Turcos, Curdos e o Estado Islâmico: inércia e ação na política regional do Oriente Médio, por Danillo Alarcon e Guilherme Carvalho

A política da Turquia, desde a criação da República nos anos 1920, tem sido voltada para a aproximação com o mundo Ocidental. Alguns dos marcos deste processo são, por exemplo, a sua adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1952 (devido à sua posição estratégica relevante se tornou um dos principais aliados dos EUA na Guerra Fria), a assinatura do Acordo de Ankara (1963) que lhe rendeu a aproximação com a Comunidade Econômica Europeia (CEE), e com a conclusão em 1995 de um acordo de União Aduaneira com a União Europeia (EU). Não obstante os desafios e problemas impostos, ainda em 2005 foram iniciadas as negociações formais para a adesão completa do país à UE, que, todavia, não se cristalizou. Os avanços e retrocessos não fazem, contudo, que esta seja uma relação relegável a segundo plano, e a ascensão do Estado Islâmico na fronteira turca prova cada vez mais a importância do país para o cálculo ocidental.

A participação turca na OTAN lhe rendeu uma posição de prestígio regional, sendo ela estrategicamente muito importante justamente por ter sobre sua posse os estreitos de Bósforo e de Dardanelos. É essa posição privilegiada que lhe rendeu a condição de potência média, adquirindo assim algumas responsabilidades sobre fatos e fatores de estabilização geopolíticos regionais. Apesar de ter adquirido esse status, e junto com ela algumas responsabilidades, de acordo com Ozgur Özdamar (2014) a Turquia tem buscado manter-se fiel a uma política de não-intervenção nos assuntos internos dos seus Estados vizinhos no Oriente Médio, até mesmo para manter o seu equilíbrio interno e não dividir o país entre um bloco pró-ocidente e outro antiocidental.

O fato de a Turquia culturalmente e geograficamente estar entre o Oriente Médio e a Europa causa, de acordo com Huntington (1999), uma desconfiança em ambos os continentes ao se aproximarem da mesma. Tal desconfiança é por vezes justificada por lutas internas (tendência à secularização versus conservadorismo religioso), fazendo com que sua entrada na UE seja problemática. No entanto, é provável que a Turquia permaneça na OTAN, já que é muito difícil que o partido governante atual, o Refah Partisi (Partido da Prosperidade), que apresenta uma retórica mais conservadora, abra mão do guarda-chuva protetor da aliança com os EUA.

Há hoje, todavia, um desafio muito maior à Turquia e que resvala diretamente em seus aliados ocidentais: o surgimento no Iraque de um movimento islamita, que clama para si uma interpretação radical do Corão. Tal grupo, que se denomina Estado Islâmico, tem ganhado força contrariando as expectativas de que a modernidade laica impulsionada na região pela Turquia se difundisse para outros países próximos a ela, como a Síria e o Iraque, que são justamente os campos atuais de atuação dos radicais.

Segundo Pedro Costa Júnior (2014), “ao contrário da Al Qaeda, que trabalha de forma transnacional e por meio da comunicação de várias células em diferentes países, o Estado Islâmico tem uma visão geopolítica”. Para o autor, “isto significa ocupar um território e transformá-lo em seu”. Esta é justamente a “visão geopolítica” que dá ao grupo a possibilidade de diferenciar suas fontes de sustento, pois assim eles podem saquear bancos, estruturar pedágios e cobrar impostos da população, e inclusive aproveitar dos campos de petróleo na Síria e no Iraque. Isso é algo que outras organizações, como a próprio Al-Qaeda, não conseguiu fazer de forma sistemática.

A atuação do Estado Islâmico é uma ameaça direta ao próprio sistema de Estados do Oriente Médio, forjado no Acordo de Sykes-Picot (1916), bem como uma ameaça à integridade territorial da Turquia, que como referido anteriormente está cindida entre visões diferentes da construção de sua política externa e interna. Além disso, o governo de Recip Endorgan não poupou tensões com os EUA (que sempre tem a preocupação em manter a Turquia como uma parceira estratégica na região), confirmadas devido ao fato de que “Ankara se mostrou relutante em se comprometer com apoio militar no âmbito da coligação internacional contra o Estado Islâmico” (EBC, 2014).

Não bastassem os problemas acima expostos, há ainda uma questão crucial para o Estado turco moderno: os curdos, que representam cerca de 20% da população do país. A situação dos Curdos na região sempre foi conflituosa e tensa. Os esforços de Ankara para colocar o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) na ilegalidade com o status de grupo terrorista foram bem sucedidos, mas o perigo de uma crise regional ainda é eminente. Para alguns analistas, existe o perigo “de uma intensificação regional do conflito, similar ao ocorrido no conflito Israel-Palestina é real. Uma inflamação de nacionalismo curdo poderia radicalizar ainda mais nacionalistas persas, árabes e turcos, dificultando, todavia mais a procura por uma solução” (ÖCALAN, 2008, p.38).

