Ebola: falha na resposta da comunidade internacional, por Rodrigo Mavignier Corrêa Silva

Tendo em vista que os primeiros casos confirmados de Ebola surgiram em março de 2014, considera-se lenta e desproporcional a resposta das autoridades sanitárias internacionais para o tratamento do surto. No escopo da Organização das Nações Unidas, o primeiro plano de resposta (Ebola Virus Disease Outbreak Response Plan) foi anunciado pela Organização Mundial de Saúde em 31 de julho de 2014 e, somente em 08 de Agosto, a Diretora Geral da organização, Margaret Chan, declarou o surto uma emergência de saúde pública de alcance mundial. No entanto a postura da OMS reflete o descompasso da resposta internacional como um todo, ou seja, para além das agências da ONU. Trata-se do papel desempenhado pelas grandes potências, pelas organizações não governamentais e pela sociedade civil. Nesta análise pressupõe-se o caráter multifacetado da falha da resposta internacional ao surto e objetiva-se buscar as origens desta a partir da abordagem de variáveis referentes à economia, às estratégias de controle e à estigmatização.

Em se tratando da última variável, colocam-se em questão os discursos segundo os quais se enxerga o continente africano como um local geográfico onde é comum a ocorrência de doenças, as quais, da mesma forma, são vistas naturalmente pertencentes àquele continente. São discursos que, analogamente à análise da epidemia da AIDS na África feita por Guillermo Sanabria, produzem e reforçam a compreensão da doença como estigma, desvio e problema social na medida em que enfatizam a existência de áreas geográficas e ‘grupos de risco’ (SANABRIA, 2013). Essa visão, estabelecida em relação ao recente surto do Ebola, contribui para a exclusão e percepção limitada de situações potencialmente emergenciais, tal qual o tratamento dado aos primeiros casos de febre hemorrágica relatados em março de 2014.

Observa-se, sob o histórico de dezenas de outros surtos da mesma doença no Sudão, no Congo, na África do Sul e em Uganda, a exiguidade da atenção internacional, principalmente da sociedade civil, quando do início da recente epidemia. Em contraste, o tratamento dado aos primeiros casos relatados fora do continente africano recebeu grande atenção da mídia e suscitou a pressões por respostas efetivas. Isto posto, a relativização das abordagens da ocorrência da doença, considerando aspectos étnicos e geográficos, encontra na estigmatização, tanto de doenças como o Ebola e a AIDS quanto do continente africano, uma explicação para a resposta não adequada da comunidade internacional.

A partir de uma abordagem econômica, observam-se as crises financeiras em dois níveis de análises distintos: em primeiro lugar a crise internacional iniciada em 2008 e, em segundo, a crise de extrema pobreza nos países mais afetados pelo surto epidêmico – assim como na maior parte do continente africano.

Uma das principais consequências da crise internacional recai sobre a retração do protagonismo de países europeus, assim como dos Estados Unidos, nas agendas humanitárias internacionais. Isto porquanto surge a necessidade de implementar medidas de austeridade e redistribuição do orçamento para questões internas. Neste ínterim a comunidade internacional mostra-se imersa nas consequências e responsabilidades fiscais da crise. É importante notar que não apenas os atores governamentais, mas o próprio Sistema ONU mostra-se afetado. Atualmente a OMS tem sua capacidade de resposta diminuída pelos cortes de orçamento dos últimos anos. Por conta da crise financeira, o orçamento bienal da organização reduziu-se em US$ 1 bilhão, fazendo com que maior importância seja dada a doenças crônicas mundiais, como o diabetes – em detrimento das emergências humanitárias (NYT, 2014).

Por outro lado, a situação de extrema pobreza nos países mais afetados coloca em dubiedade os métodos tradicionais de contenção do surto aplicados tanto pela Organização Mundial da Saúde quanto pelas ONG’s mais atuantes no caso, tais quais a Médicos Sem Fronteiras e a Cruz Vermelha. Entre os agravantes, países como Serra Leoa, Guiné e Libéria constituem uma região com fronteiras porosas e sistemas de saúde extremamente precários (REUTERS, 2013). Nestas condições os procedimentos de isolamento de pacientes, um dos métodos tradicionais de contenção, enfrentam dificuldades.

