundo fator interessante diz respeito às peculiaridades reveladas pela autora ao demonstrar que as contradições entre as classes sociais se reproduzem também no contexto migratório.  Apoiada por uma pesquisa documental, bibliográfica e empírica, Margolis dedica um subtítulo para relacionar a classe social e a emigração, de modo a fundamentar que há uma animosidade ou mesmo uma cisão entre brasileiros de classes sociais diferentes dentro do mesmo limite geográfico.

A autora recorre a Roberto DaMatta, antropólogo brasileiro, para demonstrar que a sociedade brasileira se preocupa com a posição social e que essa preocupação é levada na bagagem dos migrados. Um dos exemplos mais perceptíveis àqueles que refletem a questão pode ser verificado quanto à migração de brasileiros para a Flórida, especialmente Miami.

É sabido que nesse espaço há duas diferentes classes sociais: a dos brasileiros com capital e que investem na cidade comprando imóveis e se declaram pertencentes a um “nível mais alto” e, por outro lado, seus compatriotas pobres de Pompano Beach e Deerfield Beach, os quais os “de nível mais alto” se referem de forma pejorativa como “mineirada” ou a “gangue de Minas Gerais” (MARGOLIS, 2013, p.71). Outra construção social analisada é a raça, além de variáveis como escolaridade e gênero.

Crianças e adolescentes têm surgido nos estudos da migração internacional como novos atores no cenário migratório. Margolis não se mostra indiferente a eles e traz para o debate a questão das crianças que acompanham os pais na experiência migratória. Revela a emergência da chamada “Geração 1.5”, crianças que migraram ainda muito pequenas com os pais e que são inseridas na sociedade de destino, iniciam o seu processo educacional e cognitivo em um idioma que geralmente não têm domínio, mas que absorvem o ethos social, os valores daquela sociedade e que, com o passar do tempo, já não se reconhecem mais como integrantes da sua sociedade original. Da mesma forma, as crianças da “Segunda Geração”, filhos de brasileiros nascidos nos Estados Unidos da América, Portugal, Itália ou Japão, que muitas vezes não falam o português e que, como aduz a autora, ainda é muito cedo para dizer se as crianças nascidas no exterior seriam um impeditivo para que os pais decidissem por “voltar para casa”.

O terceiro fator interessante da obra de Margolis está descrito em um capítulo dedicado exclusivamente ao tema da religião. Se antes falávamos nas redes sociais, grupo de amigos ou parentes já migrados e que ajudavam outros a chegarem, minimizando custos e o tempo gasto com a busca por postos de trabalho no país de destino, os laços que unem e agrupam milhares de brasileiros na migração dos últimos anos tem sido a religião. São nos templos evangélicos e nas comunidades católicas brasileiras que se encontram os centros de convergência mais poderosos das comunidades brasileiras no exterior. As dificuldades cotidianas como a barreira do idioma, a xenofobia, a inserção na sociedade de destino, dificuldades em conseguir trabalho, situação legal irregular, insuficiência alimentar ou econômica são impulsos que levam os brasileiros a procurarem ajuda nas igrejas ou templos, pois esses funcionam como verdadeiros centros de assistência social, refúgio e apoio psicológico, centros comunitários onde se pode adorar e celebrar e onde todos são bem-vindos, independente de classe social.

Finalmente, o capítulo que faz dessa obra de Margolis uma obra essencial àqueles que estudam a migração internacional no Brasil é o último capítulo titulado “Hoje aqui e amanhã… quem sabe?”. Demonstrando sua competência no estudo da migração brasileira, a antropóloga nova-iorquina alia diversos estudos de conceituados mestres e acadêmicos brasileiros para descrever o recente movimento de brasileiros que voltam para o Brasil, motivados pela crise financeira mundial que fechou postos de trabalho nos países centrais, prejudicando diretamente os trabalhadores imigrantes que são os primeiros a perderem o trabalho, dando lugar para os nativos que antes não queriam assumir funções, muitas vezes, de baixa qualificação.

