Ebola na África Ocidental: cooperação e segurança internacional em torno do risco de disseminação da epidemia, por Fabiola Faro Eloy Dunda e Gills Villar Lopes

O vírus Ebola foi detectado pela primeira vez em 1976, na atual República Democrática do Congo, antigo Zaire (CDC, 2014; WHO, 2014a). Desde então, o número de casos passou a ser detectado em outros países, tais como Gabão, Costa do Marfim, Uganda e, mais recentemente, Libéria, Guiné, Serra Leoa, Nigéria, Estados Unidos e Espanha.

A atual epidemia de Ebola, considerada a maior desde o seu primeiro surto, tem despertado não apenas questões relacionadas à cooperação internacional sobre o tema, mas também à segurança internacional, uma vez que houve transmissão do vírus entre indivíduos, fora do continente africano: uma nos EUA e outra na Espanha.

Assim, as questões sanitárias relativas à atual epidemia de um vírus ainda sem cura inserem-se no contexto das relações internacionais, dado que existe o risco de contaminação não apenas para indivíduos que vivem em áreas acometidas pela epidemia, mas também para os de fora dela, quando se considera os transbordamentos transfronteiriços e o grande fluxo migratório contemporâneo.

Um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a epidemia, de 10/10/2014, apresenta um total de 8.399 casos – confirmados, prováveis e suspeitos – de Ebola em sete países – Guiné, Libéria, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Espanha e Estados Unidos – com 4.033 mortes confirmadas (WHO, 2014c).

No início da atual epidemia, em março de 2014, a OMS conseguiu que Estados, organismos e empresas dessem suporte a atividades da Organização até junho de 2014. No entanto, diante do avanço da doença, no mês de julho, a OMS publicou um plano de ação para o oeste africano, determinando várias ações multinível (local, nacional e internacional) e conclamando a participação da comunidade internacional.

Ações no nível internacional, incluiriam: o compartilhamento de informação entre países, por meio de instituições – tais como OMS, Nações Unidas e ONGs –; a captação de recursos para a contenção da epidemia; e a cooperação em vacinas e medicamentos contra o vírus.

Até recentemente, o tratamento disponível (WHO, 2014d) para os africanos contaminados pelo vírus incluía: hidratação; alimentação; medicamentos sintomáticos para febre, dores e vômitos; e suporte hemodinâmico intensivo, uma vez que a doença pode evoluir para sangramento externo e em órgãos internos, comprometendo funções dos rins e fígado, e até levar à morte. Assim, o ZMapp, o primeiro medicamento experimental, começou a ser testado. Porém, a verificação da real resposta do vírus a esse tratamento ainda é precoce (CDC, 2014b).

Em setembro de 2014, a OMS voltou a promover novo encontro com especialistas na área de pesquisa, ética, financiamento e coleta de dados sobre Ebola, para avaliar a resposta clínica da medicação experimental testada até o momento. Esse encontro resultou na determinação de que o material sanguíneo dos pacientes infectados deva ser utilizado nas pesquisas para o combate ao vírus. Discutiu-se também a possibilidade de utilizar dois novos medicamentos experimentais, em pesquisa nos EUA, mas só se for provada sua segurança (WHO, 2014e).

Nos casos da atual epidemia do vírus Ebola, o medo pelo risco de contaminação em massa – passando-se, então, do estagio de epidemia para o de pandemia – determina que haja um movimento cooperativo da comunidade internacional na tentativa de conter a doença, principalmente por não existir ainda tratamento específico, além de seu elevado grau de letalidade.

Nesse contexto, faz-se necessária a cooperação entre governos, bem como o apoio de ONGs e organizações intergovernamentais, destacando-se a OMS como organismo maior para a articulação de medidas de prevenção, controle e tratamento da epidemia Essa articulação se justifica pelo fato de se promover uma ampla disseminação de informação sobre o vírus e sua forma de contágio, facilitando e proporcionando o estabelecimento multinível de medidas para diagnóstico, prevenção e controle da doença.

Nesse viés, as questões de segurança internacional, especialmente as de fronteiras – passam a ter papel fundamental na tentativa de contenção da atual epidemia, tanto no contexto dos países vizinhos aos países atingidos, quanto dos além-mar africano, com o uso, dentre outras medidas, da consagrada quarentena.

O número de atores, no caso da saúde, e particularmente no da epidemia de Ebola, demonstra importar para se lograr êxito na não disseminação do vírus em escala global. Para se ter uma ideia, a OMS estruturou a Rede de Laboratórios para os Patogénicos Emergentes e Perigosos (ADPLN), com cinco laboratórios com capacidade para diagnosticar o vírus Ebola (AFR-EDPLN), espalhados pela África; e quatro laboratórios de apoio a resposta ao surto de Ebola na Guiné (Global EDPLN), nos Estados Unidos, Alemanha, Canadá e França (WHO, 2014d). Na atual epidemia, os EUA mobilizaram sozinhos 287 pessoas dentro do país e mais de 70 para atuar diretamente nos quatro países com pacientes infectados (CDC, 2014c).

