MÉXICO, POR QUE O MÉXICO? – Notas panorâmicas sobre os pontos de aproximação entre México e Brasil, por Danillo Avellar Bragança

O objetivo deste texto é produzir, de forma geral e panorâmica, um parecer sobre as condições da relação de política externa entre o Brasil e o México, pela perspectiva do projeto e do planejamento, para além dos resultados. Quer dizer, estes são dois países de muitas semelhanças, mas que guardam uma relação de muita cautela de um para o outro, o que, na maior parte das vezes, causa mais estranhamento do que aproximação. Assim, os interesses podem se mostrar concorrentes, na maior parte das vezes, e é difícil aliar ou alinhar os parâmetros ou objetivos dos dois países, e algumas causas para esta relação serão esmiuçadas mais a frente (NETO E SCHIAVON, 2010).

Por sua natureza, a perspectiva que este texto vai abordar é a observação dos resultados da política externa dos dois países. Isto porque, em sua formulação ou projeto, não há qualquer interesse de aproximação entre Brasil e México. Ainda que constitucionalmente, o Brasil tenha a parâmetro legal de promover a relação com os países vizinhos, notadamente da América do Sul, estender ao México esta condição é flexibilizar demais esta categoria. Não há, portanto, um projeto, ou concepção inicial que indique nestes países um projeto conjunto de política externa.

A conseqüência mais imediata desta opção é o fato de que este texto parecerá uma descrição, mais do que uma análise. Existe alguma bibliografia sobre esta relação, mas não é algo que os acadêmicos dos dois países se debrucem constantemente, dado que não há interesse estratégico que justifique o investimento de tempo e recursos no tema. Existem alguns estudos já consolidados sobre as políticas externas de um e outro, até pensando em termos comparativos, mas pouco se discute a visão planejada, pensando não através dos resultados, muitas vezes acidentais, de política externa dos dois países para um com o outro. Não cabe aqui, assim, empreender uma história da política externa em conjunto de México e Brasil, sobretudo porque o objetivo é tratar das possibilidades futuras de aproximação, e de como esta aproximação, que não ocorre hoje, poderia ser importante para os dois países, para o projeto das duas nações no cenário internacional.

Assim, é um objetivo adjacente a este texto, demonstrar que se poderiam obter ganhos mais concretos se, em alguns casos, esta aproximação acontecesse. Em algumas vezes, pode-se argumentar que, conjuntamente, pela condição de países medianos, em alguns encaixes, sobretudo em relação a países hegemônicos e seus interesses, faça sentido a conciliação. Isto é bastante visto, por exemplo, na ação norte-americana sobre a América Central e a América do Sul, entendendo que o Brasil tenha mais condição de resistência, no período analisado por este texto, do que seu vizinho, no mesmo período. Pela disputa da liderança entre os latinos, Brasil e México tem, também, interesses antagônicos. Em outros encaixes, e isto fica claro pela posição semelhante dos dois países no sistema internacional, há mais distanciamento do que aproximação. Em todos os casos, seja na necessidade de se aproximar ou de se distanciar, pode-se falar em ganhos e perdas, tanto pela proximidade, quanto pela distância.

Há muito que promoveria, por sua vez, uma relação mais próxima entre os dois países, fatores internos ou externos. Mas também há muito nos resultados de política externa que devem ser compreendidos como um condicionamento, um pré-requisito. Variáveis internas e externas interferem diretamente nos resultados dos cálculos colocados no projeto. Afastar-se do projeto pode acarretar talvez dificultar a avaliação dos resultados, mas existe um problema aqui que é a falta de um projeto comum, ou ao menos, alinhado, entre os dois países.

A conjuntura internacional também não favorece um alinhamento mais próximo entre Brasil e México. A própria presença norte-americana no México, a preferência constante das gestões mexicanas pela aproximação com Canadá e Estados Unidos, e o distanciamento e esfriamento das relações externas entre Brasil e Estados Unidos, criam um paradoxo, além de um obstáculo que, por vezes, parece intransponível. De forma mais abrangente, pode-se falar que as relações entre o Brasil e a América Central também carecem desta aproximação, visto que os Estados Unidos exerce influência sobre aqueles Estados, e a presença do Brasil é vista como ameaça, sobretudo no corte temporal em tela. Nesse caso, a desconfiança se estende ao México, com o agravante de que os dois disputam um papel de líder regional. Sem entrar no mérito de se realmente esta liderança é bem exercida, se ela existe de fato, e se existem seguidores (MALAMUD, 2003), mas é imperativo considerar esta condição de projeto dos dois países, separadamente, e os resultados a partir disso.

