Coreia do Norte: entre as disputas políticas internas e as reformas econômicas, por Pedro Vinícius Pereira Brites e Bruna Coelho Jaeger

O reaparecimento público de Kim Jong-Un no último dia 14 pôs fim a uma série de boatos acerca da saúde do líder norte-coreano e diminuiu as suspeitas sobre um possível golpe político no país comunista. As suspeitas começaram quando o supremo líder ficou cerca de um mês sem aparições públicas, fato que, somado à recente visita surpresa de uma delegação norte-coreana à Coreia do Sul, gerou uma onda de especulações sobre a estabilidade política no país. Entretanto, mais do que indicativo de um colapso político, a visita parece ser resultado de uma articulação voltada à normalização das relações econômicas entre os dois países, que estão interrompidas desde fevereiro deste ano.

Desde que assumiu o comando do país, ainda em 2011, logo após o falecimento de Kim Jong-Il, Kim Jong-Un vem enfrentando dificuldades para consolidar seu poder e alterar o panorama de extrema dificuldade econômica que assola o país, praticamente desde meados da década de 1990. Logo no início de seu governo, buscou distanciar-se do perfil de liderança de seu pai, ao adotar uma imagem pública mais popular. Além disso, vem buscando dinamizar a economia favorecendo a criação de zonas econômicas especiais junto à China e através da utilização do exército em grandes obras públicas, tais como a construção de autopistas, plantas energéticas e nas fazendas coletivas (CORDESMAN & HAAS, 2013). Entretanto, essa modernização econômica não é um processo simples, afinal enfrenta oposição dentro de alas conservadoras, tanto nas Forças Armadas quanto no Partido dos Trabalhadores Coreano (PTC).

Nesse contexto, assim que assumiu o poder, o novo líder procurou empreender uma realocação das posições de lideranças das duas instituições, com o objetivo de criar um círculo de poder fiel a ele. Fortaleceu o poder de seu tio Jang Song-Taek na Comissão Nacional de Defesa, implementou uma reforma monetária que acabou diluindo o poder dos militares – já que estes controlam grande parcela do capital financeiro do país – e, ademais, consolidou seu controle sobre todo o sistema de inteligência do país. Esse processo relativizou a preponderância das Forças Armadas na governança do país, cedendo mais espaço para o PTC. Contudo, após o expurgo público de Song-Taek, no final de 2013, esse processo de disputas internas pareceu estar entrando em uma nova fase com um avanço conservador.

A partir desse quadro, pode-se inferir que as recentes alterações no comportamento norte-coreano derivam dessas disputas que se acirram no plano político interno. Em outros termos, existe uma disputa sobre qual o perfil de inserção internacional e de estratégia econômica que o país irá adotar: manter-se isolado o máximo possível da comunidade internacional, com o Estado exercendo controle absoluto sobre a economia, ou adotar uma estratégia de crescimento a partir do incremento do comércio exterior, com um mercado relativamente aberto.

Dado esse panorama, o recente sumiço de Kim Jong-Un abriu espaço para uma série de rumores acerca de um possível golpe contra o supremo líder. Alguns relatos, especialmente de expatriados, davam conta de um golpe por parte do Departamento de Orientação e Organização (DOO) do PTC, um dos departamentos mais conservadores e poderosos do partido e responsável por fazer com que as diretrizes originais da doutrina juche – o ideário que serve de elemento de coesão social e de nacionalismo desde a fundação do país – sejam seguidas. Segundo essas fontes, o golpe teria ocorrido ainda em 2013 e o supremo líder seria apenas uma figura pública para a manutenção do regime, mas quem teria as rédeas da governança do país seria o DOO. Apesar de não ser possível afirmar com plena exatidão se o supremo líder perdeu ou não o controle político do país, pode-se dizer que não afetou o processo de reforma econômica em curso, especialmente, desde que Kim Jong-Un assumiu o poder.

Nesse sentido, dois eventos demonstram que esse processo continua em curso. Primeiramente, pode-se destacar a visita surpresa que uma delegação norte-coreana, que incluía Hwang Pyong-So, vice-presidente da Comissão Nacional de Defesa, fez à Coreia do Sul no inicio de outubro. Desde 2007, os dois países não mantinham conversações diplomáticas de alto nível, fato que, combinado com uma declaração do regime norte-coreano defendendo uma reunificação coordenada e baseada no princípio de federação, indicam a retomada de uma política de engajamento regional. Além de buscar uma retomada das relações com o Sul – que pode se estender no final do mês em uma nova rodada de conversações de alto nível – há também uma aproximação econômica com a Rússia, que irá realizar uma missão para ampliar os investimentos na Coreia do Norte no final do mês (LISTON, 2014). Com relação à China, houve um avanço nas relações comerciais, que cresceram cerca de 8% em 2013, apesar de um estremecimento das relações políticas após os testes nucleares em fevereiro de 2013 (GLOBAL POST, 2014). Todos esses indicadores demonstram uma tendência do país em normalizar suas relações com os vizinhos, com o objetivo de manter o processo de modernização econômica.

