O pensamento de Ilya Prigogine nas Relações Internacionais: distorcendo as fronteiras entre as ciências humanas e as exatas, por Patrícia Nabuco Martuscelli

Ilya Prigogine trabalhou para modificar a forma como nós pensamos a ciência. Dentre as muitas contribuições do físico naturalizado belga está o fato de diminuir a distância entre as ciências exatas e as ciências humanas. O cientista conseguiu mostrar que a atuação de partículas longe do estado de equilíbrio não seria “racional”, ou seja, essas teriam certo grau de liberdade e não necessariamente buscariam voltar para a posição de equilíbrio. Isso revoluciona toda a forma de pensar a ciência como algo neutro e previsível visto que até a física não seria uma ciência tão exata assim.

A partir das ideias de Ilya Prigogine podemos pensar como está o estudo e a construção do conhecimento na disciplina das Relações Internacionais. Reconhecer a contribuição do autor pode ser uma forma de “libertar” a disciplina do cientificismo e do uso de métodos positivistas que tradicionalmente pautaram as RI. Afinal, se nem as partículas e o universo são previsíveis, por que temos que considerar que os comportamentos dos atores das RI serão racionais, previsíveis e tenderão ao equilíbrio de poder?

Ao concluir que os sistemas estáveis são a exceção e não a regra, Prigogine mostra que devemos abandonar o entendimento da ciência como dogmática e neutra. Os sistemas de Estados não são estáveis e não tendem ao equilíbrio. Guerras, desastres naturais, atos terroristas entre outros impactam as relações entre os países (e outros atores) e passam a modificar a trajetória de um ou mais Estados, sem que isso possa voltar ao mesmo equilíbrio (ou a um equilíbrio “desejável”). Ao consideramos ainda a existência de outros atores que não os Estados na cena internacional, como por exemplo, indivíduos e organizações da sociedade civil, fica mais claro que existe nas Relações Internacionais uma imprevisibilidade dinâmica associada ao ‘caos’. É impossível para qualquer teoria das RI quantificar exatamente todos os recursos de poder, capacidades e possibilidade que existem para um ator das RI. Nessa lógica, existiria um caos instável, ainda mais porque outros fatores (flutuações) que não dependem diretamente da decisão dos atores (como a mudança climática e desastres ambientais) também impactam as RI. O fenômeno do uso de crianças soldado seria um daqueles que levam ao caos nas RI, principalmente porque existe uma legislação para impedir esse fenômeno que não é respeitada internacionalmente. Além disso, conflitos que utilizaram crianças marcam a trajetória dos locais onde esses aconteceram e da comunidade internacional como um todo, impedindo que esses atinjam um equilíbrio igual ao anterior ou “desejável”.

É possível considerar as RI como um sistema dinâmico instável porque elas estão sujeitas a flutuações e também são sensíveis às condições iniciais. Países mais desenvolvidos, por exemplo, conseguiriam lidar melhor com um desastre natural. Isso não quer dizer que o sistema tende ao equilíbrio, pelo contrário, a existência constante de conflitos e as chamadas “novas guerras” mostram claramente que o mundo está cercado de instabilidades. Na verdade, até o sistema bipolar da Guerra Fria poderia ser considerado instável. A crise dos mísseis poderia ter tido outro desfecho. Além disso, nenhuma teoria das RI conseguiu prever o término desse período como aconteceu na realidade.

“Fenômenos caóticos ou irreversíveis não se reduzem a um aumento de “desordem”, como se pensa comumente, mas, ao contrário, têm um importante papel construtivo” (p. 3). As Relações Internacionais, apesar de, em certa medida, serem caóticas e compostas por vários pontos com diferentes graus de liberdade (atores), possuem certa ordem. Essa é instável, mas tem seu papel construtivo. Como define Hedley Bull (2002), existiria uma ordem nas RI e essa seria anárquica. Já na visão de Alexander Wendt (1999), a anarquia seria socialmente construída, ou seja, essa teria um papel construtivo na definição dos Estados e vice-versa. Ilya Prigogine insere em sua teoria o elemento “incerteza” (juntamente com probabilidades). O analista das RI trabalha com incertezas. Seu conhecimento permite que ele crie prováveis cenários a respeito de um fenômeno ou realidade internacional, contudo ele não consegue eliminar a incerteza de seu trabalho.

Segundo o autor, as escolhas, as possibilidades e as incertezas são propriedades do universo (e, desse modo, de toda a matéria que o compõe) e dos seres humanos. Sendo assim, seria incoerente esperar uma postura “racional” e previsível de Estados que são uma construção política dos seres humanos. Os tomadores de decisão possuem suas escolhas com possibilidades e riscos diversos. Dessa maneira, não há como considerar as Relações Internacionais como um sistema estável e previsível. Nessa lógica, seria interessante estudar as incertezas e não ter uma busca epistemológica, ontológica e metodológica por um positivismo científico baseado em ciências exatas que também são compostas de sistemas caóticos e imprevisíveis.

Importante mencionar que, antes de Prigogine, a física e outras ciências exatas contavam com essa “certeza” aparente que permitia a construção de uma ciência “verdadeira e válida”. O trabalho do autor não pretende deixar claro que não é possível fazer ciência, pelo contrário, ele vai muito além ao colocar que a ciência não é sinônimo de certeza, de ausência de caos ou de previsibilidade. Conclui-se que devemos pensar em uma nova realidade científica na qual a verdade não seja necessariamente o certo e o determinado e o indeterminado não signifique o desconhecimento. É possível construir um conhecimento incerto e indeterminado, pois assim é o universo. Esse não é estável e estático, mas está em constante evolução e mudança, como tudo aquilo que o constitui.  Assim, as ciências humanas, exatas e biológicas são colocadas em pé de igualdade visto que a própria vida é o lugar “do não linear, da autonomia do tempo e o reino da multiplicidade das estruturas” (p. 8).

A pretensão científica positivista das Relações Internacionais impede que os pesquisadores possam analisar os fenômenos como eles são na realidade: instáveis, caóticos e em constante mudança e evolução. Entender isso significa realizar novas pesquisas e inserir outros temas na agenda da disciplina, para superar a lógica tradicional de como o conhecimento científico tinha que ser pensado.

Referências:

BULL, Hedley. A Sociedade Anárquica: um estudo da ordem na política internacional. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002. Disponível em: <http://funag.gov.br/loja/download/158-Sociedade_Anarquica_A.pdf>, acesso em 07/11/2014.

MASSONI, Neusa Teresinha. Ilya Prigogine: uma contribuição à filosofia da ciência. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 30, n. 2, 2308, 2008.

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

Patrícia Nabuco Martuscelli é mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (patnabuco@gmail.com)

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