Esquerdas na América do Sul: além da crista da onda, por Bernardo Menescal e Sabrina Sabatovicz

No dia 26 de outubro de 2014, foi reeleita a atual presidente Dilma Rousseff, selando a permanência do Partido dos Trabalhadores no poder ao menos pelos próximos quatro anos. Tal fato não é estranho no cenário político eleitoral sul-americano, marcado por disputas muito acirradas e tensões entre grupos esquerdistas e centro-direita, com predomínio dos primeiros. Se olharmos ao nosso redor, veremos situações que lembram bastante nossa própria política. No Uruguai, com a ida ao segundo turno de dois partidos opositores, um de cunho centro-direita e outro, de esquerda. Na Bolívia, Evo Morales é reeleito e implanta políticas sociais e fortes medidas protecionistas, além de se aliar ideologicamente a regimes como Cuba e Venezuela. No Equador, o atual presidente Rafael Correa é ultra-esquerdista, com políticas voltadas para integração latino-americana e diversificação de mercado, como o Asiático. No Chile, a presidente Michelle Bachellet é centro-esquerdista, com uma política externa também valorizando a integração regional, como a participação na Aliança do Pacífico, e investimentos em parcerias asiáticas. Na Venezuela, Nicolas Maduro é sucessor de Chávez e mantém as tendências chavistas (esquerdistas), como a política externa de cunho anti-hegemônico e associação preferencialmente ideológica, com países como Irã, China, Cuba, Bolívia, Equador. Na Colômbia, Juan Manuel Santos, que era intitulado de “direita”, volta sua atenção para uma política externa também regional, com retomada de fortes parcerias com Venezuela e Equador – ademais, Comunidade Andina- e políticas de cunho sociais. Já o Paraguai, após golpes de Estado sofridos, tem no poder um partido de direita que conta com Horacio Cartes, o atual presidente.

Verifica-se, em geral, uma tendência à manutenção dos movimentos esquerdistas no poder. Em alguns países, contudo, há ascensão de grupos opositores que haviam perdido força na década passada, como o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de cunho centro-direita, no Brasil e Partido Colorado, no Uruguai. Sendo assim, questionamos: estaríamos diante de um cenário de transição, talvez em direção a uma nova América do Sul, politicamente direcionada cada vez mais a políticas mais austeras? Se sim, seria devido à possível falta de sustentabilidade a longo prazo das políticas exercidas por governos “esquerdistas”? Visando iniciar uma reflexão acerca dessas questões, procuramos estabelecer, primeiramente, uma retrospectiva histórico-política dos governos sul-americanos. Depois, descrevemos o atual panorama político e econômico. Em terceiro lugar, problematizamos o conceito de “ondas” e o aplicamos ao panorama atual. Por fim, ofereceremos uma reflexão em torno da ideia de “ondas” e buscamos um vislumbre de futuro da América do Sul.

Ao revisitarmos a história da América do Sul, é comum nos depararmos com o curioso fenômeno de “ondas”, isto é, períodos caracterizados pela predominância de determinadas posições ideológicas, usualmente manifestas nos chefes de Estado. A primeira onda localiza-se no ápice da dominação oligárquica e se realiza em muitos países pelos caudilhos no final do século XIX em países com governo altamente descentralizado, como ocorreu com Andrés Cáceres no Peru, Eloy Alfaro no Equador e Guzmán Blanco na Venezuela (tendo este país uma longa experiência com caudilhos) (ANSALDI e GIORDANO, 2012). Ao mesmo tempo, países com governos centralizados desde cedo, como Uruguai, Argentina e Brasil, experimentam forte caudilhismo em nível local. No século seguinte, podemos delinear, a partir da crise de 1929 até o fim da Segunda Guerra Mundial, uma segunda onda, caracterizada pela ascensão da classe operária e por reformas sociais substantivas a exemplo de Getúlio Vargas no Brasil, Juan Domingo Perón na Argentina e a tomada de poder da Acción Democrática na Venezuela (HALPERIN DONGHI, 1976 e BETHELL e ROXBOROUGH, 1996). O período seguinte se inicia imerso em fortes tensões entre esquerda progressista e direita conservadora e, em sua maior parte, dado o cenário de Guerra Fria, culmina na prevalência de regimes militares de direita, que dão o tom da terceira onda. A quarta e mais breve onda chega em fins do século XX, na esteira da queda da União Soviética e da elaboração do Consenso de Washington, a América do Sul veria uma proliferação de governos com tendências econômicas neoliberais, e.g. Rafael Caldera na Venezuela, Carlos Menem na Argentina e Fernando Collor no Brasil.