Os recentes casos de Ebola diagnosticados nos EUA –  três casos, e uma morte – deflagraram, em grande medida, o aumento dos esforços deste país em conter a epidemia. O envio de tropas estadunidenses para a implantação de infraestrutura – como unidades de saúde e unidades de emergência – para que os especialistas em saúde possam atender e tratar os doentes, assim como material para a instalação de laboratórios móveis para fazer o diagnóstico, em tempo mais hábil, da doença (BBC, 2014; O GLOBO, 2014).

Considerando que cooperação é uma ação que ocorre quando atores ajustam seus comportamentos para as preferências atuais ou antecipadas dos outros atores, por meio de um processo de coordenação política (MILNER, 1997), observa-se que, o caso da epidemia de Ebola na África Ocidental configura uma condição que impulsiona ações de cooperação entre os países vizinhos ou não daqueles vitimados pela epidemia. Assim, colaboram de forma multinível com recursos, trocas de informação, capital humano, bem como a doação de medicamento experimental utilizado em pesquisa na fase ainda não humana, para o tratamento de pacientes infectados pelo vírus.

Ao utilizarem instituições que empreendem ações multiníveis na tentativa de controle da epidemia, os países agem em prol dos seus interesses, seja diminuindo o número de pessoas infectadas e vítimas mortais da doença, seja protegendo seus nacionais e evitar que a doença torne-se uma pandemia mundial. Entende-se que a falta de cooperação para com a atual epidemia de Ebola geraria grandes impactos tanto na questão da segurança internacional quanto em inúmeros setores da sociedade internacional, a exemplo do comércio internacional.

A cooperação internacional em saúde firma-se, nesse sentido, como um importante e determinante instrumento para que a epidemia de Ebola possa ser controlada e não colocar em risco, em última instância, a segurança de todas nações.

Referências

  • BBC Mundo (2014). EE.UU. envía laboratorio y hospital de campaña a Liberia por ébola. Disponível em: [http://www.bbc.co.uk/mundo/ultimas_noticias/2014/09/140930_ultnot_eeuu_ebola_liberia_equipo_ch]. Acesso em: 13/10/2014.
  • CDC – US Centers for Disease Control and Prevention (2014a). Chronology of Ebola Hemorrhagic Fever Outbreaks. Disponível em: [http://www.cdc.gov/vhf/ebola/resources/outbreak-table.html]. Acesso em: 11/08/2014.
  • ______ (2014b). Questions and Answers on Experimental Treatments and Vaccines for Ebola. Disponível em: [http://www.cdc.gov/vhf/ebola/outbreaks/guinea/qa-experimental-treatments.html]. Acesso em: 07/09/2014.
  • ______ (2014c). 2014 Ebola response: CDC in action. Disponível em: [http://www.cdc.gov/vhf/ebola/pdf/cdc-in-action.pdf]. Acesso em:
  • 04/09/2014.
  • MILNER, H. V (1997). Interests, Instituitions and information: domestic politics and International Relations. New Jersey: Princeton University Press, 309 p.
  • O GLOBO. Estados Unidos enviam mais mil soldados ao Oeste da África para ajudar a conter o ebola . Disponível em: [http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/estados-unidos-enviam-mais-mil-soldados-ao-oeste-da-africa-para-ajudar-conter-ebola-14128702]. Acesso em: 13/10/2014.
  • WHO – World Health Organization (2014a). Ebola Virus Disease. Disponível em: [http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en]. Acesso em: 08/08/2014.
  • _____(2014b). Ebola response roadmap updade. Disponível em: [http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/136161/1/roadmapupdate10Oct14_eng.pdf]. Acesso em: 13/10/2014.
  • ______ (2014c). Ebola virus disease outbreak response plan in West Africa, World Health Organization and the governments of Guinea, Liberia, and Sierra Leone. Disponível em: [http://www.who.int/csr/disease/ebola/evd-outbreak-response-plan-west-africa-2014.pdf]. Acesso em: 08/08/2014.
  • _____(2014d). Ebola Virus Disease. Disponível em: [http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en]. Acesso em: 08/08/2014.
  • _____(2014e). Statement on the WHO Consultation on potential Ebola therapies and vaccines. Disponível em: [http://www.who.int/mediacentre/news/statements/2014/ebola-therapies-consultation/en/]. Aceso em: 04/09/2014.

Fabiola Faro Eloy Dunda é médica e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (fabioladunda@gmail.com)

Gills Vilar Lopes é bolsista Pró-Estratégia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -CAPES/SAE pelo Doutorado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (gills@gills.com.br)

Seja o primeiro a comentar