Instituto Brasileiro de Relações Internacionais: sessenta anos com o mesmo empreendimento, por Amado Luiz Cervo

Em 1954, sessenta anos atrás, um grupo de intelectuais brasileiros fundou o Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, movido pela necessidade e pela intenção de promover estudos sobre a inserção internacional do Brasil. Em 1958, o grupo lançava o primeiro número da Revista Brasileira de Política Internacional-RBPI, publicação que mantém sua regularidade até o presente.

O nascimento do IBRI ocorria no momento em que o desenvolvimentismo da era Juscelino Kubitschek requeria maturidade de pensamento para instruir a decisão em política externa e influir sobre a qualidade da inserção internacional do país. Esse espírito governava as mentes dos fundadores, José Honório Rodrigues, Oswaldo Trigueiros, Henrique Valle e Cleantho de Paiva Leite. Se estivessem entre nós, em 2014, por certo orgulhar-se-iam de contemplar o ponto de chegada de seu projeto editorial, que se apresenta como a mais antiga e a maior coletânea de estudos sobre relações internacionais existente no país.

A oportunidade do lançamento da RBPI pelo IBRI nos anos cinquenta do século XX resulta principalmente da inexistência na Universidade brasileira de então, ainda jovem, de qualquer núcleo de pensadores sobre relações internacionais. E da conveniência de pensar, debater e avaliar a escolha de estratégias externas adequadas à promoção da maturidade da nação.

Quantos dilemas, com efeito, enfrentará o Brasil, dos anos 1950 ao século XXI! As divisões de pensamento e de opções consequentes escandem a formação nacional, desde então, entre dirigentes e na sociedade. Entreguistas e nacionalistas, liberais e protecionistas, industrialistas e primaristas, americanistas e universalistas, isolacionistas e globalistas, pacifistas e confrontacionistas. Não convinha e não convém, pois, pensar a inserção internacional? Qual o rumo da formação nacional? Sem pensamento forte, uma nação não se põe em marcha rumo à maturidade. A História que o diga!

As contradições do pensamento internacionalista brasileiro desembocaram, com o tempo e a reflexão, em admirável harmonia. Harmonia que, se não foi suficiente para orientar o país ao patamar desejável de sua cultura e de seu desenvolvimento, salvou-o, por certo de radicalismos presentes em outras experiências de formação nacional, que a ninguém fazem inveja.

Os grandes desígnios da evolução brasileira amarraram o interno ao externo, como se percebe lendo as análises da RBPI, dos anos 1950 ao presente. O Brasil moderno nasceu conectado ao mundo, universalista, cultor de vocação globalista. Aborreceu-lhe o isolacionismo; se pendeu para o ocidentalismo ou o latino-americanismo, fê-lo para lançar raízes na vizinhança e ir além, como se aqueles fossem instrumentos do desígnio universalista.

A modernização do país foi concebida antes da fundação do IBRI como derivada da industrialização. Esta, porém, não convinha que fosse dependente apenas desta ou daquela nação avançada, que aportaria insumos externos ao desenvolvimento interno por meio de capitais, empreendimentos e tecnologias. Nascia, destarte, a ideia de cooperação externa necessária, que a RBPI cultivou. Assim como estimulou projetos voltados à autonomia do processo de desenvolvimento, ou seja, formação de capital, criação de empresas e inovação tecnológica nacionais. Uma complementação entre interno e externo.

A necessária convivência de diferenças sugerida pela heterogeneidade da identidade brasileira inspirou entre pensadores o conceito do universalismo sem restrições e do pacifismo. Inspirou como traço da política exterior a boa convivência entre nações, mesmo distintas por cultura, etnia ou civilização. Sucumbiram no tempo proselitismos políticos e diplomáticos, tais como amarrar o país ao ocidentalismo, ao liberalismo radical, ao anticomunismo, a ideologias excludentes. Cresceu uma nação tolerante, cooperativa, pacifista, internacionalista como pensavam os fundadores da RBPI: um liberalismo cunhado na identidade, uma experiência nacional quase única no mundo pela sua envergadura.