A postura norte-americana, face ao Estado Islâmico, é a de armar os curdos, justamente pelo fato da Turquia devido a pressões internas não se envolver diretamente, mas sim indiretamente (cedendo passagem para as armas para os curdos, bem como o uso do território para as forças curdas). Conforme foi supracitado, o Estado Islâmico tem claros interesses em expansão territorial (principalmente para zonas onde há petróleo). Os curdos são assim o proxy ideal para levar adiante os ataques por terra ao EI, pois em todas as esferas estatais em que eles foram divididos, eles tem muito a perder: “os curdos obtiveram autonomia [na Turquia] desde 2005 e hoje são considerados umas das poucas forças disponíveis para enfrentar o Estado Islâmico na região” (BBC, 2014). Muito disso se deve também a perseguição aos curdos por parte do Estado Islâmico, sendo reforçado pela autonomia econômica e político que conseguiram que ficam ameaçados com a chegada do Estado Islâmico a uma região que tem uma grande densidade populacional curda.

Há, como foi exposto, um jogo complexo que envolve a Turquia, seus Aliados da OTAN, os curdos, e o EI no Oriente Médio. Apesar das disputas internas na Turquia e da transição de poder, eles se expressam de uma maneira a tranquilizar seus aliados e mostrar que não compactuam com a atuação do Estado Islâmico, e nem querem aderir ou dar espaço ao grupo, dentro de seus territórios. Os turcos enfatizam por outro lado a necessidade da saída de Bashar al-Assad do poder na Síria, como condição sine qua non para a resolução do conflito (CALATAYUD, 2014).

Já os curdos encontraram mais um inimigo que visa tomar suas posses que dificilmente foram conquistadas, e isso os fez se aliançarem a antigos inimigos (Turquia, Europa de modo geral e EUA). O fato é que o Estado Islâmico representa diversos incômodos na região e fora dela. E isso leva diretamente à cooperação, fazendo com que a política internacional seja priorizada, frente à política interna. O que ainda não ficou claro é até que ponto a atual inércia do governo turco em efetivamente se engajar contra o Estado Islâmico vai impactar na acomodação dos curdos no seio da República. A intersecção de fatores domésticos, regionais e internacionais tem feito do Oriente Médio uma região cada vez mais instável, e o futuro da Turquia e as políticas de seus aliados da OTAN na região estão ainda em jogo.

Referências

BBC Brasil. Iraquianos e curdos tentam conter avanço do Estado Islâmico. 2014. Disponível em: [www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140730_isis_curdos_lk]. Acessado em: 22/10/2014.

CALATAYUD, José Miguel. Turquia rejeita pressão da OTAN para combater o jihadismo na Síria. El País – Internacional, Outubro de 2014. Disponível em; http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/09/internacional/1412882374_939605.html. Acessado em: 01/11/2014.

COSTA JUNIOR, Pedro. Como, afinal, o Estado Islâmico financia as suas atividades. 2014. Disponível em: <exame.abril.com.br/mundo/noticias/como-afinal-o-estado-islamico-financia-as-suas-atividades>. Acessado em: 22/10/2014.

EBC – Internacional. Presidentes dos EUA e Turquia prometem reforçar luta contra o Estado Islâmico. 2014. Disponível em: <www.ebc.com.br/noticias/internacional/2014/10/presidentes-dos-eua-e-turquia-prometem-reforcar-luta-contra-o-estado>. Acessado em: 22/10/2014.

HUNTINGTON, Samuel P. O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial. Lisboa: Gradiva, 1999.

ÖCALAN, Abdullah, Guerra e paz no Curdistão Perspectivas para uma solução política da questão curda. Kohl: International Initiative, 2010. Disponível em: <http://www.freedom-for-ocalan.com/linguas/hintergrund/schriften/Ocalan-Guerra-e-paz-no-Curdistao.pdf>. Acessado em: 22/10/2014.

ÖZDAMAR, Özgur.  A Middle Power’s Domestic Role Contestations: Turkish Foreign Policy Elite’s Contending Role Conceptualizations. FLACSO-ISA Annual Meeting, Buenos Aires- Argentina, 2014.

Danillo Alarcon é professor assistente na Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO. (alarcon_ri@yahoo.com.br)

Guilherme Carvalho é graduando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e bolsista do programa BIC-PUC (guilherme.rel1404@gmail.com)

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