O segundo evento é o fato de a reaproximação ocorrer justamente em um momento em que a economia do país parece experimentar uma fase de crescimento. Recentemente, o Banco Central da Coreia afirmou que o vizinho do norte deve crescer cerca de 2% em 2014. Além disso, existem vários relatos que indicam que os empreendimentos tem se multiplicado no país, bem como a agricultura tem demonstrado recuperação. Em 2013, a produção alimentar superou as necessidades da população, pela primeira vez em anos, e em 2014, apesar da seca durante a primavera, a expectativa é de que se mantenha um nível de produção acima do consumo médio (LANKOV, 2014). Em um país que sofreu com a epidemia de fome durante os anos 1990, esses indicadores podem representar uma alteração no quadro de quase colapso dos anos anteriores.

Embora os indicadores demonstrem uma melhora na economia, isso não quer dizer, entretanto, que o país tenha abdicado da sua política externa pendular para a região, ora afrouxando as relações com os vizinhos, ora as tensionando. Um demonstrativo disso é a troca de tiros entre as duas Coreias na Linha Limite do Norte (responsável por separar as águas jurisdicionais dos países no Mar Amarelo) nos dias subsequentes às conversações diplomáticas. Por isso, os próximos meses serão cruciais para que se estabeleça uma análise mais adequada acerca dos resultados que esse processo de disputa interna e de modernização econômica vai implicar. Cabe destacar que esse é um momento de melhoria nas relações entre os países da região, especialmente pois China, Japão e Coreia do Sul têm acenado com a possibilidade de retomar os esforços por uma integração regional, mesmo que restrita ao plano econômico –  cuja possibilidade estava estagnada desde 2010.

Por fim, os últimos eventos na Coreia do Norte sinalizam um momento maior de transição do regime, tanto no plano político quanto econômico. Nesse sentido, a possibilidade de um colapso – hipótese que orienta a política externa dos EUA e da Coreia do Sul para o norte – no curto prazo parece pouco provável. Assim, é de se esperar que os EUA, principalmente, tenham de alterar sua política de paciência estratégica em vigor durante o governo Obama, se desejarem retomar as negociações acerca do programa nuclear norte-coreano. Caso a reforma econômica se consolide, por um lado, a Coreia do Norte ficará menos isolada diplomática e economicamente, o que a torna mais apta a manter sua retórica firme no âmbito regional, porém fortalece as alas políticas que visam à normalização das relações com os vizinhos com o objetivo de manter o crescimento econômico. Dessa forma, os resultados ainda são pouco palpáveis, mas denotam uma alteração na base de relacionamento do país com os vizinhos e um acirramento das disputas internas pelo controle desse processo.

Referências Bibliográficas

CORDESMAN, Anthony H. & HAAS, Ashley (2013). The Evolving Military Balance in the Korean Peninsula and Northeast Asia. Center for Strategic & International Studies, 2013.

LANKOV, Andrei (2014). Kim Jong Un and North Korea’s Mysteries.  Bloomberg View, 12 de outubro de 2014. Disponível em: http://www.bloombergview.com/articles/2014-10-12/kim-jong-un-and-north-korea-s-mysteries

LISTON, Enjoli (2014). Russian investors to visit North Korea to boost business ties. The Guardian, 02 de Outubro de 2014. Disponível em: http://www.theguardian.com/world/2014/oct/02/russian-investors-north-korea-boost-business. Acesso em: 18 de outubro de 2014.

GLOBAL POST (2014).China holds trade fair with North Korea amid cooling relations. Global Post, 16 de outubro de 2014. Disponível em: http://www.globalpost.com/dispatch/news/kyodo-news-international/141016/china-holds-trade-fair-north-korea-amid-cooling-relati. Acesso em: 17 de outubro de 2014.

Pedro Vinícius Pereira Brites é professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Ritter dos Reis e da Faculdade América Latina (pvbrittes@gmail.com)

Bruna Coelho Jaeger é diretora de Pesquisas do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia – ISAPE (brunacjaeger@gmail.com)

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