Ademais, variáveis estratégicas – por estratégico entende-se o caráter coordenado da ação dos diferentes atores – também possuem aspectos impeditivos de uma melhor resposta internacional ao surto na medida em que a comunidade internacional falha em mobilizar protagonistas para o trato da questão. Consecutivamente, nota-se a recuperação de antigas relações coloniais pelas quais as grandes potências estabelecem canais diretos de ajuda com os três países mais afetados. Em 16 de Setembro, o presidente Barack Obama anunciou o envio de 3 mil militares para a Libéria, entre médicos e engenheiros, para a construção de centros de tratamento e treinamento da força tarefa local. Da mesma forma, o Reino Unido contribui de maneira ostensiva com os países mais afetados, principalmente com Serra Leoa, enquanto a França concentra em destinar seus recursos principalmente à Guiné. Contudo, tais ações isoladas mostram-se pouco eficientes para a resolução do problema, como demonstra Dominique Faget:

‘This lack of coordination among the three largest donors to the fight against Ebola ignores the reality of borders between Liberia, Sierra Leone, and Guinea, where political lines are more a trace of colonialism than an accurate representation of modern-day relationships between the border communities of the three developing nations.

Trade routes running through those border towns helped the virus spread quickly through the three countries, and the divided response from the United States, the U.K., and France only complicated the possibility of containing the outbreak.’ (FAGET, 2014).

Na tentativa de contornar tais dificuldades, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) anunciou, em setembro último, a criação da Missão das Nações Unidas para a Resposta de Emergência ao Ebola (UNMEER). Esta é vista como a união coordenada dos esforços de toda a comunidade internacional a fim de conter o avanço do surto a partir do estabelecimento de cinco prioridades específicas, quais sejam: a paralisação do surto, o tratamento das pessoas infectadas, a prestação de serviços essenciais, a preservação da estabilidade e a prevenção de surtos em países não afetados.

Pela observação dos aspectos analisados compreende-se que atuação da comunidade internacional em resposta ao surto epidêmico do virus Ebola mostra-se, inicialmente, inadequada para lidar com as peculiaridades apresentadas pela situação. Inúmeras são as causas originárias da dificuldade dos variados atores, o que atribui à falha da resposta internacional um caráter multifacetado. Este, por sua vez, envolve questões referentes às percepções da doença e do continente africano, às dificuldades econômicas enfrentadas tanto pela comunidade internacional como pelos países mais afetados pela epidemia e, por fim, ao processo pelo qual a resposta se desenvolve.

Referências

FAGET, Dominique (2014). ‘Colonial Lines Drawn Again for Ebola Aid’. Disponível em: [http://blog.foreignpolicy.com/posts/2014/09/22/colonial_lines_drawn_again_for_ebola_aid]. Acesso em: 18/10/2014.

NYT – The New York Times (2014). ‘Cuts at W.H.O. Hurt Response to Ebola Crisis’. Disponível em: [http://nyti.ms/1u22HQM]. Acesso em: 26/10/2014.

REUTERS (2013). ‘OMS promete análise de sua resposta ao Ebola, mas não comenta falha em relatório’. Disponível em: [http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN0I70F120141018]. Acesso em: 26/10/2014.

SANABRIA, Vega Guillermo (2013). ‘Ciência, Justiça e Cultura na Controvérsia Sul-Africana Sobre as Causas e Tratamentos da AIDS’. Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional, pp. 187, 2013.

UN (2014). ‘Ban urges international community to escalate Ebola response amid worsening outbreak’. Disponível em: [http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=49032#.VE76Xr5sQX6]. Acesso em: 28/10/2014.

WHO – World Health Organization (2014). ‘Ebola Response Roadmap’. Disponível em: [http://www.who.int/csr/resources/publications/ebola/response-roadmap/en/]. Acesso em: 22/10/2014.

Rodrigo Mavignier é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade  de  Brasília  –  PET-REL,  e  do  Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (rodrigomavignier@gmail.com).

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