Em 1993, após a morte de Cleantho de Paiva Leite no ano anterior, IBRI e RBPI transferiram-se do Rio de Janeiro para Brasília. Tanto em sua origem quanto por ocasião dessa transferência, diplomatas e professores universitários uniram-se para dar início ou continuidade ao empreendimento. Porém, uma nova fase inaugurava-se junto à Universidade de Brasília, cujo Instituto de Relações Internacionais abrigou IBRI e RBPI desde então.

Naquela década proliferaram no Brasil cursos de graduação e depois de pós-graduação em relações internacionais. Grupos de pensamento, pesquisa, ensino e publicação nessa área foram surgindo. A sociedade amadurecia para os estudos, novas revistas e publicações voltavam-se ao tema, enfim, não estava mais o Itamaraty isolado da sociedade ao ocupar-se com a inserção internacional do país, tampouco a UnB ao estimular seus programas de ensino e pesquisa. Entretanto, com seu curso pioneiro de relações internacionais, implantado em 1974, a Universidade de Brasília assumiu as responsabilidades mantidas nos anos anteriores por Cleantho de Paiva Leite, Diretor do IBRI e Editor da RBPI. É fácil entender, nessas circunstâncias, a nova fase da Revista Brasileira de Política internacional.

Além de manter ininterruptamente a publicação da revista, o IBRI irá atuar como organizador de seminários e editora.  Em coedição ou isoladamente, publicou dezenas de obras sobre relações internacionais em si ou sobre a inserção internacional do país. Transformou-se em pesquisador e provedor de conhecimento especializado tanto para segmentos da sociedade que dele se serviam com a finalidade de ampliar o espectro das relações exterior do pais, quanto para subsidiar o ensino de relações internacionais nas Universidades. Contudo, o grande projeto permaneceu sendo a revista, cuja coletânea atual vai além de uma centena de volumes.

Desde a década de 1990, sem descolar-se dos diplomatas, os professores da Universidade de Brasília que assumiram a direção do IBRI e a edição da RBPI vincularam tais empreendimentos à sociedade, especialmente às Universidades. A revista aprimorou sua qualidade com essa agregação de inteligência, evitou publicar documentos oficiais e concentrou-se em estudos avançados sobre as relações internacionais. Tornou-se indispensável à comunidade acadêmica, à diplomacia e a outros segmentos da sociedade envolvidos com aquilo que era seu objeto específico de estudo.

A RBPI espelhou o grande debate dos anos 1990, entre neoliberais, desenvolvimentistas e neodesenvolvimentistas, até que a nação definisse e consolidasse seu novo paradigma logístico de inserção internacional no século XXI, a era da interdependência global. Contribuiu, destarte, com conceitos elaborados no Brasil para implantação pela nação de modelo próprio de inserção internacional, feito de cooperação entre Estado e sociedade, ao imbricar condução política com participação de atores não governamentais.

Por haver-se refugiado na academia, e no maior centro de estudos de relações internacionais do país, a RBPI se faria atenta aos requisitos de publicações universitárias congêneres de todo o mundo, as quais aspiram situar-se entre as classificadas no topo das escalas. Por isso goza de prestígio como periódico científico nos países onde existem centros de estudo de relações internacionais e ocupa atualmente classificação elevada das entidades que estabelecem as posições das revistas pela qualidade editorial.

Ao completar sessenta anos de atividades, o Instituto Brasileiro de Relações Internacionais pode orgulhar-se de seu maior empreendimento. A Revista Brasileira de Política Internacional segue cumprindo sua missão original: rastrear o pensamento brasileiro e instruir decisões de que depende o curso do país rumo a sua maturidade sistêmica.

Amado Luiz Cervo é Professor Emérito da Universidade de Brasília e Presidente de Honra do Conselho Editorial da Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI (alcervo@unb.br).

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