Se forem avaliados os termos da relação de Brasil e México em relação à sua liderança, por exemplo, junto à vizinhos ou em relação ao peso de cada um deles no sistema internacional, pode-se dizer que o primeiro alcança um status notadamente diferente, de player regional importante (LIMA, 2006) enquanto o último tenta se estabelecer como tal. O México, por conta da presença norte-americana, acaba por atuar externamente nas margens, lateralmente. Mesmo assim, não há relação de hegemonia de um para o outro, os dois competem em condições bastante próximas no sistema internacional.

Os mexicanos conhecem muito o Brasil, mas o Brasil ainda não descobriu o México. A cooperação entre os dois países, mesmo em meios diplomáticos, raramente demanda mais do que uma página de análise, o que gera muita reclamação do lado mexicano, mas pouco interesse do lado brasileiro. É preciso ampliar o diálogo com o México, ampliar as possibilidades de ganhos mútuos, partindo do pressuposto que uma liderança também define, por qualquer das partes, responsabilidades importantes para todos os envolvidos, sobretudo quando se tratam de potências médias, como Brasil e México.

Ainda que no campo do multilateralismo e da liderança, os interesses possam parecer neste primeiro momento, inconciliáveis, a construção de uma relação sólida passa pelas boas práticas, pelos protocolos de cooperação técnica, e pela compreensão do outro. A cooperação é uma construção não é um dado natural. Ou seja, é preciso olhar para os pontos onde é possível expandir esta aproximação, desenvolver esta cultura de parceria, e recolher os resultados positivos.

Como foi possível ser visto aqui, o tema da liderança ainda é um tema bastante espinhoso para os dois países. Está no projeto de nação dos dois países, e envolve muito mais do que o cálculo de ganhos e perdas no campo político. Envolve também a questão da auto-imagem de si próprio, na construção de uma visão que não raro é vendida para a opinião pública e que o enraizamento destas projeções acabam por motivar ou não setores inteiros. Cada camada social se apropria deste discurso, e incorpora para si certos parâmetros, contribuindo com outros, dando à política externa um norte a ser seguido. A política externa é uma política pública, que envolve a sociedade, e é natural, portanto, que assim seja.

No entanto, o tema do comércio é um tema de maior flexibilidade. A predileção que o Brasil mostra apresentar pelos BRICS e que o México tem como relação histórica preferencial com os Estados Unidos, não pode ser interpretada, entretanto, como uma possibilidade de conflito entre os dois. De fato, como tentou se apresentar aqui, o comércio pode ser um espaço para que os dois países possam crescer conjuntamente, explorando as similaridades históricas e sociais que hoje tem.

Em verdade, essas proximidades sempre estiveram lá. Por motivos muitas vezes difíceis de serem detectados, os projetos de política externa e crescimento de Brasil e México não se comunicavam, e o contato era limitado. A condição dos dois países hoje no cenário internacional mostra que isto pode ser diferente. Nesta análise bastante limitada e panorâmica da relação entre os dois países, o resultado não poderia ser outro. Brasil e México tem muito a se aproximar, e o véu de desconfiança que existe entre os dois pode se dissipar pela construção de uma relação sólida e permanente, através do diálogo constante entre os dois países.

Bibliografia:

BERNARDI, B. B. “O processo de democratização e a política externa mexicana de direitos humanos: uma análise ao longo de duas décadas (1988-2006).” Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP: São Paulo, 2009

HIRST, M,  e LIMA, MRS. “Brazil as an intermediate state and regional power: action, choice and responsibilities” – International Affairs, 2006

LEITE, Patrícia. O Brasil e a Cooperação Sul-Sul em três momentos de política externa:os governos Jânio Quadros/João Goulart, Ernesto Geisel e Luiz Inácio Lula da Silva. Ed. FUNAG. Brasilia, 2011.

MALAMUD, Andrés. “A Leader Without Followers? The Growing Divergence Between  the Regional and Global Performance of Brazilian Foreign Policy.” Univ. Miami. Miami, 2011.

MONIZ BANDEIRA. L. “A política exterior de FHC a Lula.” Proj. História, São Paulo, (31), p. 109-130, dez. 2005

QUESADA, Vicente Fox. “Alternância e política exterior no México: uma mensagem do Presidente”. Rev. bras. polít. int.[online]. 2002, vol.45, n.2, pp. 224-228. ISSN 0034-7329.

Relatórios e informes consultados:

ALADI, 2009

http://www.aladi.org/nsfaladi/estudios.nsf/976268b0319cf31c032574a300528c83/589d42ae3f791eb20325787f00679d02/$FILE/F_OC_BR_001_11_MX.pdf

APEX BRASIL, 2010

 http://www2.apexbrasil.com.br/media/estudo/mexico_17102012160930.pdf

EBC, 2013.

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-05-17/brasil-e-mexico-vao-aproximar-petroleiras-estatais-petrobras-e-pemex

IPEA, 2000

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=4142

Danillo Avellar Bragança é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

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