Temos de ser cautelosos para que o conceito de ondas não nos leve à conclusão de que existe uma “essência” sul-americana, que ateste sua homogeneidade e nos permita antever o futuro do continente. Para nós, ondas são resultantes da convergência de processos políticos, econômicos e sociais em um determinado recorte de tempo e espaço. Ou seja, dentro de cada um desses processos, podemos encontrar países em diferentes estágios – sendo isso decorrência de suas peculiaridades históricas, geográficas etc. –, o que ressalta a existência de heterogeneidade dentro de uma mesma onda. Mais importante é compreender que as ondas não são em si mecanismos explicativos, mas fenômenos que chamam nossa atenção à possibilidade de existirem tais mecanismos.

Ao olharmos em retrospectiva, como bem já foi assinalado, na última década percebe-se a presença e fortalecimento de governos de esquerda – que defendem amplas medidas sociais – e crescimento econômico acentuado. A permanência, nos últimos anos, desses governos esquerdistas aponta em direção a uma maior integração regional – a saber, Sul-Sul, não só dentro da América do Sul, mas também com mercados de outros continentes, como os asiáticos.  Atualmente, o cenário econômico é relativamente positivo para os países sul-americanos: crescimentos acentuados, aumento nos preços de commodities, maior atuação nas “cadeias globais de valor” (CBV), maior investimento no exterior e maior aproximação, em termos de renda, dos países desenvolvidos, como Colômbia e Bolívia, que têm tido crescimento acelerado (IMF, 2014). Em 2013, são listadas algumas taxas de crescimento: Paraguai (14,1%); Bolívia (6,8%); Peru (6,5%); Colômbia (4,3%) e Chile (4,2%) (ECLAC, 2013). Entretanto, apesar dos bons índices de crescimento econômico relativamente ao mundo, a região enfrenta sérios desafios, como ampliar a integração de cadeias produtivas regionais reduzir a dependência tecnológica em relação aos países desenvolvidos e lidar com a inflação e gastos públicos que são também resultados de políticas sociais – que são muitas vezes utilizadas com objetivo eleitoral e acabam por ser irresponsáveis e insustentáveis economicamente (IMF, 2014). Além disso, impactadas tardiamente pela crise de 2008, algumas economias já apresentam decaimento nos níveis de crescimento: Venezuela e Argentina enfrentam crises e a maior economia da região – Brasil – avança com lentidão, entrando mesmo em recessão técnica.

Os governos, em geral, são caracterizados por políticas que visam maior bem-estar social, com medidas para redução de pobreza, redução do desemprego, maiores índices de alfabetização e de assistência médica. Segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), a Venezuela foi o país que teve a maior queda (5,6%) nos percentuais de pobreza e extrema pobreza (2%) em toda a América Latina, seguida pelo Equador, com redução de 3,1% no índice de pobreza (ECLAC, 2013). No Brasil, o índice caiu 2,3%, seguido pelo Peru (2%), enquanto que Argentina e Colômbia obtiveram redução de 1% (ECLAC, 2013). O setor de saúde e sua expansão também foram analisados: Argentina foi o país que mais expandiu o alcance em áreas urbanas, seguida pelo Chile. A Bolívia obteve também bons índices e a Colômbia, em dez anos, também aumentou consideravelmente, além de sua adesão populacional estar dentre as maiores da região.  O desemprego chegou a 6,4%, em média, nos países da América Latina em 2013, sendo esse o menor nível nas últimas décadas (ECLAC, 2013). A educação também foi área analisada e verificou-se melhoria nos índices de alfabetização (ECLAC, 2013).