O retorno é uma nova migração. A autora analisa vários problemas relativos ao retorno. A Síndrome do Regresso é uma delas. Após a experiência migratória – geralmente para países centrais onde os problemas sociais são menos evidentes ou até mesmo, inexistentes, ou a máquina burocrática funciona de forma eficiente, onde não há problemas com a segurança pública – os brasileiros percebem uma forte mudança na forma como veem o mundo. A alteração na sua visão de mundo também altera o ânimo desse indivíduo levando-o à tristeza e muitas vezes, a depressão.

Muitos brasileiros partem novamente do país. Retornam onde estavam. Muitos recorrem a migração irregular. Tornam-se invisíveis para o país de destino e também para o Brasil, contribuindo para que o número de brasileiros migrados não seja próximo ao exato ou corresponda à realidade. Destarte, quando se fala do número de brasileiros no exterior, fala-se em estimativas.

A contribuição da autora mostra-se exemplar ao tocar em um ponto crucial para os brasileiros que retornam que é a questão das iniciativas governamentais de apoio aos brasileiros migrados. Margolis aponta as cartilhas do Governo Federal, em especial a cartilha “Guia de Retorno ao Brasil”, 2010, do Ministério das Relações Exteriores, com um incontestável equívoco: não diz claramente a quem se destina. Ao informar aos brasileiros que retornam sobre os serviços federais ou programas sociais como o Bolsa-Família, a autora aponta que “… nenhum deles é dirigido especificamente a migrantes repatriados…” e que o Bolsa-Família é “… um programa a que pouco provavelmente brasileiros repatriados estejam aptos a se candidatar” (MARGOLIS, 2013,p.263).

Ao expor a contradição entre o que é oferecido como informação ou orientação aos brasileiros no exterior e a realidade desses, a autora revela também a necessidade de estudos mais profundos quanto à realidade dos brasileiros migrados, suas distinções e variáveis pois, os brasileiros que migraram para os Estados Unidos da América, detentores de um Green Card e investiram em um imóvel na Flórida são diferentes dos brasileiros que migraram para o mesmo país atravessando a fronteira com o México, guiados pela astúcia de um coiote; que são diferentes dos primeiros trabalhadores decasséguis que seguiram para as fábricas de automóveis e as indústrias de transformação no Japão no final da década de 1980 e início da década de 1990 e que pelo Japão ficaram, tornando-se permanentes e não mais transientes; que são diferentes dos milhares de brasileiros que migraram para a Europa, com dupla cidadania ou são “sin papeles” na Espanha; que são diferentes dos brasileiros, em especial Paraenses, que atravessam o rio na fronteira com a Guiana Francesa para as minas de ouro e diamantes; que são diferentes dos brasileiros que foram estudar na Austrália e por lá ficaram e, finalmente, que são diferentes dos brasiguaios ou dos brasileiros que migraram para outros países da América do Sul, para cursarem as faculdades de Medicina nos países vizinhos ou não.

Margolis plantou uma semente. Essa semente já germina em estudos acadêmicos que procuram demonstrar aos formuladores de políticas públicas no Brasil, a necessidade de se fomentar e produzir estudos condizentes com a realidade complexa da migração brasileira. Há inúmeras outras informações e orientações que poderiam ser contempladas nas cartilhas e, essas cartilhas poderiam ter uma maior divulgação.

O Brasil está na contramão da retórica dos países centrais ao privilegiar a crescente imigração de estrangeiros, mas cumpre o seu papel humanitário como ator importante no cenário internacional. É preciso também que não se esqueça de seus nacionais ainda que esses estejam além de suas fronteiras.

Bibliografia 

MARGOLIS, Maxine L. Goodbye, Brazil: emigrantes brasileiros no mundo. São Paulo: Contexto, 2013. ISBN 978-85-7244-813-0

Carla Alexsandra do Carmo Ribeiro é mestranda em Política Social pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT (carlaalec@hotmail.com)

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