Eleições presidenciais no Uruguai – aproximações com a política brasileira, por Ricardo Luigi

No dia 30 de novembro teremos o segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai. As pesquisas têm demonstrado certa estabilidade ao apontar dez pontos percentuais de vantagem de Tabaré Vázquez, candidato da Frente Ampla, sobre Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional (também chamado de Branco). É importante para os brasileiros conhecerem as ideias gerais dos candidatos dos países vizinhos e o quanto cada candidato, se eleito, pode impactar na relação com nosso país.

Buscarei levantar algumas aproximações entre a política uruguaia e a brasileira. Será sempre uma generalização grotesca comparar representantes políticos de países com realidades tão distintas. Mas, em linhas gerais, nota-se que o eleitorado de Dilma e Vázquez se assemelha em relação a tendências de esquerda e progressistas. Aécio e Lacalle Pou também possuem uma faixa semelhante do eleitorado, que possui um perfil mais pragmático e prefere um governo mais liberal do ponto de vista econômico.

O Uruguai possui uma democracia mais madura que a nossa. Desde 1919  tem em sua constituição institutos de democracia direta. E esse background democrático faz com que a disputa eleitoral seja diferente. Em vez de desrespeito entre os candidatos, há ironia. Em vez de ataques e invalidação das propostas alheias, há tentativas de convencimento e consenso. O mote da campanha de Lacalle Pou ressalta isso, ao defender uma campanha respeitosa e com embate civilizado de ideias: “Por la positiva”.

Lacalle Pou, assim como fez Aécio, traz o discurso da inovação, tanto na idade menor que possuem em relação ao oponente, quanto na ideia de mudança no panorama político dos países. Com 41 anos, declarou durante o embate eleitoral que seu opositor, aos 74, pode não ter “a perícia e a vitalidade” necessárias para governar.

Por sua vez, Tabaré Vázquez representa a continuidade. Além de ter sido presidente uruguaio entre 2005 e 2010, é do mesmo partido do atual presidente, José “Pepe” Mujica. Como no Uruguai não é permitida a reeleição, sendo possível apenas um mandato de cinco anos, Vázquez tem como trunfo e principal proposta a manutenção do crescimento que o Uruguai vem experimentando nos últimos dez anos.

No aspecto econômico, as diferenças se acentuam. O Uruguai atravessa um momento de crescimento contínuo do PIB, pelo menos nos últimos dez anos. Momentos de estabilidade econômica favorecem a manutenção do status quo, o que ajuda a explicar boa margem de distância entre os candidatos. Em comum, o fantasma da inflação.

Contudo, o governo de Mujica tomou medidas enérgicas, congelando preços de produtos, fazendo com que o assunto não adquirisse um viés eleitoreiro. Aqui no Brasil a inflação tem sido um dos maiores fantasmas. Uma inflação real que escapa das estatísticas. Além disso, não estamos no nosso melhor momento econômico, o que aumenta sobremaneira a pressão sobre o governo e diminui a força das iniciativas progressistas.

Infelizmente, política externa não ganha voto. Portanto, essa distinção fundamental entre os programas de governo dos candidatos foi negligenciada pela opinião pública, aqui e acolá. Porém, em ambos os casos emergem críticas dos candidatos de oposição ao possível predomínio do aspecto ideológico na organização dos programas de governo.

O governo Dilma defende uma inserção internacional sul-sul, priorizando negociações com nossos países vizinhos e com outros parceiros dentre os emergentes. É muito próximo do que defende Vázquez, embora seu programa de governo traga poucas páginas dedicadas ao tema. Resta saber se irá se diferenciar de Mujica, que, embora possua ideias semelhantes, na prática foi bastante crítico em relação ao pequeno avanço da integração sul-americana.

O programa do candidato Aécio Neves era muito bem estruturado, mas partia de outros pressupostos, lamentando o nosso distanciamento da Europa e dos Estados Unidos, projetando uma mudança de eixo para um retorno à cooperação norte-sul. Lacalle Pou possui argumentos semelhantes, chamando a atual política externa do Uruguai de “ideologizada”. Pretende ampliar as relações com os países mais desenvolvidos, e até com vizinhos mais neoliberais, com pouca ênfase nas relações com o Brasil.

Quem quer que vença as eleições no Uruguai terá um horizonte menos turbulento do que o que a presidente Dilma irá enfrentar no Brasil. Terá que conviver, entretanto, com fantasmas que assombram, de certa maneira, todo o continente sul-americano (e por que não dizer o mundo): desindustrialização, demanda por integração regional, progressismo x conservadorismo. O adicional de dificuldade no caso uruguaio será lidar com a herança carismática de Mujica, difícil de se reproduzir.

Ricardo Luigi é  professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista – UNIP  e Doutorando em Geografia Humana pela Universidade de Campinas – Unicamp (ricardoluigi@oi.com.br

1 Comentário em Eleições presidenciais no Uruguai – aproximações com a política brasileira, por Ricardo Luigi

  1. Caro Luigi, que independente do carinho e amizade tem o meu reconhecimento profissional pela abrangência de síntese/análise do político-social que nos cerca. Apesar de o nosso vizinho ter aproximadamente uma população de 3,5 milhões, inferior a dezenas de cidades do nosso Brasil, entendo que tudo é proporcional, apenas ser menos doloroso administrar em relação a um país com 200 milhões. A relação população/sociedade/PIB/cultura/saúde/benefício pesa muito em análise comparativa que processamos. Parabéns e abraços.