Observa-se que, apesar das suas particularidades, os países da América do Sul estiveram, estão e poderão estar em “ondas” periódicas. Atualmente, configura-se, de um ponto de vista político, uma onda de regimes “esquerdistas”, que exercem políticas sociais de distribuição de renda e bem-estar social, custeados pelo Estado. Economicamente, apesar dos diferentes níveis de desenvolvimento das economias, a atual onda se define por bons índices de crescimento para a maioria dos países da região e procura por aumento relativo da autonomia econômica desses países. Ao mesmo tempo, em geral, percebe-se dificuldades advindas da crise de 2008, que acabam por impactar tais níveis e a geração de renda dos países, visto que as economias desenvolvidas também passam por dificuldades. No âmbito social, o clamor maior da sociedade se dirige a agendas do Estado Social Democrático de Direito por excelência como saúde, educação e assistência. Além disso, também é perceptível a dificuldade, por parte do Estado, em equilibrar políticas sociais com sustentabilidade econômica, visto que as atuais políticas de distribuição de renda são mantidas através de governos dispendiosos que acabam por impactar índices econômicos, como a inflação. Em relação a políticas externas, os países tendem a priorizar integração regional, principalmente na América do Sul, se aliando a parceiros tanto economicamente como ideologicamente.

Acreditamos ser permissível e razoável falar em “ondas” sempre que houver uma convergência de processos econômicos, políticos e sociais, que se sustente ao longo do tempo. Considerando os padrões e tendências da região, tais processos têm apresentado, nos últimos anos, consistente convergência na América do Sul. Tendo isso em vista, pode-se dizer que a atual “onda” esquerdista continua forte e tomará algum tempo para que se esvaia. As demandas por políticas sociais, que até o momento encontraram forte expressão nos governos de esquerda, se confrontam com pressões econômicas por maior austeridade – postura estatal mais comum à direita –, as quais têm dado força a grupos de oposição de direita. Tais grupos de oposição podem subir ao poder, porém não é provável que quaisquer desses, a curto prazo, venham a ser ortodoxos puros, realizando liberalização plena dos mercados, reduzindo o Estado, extinguindo políticas sociais já consolidadas, empresas estatais ou distribuição de renda. O que se pode mudar, a curto prazo, e provavelmente mudará, são modelos de governo alternativos, com maior responsabilidade fiscal e políticas mais autossustentáveis, visto que o peso dessas políticas, atualmente, é grande para os países da América do Sul. Essa tendência será observável em maior ou menor medida a depender do estágio em que se encontra a economia de determinado país, das demandas da sociedade e da existência de alternativas políticas fortes.

Referências Bibliográficas

ANSALDI, Waldo e GIORDANO, Veronica (2012). América Latina: La construcción del orden. Vol. 1. 1. ed. Espanha: Editorial Ariel

BETHELL, Leslie e ROXBOROUGH, Ian (1996). História da América Latina: Após 1930. Vol. 5. 1. ed. São Paulo: Edusp,  968 p.

ECLAC (2013). Social Panorama of Latin America. Santiago: CEPAL. Acesso em: http://www.cepal.org/publicaciones/xml/8/51768/SocialPanorama2013Briefing.pdf

HALPERÍN DONGHI, Túlio (1976). História da América Latina. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,  391 p.

IMF (2014). Regional Economic Outlook: Western Hemisphere. Washington, D.C.: International Monetary Fund.  Acesso em: http://www.imf.org/external/pubs/ft/reo/2014/whd/eng/pdf/wreo0414.pdf

Bernardo Menescal é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (bmfs22@gmail.com)

Sabrina Sabatovicz é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (s.sabatovicz@gmail.com)

1 Comentário em Esquerdas na América do Sul: além da crista da onda, por Bernardo Menescal e Sabrina Sabatovicz

  1. Estava justamente procurando pela internet um texto sobre as tendências políticas na América do Sul. E deixo aqui os meus agradecimentos, uma vez que foi além das minhas expectativas!!